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11/01/2007

um transporte sempre em andamento

Arquivado em: escrever é

Ontem editei aqui um texto a que dei o nome Se Isto É Escrever. Confesso que não tinha nenhuma ideia do que ia escrever. Não havia uma consciência de escrita que obedecesse a uma regra criativa que incluísse o problema da temática ou outro pormenor descritivo que cativasse o leitor. Escrevi esse texto inconscientemente. Escrevi-o como se me sentisse uma peça dum jogo que eu desconhecesse as regras. Escrevi sem sentido do que estava a sentir no momento de escrever. Foi uma espécie de desistência, esse instante em que todas as palavras engrossam no meu cérebro para cativarem um lugar no texto; e eu permiti que as palavras ocupassem lugares de entendimento estranhos e inadequados e prejudicassem dessa forma a compreensão dos leitores. Também a minha compreensão do que escrevi ficou afectada. Há frases que não sei o que significam. Houve apenas a utilização de palavras para formar um corpo frásico. Houve, e isso não poderei desmentir, uma preocupação de juntar palavras que se sentissem umas às outras. E o resultado foi uma carruagem de significados adulterados pela minha inconsciência voluntária de escrever. Mas existe um ou vários sentidos no texto. No meu subconsciente o texto tem todo o sentido, uma vez que escapou ao processo mental de haver um esforço consciente que lhe desse uma razão de ser escrito. A razão do texto está nas imagens subconscientes que eu criei a partir de um processo quase nulo de expressão mental; isto é, a figuração das frases muito dificilmente pertence a um real que domine o meu acto de pensar e escrever. A escrita é um acto consciente, mas o que em mim escreve é o meu estado semiconsciente. A imagem seria esta: escrevo como se tentasse apanhar um transporte sempre em andamento.

fernando esteves pinto

3 Comentários »

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  1. Escrever talvez seja sempre, para o escritor, a expressão de uma impossibilidade, logo uma actividade paradoxal. E talvez o seja toda a arte, ou todo o impulso artístico. Interessante, o conjunto dos dois textos, obrigado.

    Luís

    Comment by sulscrito — 11/01/2007 @ 4:03 pm

  2. nesse sentido, será sempre uma língua bífida.
    EhEhEh…

    Pedro

    Comment by pedro afonso — 11/01/2007 @ 6:51 pm

  3. “(…) confesso que não tinha nenhuma ideia do que ia escrever. Não havia uma consciência de escrita que obedecesse a uma regra criativa (…)” - Não será isso uma “aparição”?…

    Comment by Miguel — 11/01/2007 @ 7:01 pm

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