crónica do pensamento
Há uma coisa importante que é preciso saber sobre as pessoas que escrevem. Talvez isso as distinga uns dos outros: há quem esteja na escrita porque se tornou insuportável estar dentro de si. Há também os outros - os que exploram a escrita como se abusassem da confiança das palavras.
Não estou em nenhum deles. Sempre senti outro perigo a escrever.
O perigo de escrever sobre os outros - ainda a ouvir as suas vozes a embater contra o tempo que me protege dos seus actos - eu a escrever e eles a reclamar o seu lugar na escrita a ser produzida. Escrever em directo, sem nenhuma ausência. Sem isso a que chamamos distanciamento.
Nunca pus a escrita ao serviço da mentira. É isso que eu censuro em alguns escritores: a mentira. Escrever muito bem sobre o que nunca sentiram, é isso que eles fazem, não é preciso sentir, as palavras já trazem o belo incorporado sem ser necessário o pensamento profundo.
Eu tinha a minha casa e a casa era um mundo na minha infância. Uma casa sem palavras. Tudo era grande nesse tempo, vazio e aberto como um campo onde eu pudesse correr sem vontade. Escrevi as primeiras palavras que ninguém havia dito naquela casa. Não sei como aconteceu. Talvez eu tivesse fugido das pessoas para me tornar o cronista da vida delas. Aquele que escreve. O que vive só com as palavras dos outros.
Não é um abandono, esta forma de escrever sobre os outros. Viver na solidão dos outros também é escrever sobre mim. Sempre me posicionei, tanto na vida como na escrita, entre o silêncio e as palavras dos que estão à minha volta.
Comecei a escrever quando me puseram de castigo num lugar silencioso. Levei muito tempo a pensar que a escrita era um trabalho de castigo que a solidão impunha ao meu pensamento como paga dos meus actos. Inverti tudo. Mudei a vida do avesso. A vida sobre quem escrevo. Abri a vida deles de forma a expor também a minha. É inevitável para quem escreve e não contempla somente o seu pensamento como forma de disfarce que certos escritores adoptam para escreverem sobre o nada das suas vidas.
A escrita é mais que o próprio pensamento.
A escrita merece mais que o pensamento de quem escreve em silêncio.
fernando esteves pinto

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