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20/01/2007

algumas regras

Arquivado em: escrever é

Imagino um escritor sentado no penico das suas necessidades sentimentais a defecar afectos encantados para comercializar no mercado do lugar-comum, essa vistosa vitrina onde o pensamento se expõe por palavras e se decompõe como um pedaço de razão contaminado de mentiras.

Sei, os mortos ainda escrevem melhor do que os vivos.
Estou a pensar no que acabei de escrever.
Estamos na vida e o tempo toca para sairmos.
A morte. Não leio portugueses em nenhum tempo.

Um dia o filho diz ao jovem escritor que o pai é um maluquinho a falar com as palavras.
Ninguém compreende, mas é isso que o escritor faz com os livros que escreve:
sentado na primeira fila na sala da sua vida, escreve redacções lacrimais para os outros que estão sentados atrás de si - esses personagens de nenhum romance que aguardam impacientes e feridos
na longa leitura que enegrece ainda mais as suas vidas.

Escrever para enganar. O que vou pensar agora?
Pôr o sol atrás de mim quando caminho em direcção à escola?
Escrever que a minha professora é uma mulher igual a todos os vestidos que a minha mãe não veste
e que estão guardados há anos dentro dum guarda-fatos?

Ele é um jovem escritor com uma intuição que só pode ser avaliada e admirada
quando o tempo da sua vida passar.
É tão fácil, pensa o escritor. O leitor já não é exigente.
Compra livros já lidos na apresentação do contra-pensamento.
Agora os livros são embalagens vazias que tu podes preencher ou não com o teu pensamento.
Dar vida aos livros através do leitor, da sua disponibilidade económica, nunca humana.

Estou a imaginar esse jovem escritor sentado num imenso prado e a tirar coelhos da cabeça como quem troca cromos de palavras. Nunca gostei de livros que se escondem atrás dos seus autores. Se o coração do jovem escritor falhar, o filho que um dia terá a idade do pai que morreu pegará fogo aos livros que ele escreveu.

Ridículo. A escrita é uma doença sem vontade de cura.

Assim falei sobre um jovem escritor que é mais erro que autor.
Um erro totalmente atribuído pelo leitor,
esse grande juiz literário sem grandes conhecimentos das regras da solidão daquele que escreve.

fernando esteves pinto

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