a escrita cega
Hoje não consigo olhar a minha mãe como quando era criança. Ela fala-me da sua vida, demora-se muito tempo em algumas palavras, pequenas histórias já repetidas noutras circunstâncias, fala-me das pessoas que neste momento da sua vida a rodeiam, e os meus olhos nunca se viram para ela. Enquanto ela me fala, como se ainda vivesse debaixo do tempo passado, eu penso como tenho coragem de não a olhar nos olhos. A vida faz isto às pessoas que escrevem: esconder o olhar da escrita sempre que alguém nos fala.
Escutar em vez de olhar. É isso que eu faço com a minha mãe. O meu olhar está na escrita do que ela me conta da sua vida. As crianças, quando os adultos lhes falam, são obrigadas a olhá-los nos olhos. Olha para mim enquanto falo contigo. A dor dos que viveram mais que as crianças pede isso às próprias crianças. A criança velha e amargurada pede a atenção do olhar verdadeiro da criança que aprende a olhar. Mas o tempo destrói a mentira daquele que olha sem coragem. Quando sei que vou escrever sobre alguém, o meu olhar sobre ela não é importante. Com a minha mãe é o mesmo. O meu pensamento olha-a com toda a certeza de a ver representada no que escrevo.
Oiço a voz da minha mãe como se ela caminhasse devagar à minha volta em infinitos círculos mentais tão parecidos com a solidão que antecede o acto de a pensar sentada na minha frente. O meu pensamento está já a escrever com as palavras que ela me diz. Olhá-la seria destruir a escrita que o meu olhar não sabe suportar. É insuportável, sim. É insuportável a força que a coragem exerce sobre os actos negativos que temos reservado para os outros.
Sempre tive uma atitude feia perante a minha mãe. O facto de escrever fazia-me pensar que eu podia ensiná-la a viver melhor. A escrita não é assim tão perfeita. Escreve-se por defeito da nossa própria razão. A vida escreve muito mais do que podemos pensar. A escrita embrutece o olhar sobre a vida. Não olhar a minha mãe nos olhos é uma forma de a poupar do desespero de quem escreve. Não se pode escrever sem implicar os outros na nossa escrita. Para um escritor, tudo o que ele escreve é uma ocupação sobre o outro. A escrita despeja todos os dias no mundo homens e mulheres que escrevem sobre as suas próprias vidas. E na vida dessas pessoas que escrevem quase nada existe que toque os outros. Esses são os escritores sem mundo. Sempre me fez impressão escrever sem interior. A escrita é mais que o próprio olhar de quem escreve. A escrita cega.
fernando esteves pinto

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