é um escritor perfeitamente errado
Talvez seja a sua fragilidade. Porque a fraqueza que ele sente perante os outros é tão profunda, tão vivida ao nível da sua consciência, que ninguém se apercebe dessa dificuldade da sua vida em comentar o seu trabalho. Ele escreve. Ele tenta aperfeiçoar-se através da escrita. As pessoas para quem ele escreve sentem que vão muito longe na compreensão do que lêem. São pessoas destruídas. São pessoas que procuram no livro o que não sabem sentir por elas próprias.
Os leitores estão sempre a ser enganados pelos que escrevem a partir de uma ideia organizada. Orientar um plano afectivo, sentir as palavras como função sentimental. A mentira como imagem de estilo regulamentada. A vaidade emocional a rendilhar o coração. Lê-se muito isso por aí. Uma autoria obsessiva e mediática a invadir a feira literária.
Ele escreve, mas sem nenhuma verdade. Ele nunca sentiu esse peso, escrever como se sentisse insultado por si mesmo. Não tem essa coragem, não escreve. Ao contrário disso, dá-nos redacções com valor suficiente para meninas cábulas. São esses os seus leitores: os cábulas da vida e do romance falhado.
Estou a escrever para depois. Por outras palavras: estou a denunciar o futuro daqueles que escrevem sem nenhuma propriedade existencial. Nunca a literatura foi tão iluminada nos salões da futilidade. Assim como esse que escreve a infantilidade ajuizada dos seus pensamentos como se fosse a dançar no caminho para a escola. Esse que não tem uma palavra que lhe suje o bibe do bom comportamento social. Escrever com palavras limpas mas nunca livres, é isso que ele faz.
Ele é desde sempre um jovem escritor que se vigia a si próprio. A fraqueza dita-lhe a escrita do medo. A escrita sujeita ao julgamento de quem renúncia todas as histórias criadas pelo medo. Ele é isso, um escritor fotográfico. Um coleccionador de foto emoções que faz a decoração do tempo da sua vida. Mas ele nunca há-de saber que a escrita é mais que uma galeria de imagens correctamente alinhadas para meditações melodiosas. Ele escreve sem culpa, e sem culpa não pode haver escrita. É um escritor perfeitamente errado.
fernando esteves pinto

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