mentes perigosas
Não foi bem isto o que ele disse, mas a minha interpretação das suas palavras apontaram para esta ideia: como escritor, tenho contra a minha pessoa o facto de ainda estar vivo.
Ninguém vai morrer, ninguém pensa em morte agora que falamos do assunto. Esta é a história de um jovem que se fechou dentro dum espaço sufocante com a vida a dar-lhe pancadinhas no rótulo da sua imaginação e às tantas o pensamento obriga-o a escrever uma vaga de livros como se o tempo o ameaçasse de morte todos os dias; o rapaz maluquinho a esventrar o mundo que o ameaça, e eu a pensar se a escrita não será uma forma de trespassarmos o humano, sem encargos – um negócio a coração aberto para analistas fraudulentos que sentem nas palavras o mistério da riqueza material.
Na literatura, todas as vozes são singulares. Isto tanto na merda como no belo: acrescento eu para que a escrita reconheça para sempre o seu lugar.
Agora leio pouco, disse ainda o rapaz que escreve quando se passeia pelos mesmos lugares da sua cidade. É triste perdermos a palavra que queremos lembrar para ser escrita. Eu sei que não vou alcançar a tua cabeça altíssima de fermento metafórico e pechisbeques filosóficos que sempre dão jeito para cultivar folhas brancas de solidão enganosa. Aborrecem-me as verdades isoladas como um imenso campo cultivado onde só um pássaro debica.
Diz adeus aos livros que escreveste e podes encomendar a eternidade enquanto os teus pais estão vivos, e depois dos pais, os filhos que se fabricam para não te faltar o ar. Enquanto alguém esquecido escreve no horror de viver tapado pelo iminente existencialismo comercial em saldos, tu não e tu nunca, a escrita dá uma volta à tua cabeça assim como as palavras dão um nó à tua vida, e temos montado diante dos nossos olhos um expositor de sentimentos com custos de produção e vivência abaixo da tua própria identidade.
É tão bom escrever como quem engana, ò construtor de matéria desabitada. Fico a olhar para estes livros, ondas de música que os críticos afinam ou experimentam à temperatura da voz que mente e que a consciência ignora. Cada autor faz o seu totoloto literário, e escrevem romances como quem coloca uma cruzinha no quadrado da sorte. A explicação da obra é necessária para o conforto emocional do leitor que se perde nos corredores experimentais onde o autor se sentiu perdido e exausto.
No fundo todos nós falamos verdade, mas a verdade também é motivo de guerra.
A verdade é um contraceptivo para mentes perigosas.
fernando esteves pinto

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