livros em branco
Que escritores temos hoje? Temos muitas pessoas a fazer um bordado de vidas que não lhes pertence. Autores de narrativas que não são mais que listas de emoções extraídas de apontamentos de leituras avulsas. Temos cada vez mais escritores sem escrita. Livros mentirosos. Escritores que nunca passaram por aquilo que escrevem. Temos pessoas que escrevem o espectáculo inocente que a vida lhes dá. Autores que temem entrar nos buracos da vida e trazer cá para fora as palavras mais profundas.
Foi uma tarde passada no campo e ele continuou: a pior publicidade que haviam de dar à literatura foi permitirem editar livros escritos por figuras públicas e do entretenimento social. A banalidade literária inaugurou o mercado esplendoroso do livro fingido.
Depois vieram os nomes. Aqueles que foram morrendo com os livros que escreveram. Um livro morre porque o seu autor nunca existiu. E ele lembrou-se de A., o bruxo que se apresentava com a capa de sombra do Lobo Antunes. O tempo despiu-lhe a capa da influência e carregou-o de esquecimento assombroso. A. falhou no julgamento que fez de si mesmo. Escreveu alguns livros sem se entregar à escrita. Levou todo este tempo a brincar aos escritores. A promessa falhou. A solidão não é para todos.
Também a infância não é para brincadeiras. O grande tema de alguns desses escritores arrumados no tempo continua a ser a infância. Facilmente se deixam tentar por uma literatura de brinquedo. São escritores demasiado asseados, sem nódoas. Nunca se deixam sujar pela escrita. E a comparação do meu amigo foi atingir a escrita de B.. Posso tentar explicar, disse ele: é uma criança inofensiva. Não se desvia um milímetro do lugar-comum, esse recreio de frases e palavras onde ele se sente protegido pelos educadores dessa espécie de literatura novelesca.
Não sei, nunca li.
Estava uma tarde fria e na sala havia enormes telas brancas. Pareciam livros gigantes.
E depois lembrei-me que agora está na moda escrever livros em branco.
fernando esteves pinto

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