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26/01/2007

fast food

Arquivado em: escrever é

Um povo que não tinha acesso a livros. Portanto, um povo que não experimentava esse murmúrio visual que a leitura gravava na consciência. Casas sem livros. Dias escuros sem livros. Lembro-me desses dias como buracos onde as pessoas viviam. Nada iluminava este povo mudo. Agora não é assim. O problema agora é os livros. É preciso descer ainda mais no assunto: da mesma forma que se aprendeu a ler mal durante esses tempos da ditadura; também agora se escreve de um modo insignificante e insultuoso para o próprio prazer da leitura.

Na minha casa havia um único livro e isso era muito importante para minha compreensão da literatura. Estar só com o autor desse livro, ouvi-lo respirar, ler por cima da sua solidão. Sentir o livro ser escrito nas minhas mãos. O livro tinha essa humanidade de me permitir fazer parte do pensamento do autor. O objecto livro era uma obra de arte que a leitura tornava ainda mais feliz. Hoje os livros escritos são uma extensão das revistas sociais.

O problema da literatura, hoje, é que os livros se escrevem como se não existisse nenhuma outra forma de escrita para esses autores comercialmente inovadores na insignificância do que dão a ler. Existe um triângulo deformado e que mesmo assim sustem a literatura como se não houvesse erros de valor: autores, editores e leitores - todos juntos no grande mercado onde se negoceia o desrespeito pela literatura.
Se existe o fast food, porque não há-de existir a literatura pronta a esquecer?

fernando esteves pinto

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