a escrita não precisa de história
Tenho muito esta imagem de uma janela suja. A vida que se reflecte nessa sujidade, já tinha pensado antes, existe em vários escritos. Em criança passava muito tempo a olhar através dos vidros escuros dos meus dias. As pessoas. Como num filme em que percebemos que é a câmara a passar lentamente, assim muito próximo do sofrimento de observar que a vida podia aperfeiçoar melhor os nossos sentimentos. Imagens feridas de pessoas a passarem no meu rosto no vidro sujo. Hoje mete-me impressão sentir como era capaz de suportar esse tempo onde todas as imagens eram bruscas e perturbadoras.
Vi uma criança ser arrancada dos braços da sua mãe. Os gritos batiam contra o meu rosto. Pedradas de medo contra os meus olhos. É uma rua estranha numa tarde escura. O homem chegou num carro. As imagens passam muito depressa. Uma mulher vem à porta com uma criança no colo. E depois a escrita das pessoas que sofrem e fazem sofrer. O homem veio para roubar a filha a essa mulher, a esse amor de um dia sujo e longo. Palavras que não oiço, palavras que escrevo. Lembro-me da mulher a correr pela rua numa loucura de mãe sem filho. Como os bichos tontos que perdem o rumo da vida e ficam cegos de ódio até à ruína.
O homem fala e a criança chora. O diálogo do sofrimento embacia a janela por onde espreito estes humanos seres. As pessoas a observarem a cena do roubo da criança numa posição tão perigosamente anti-existencial como se não fosse aconselhável uma plateia para a miséria. Sabemos que não é assim: a miséria humana faz sempre uma sala cheia onde todos sentem uma dor inocente uns pelos outros.
Os gritos da mulher, agora com uma faca na mão. A mulher a investir o seu desespero contra o homem que segurava a criança nos braços. A boca dela sem palavras a não ser estas que escrevo nesta sujidade de viver contra a crueldade. Lembro-me de sentir que estava a assistir a um crime de amor e ódio. A morte de uma criança para que não pertencesse a ninguém. Duas vezes a arma faca e tudo é possível escrever sobre a criança que não chegou a morrer. A poesia protege os inocentes.
Comecei a escrever numa janela embaciada de sujidade. Escrevi sobre este caso cujo desfecho não me recordo. Para todos os efeitos, a imagem que ficou foi a de uma criança a ser violada na sua inocência. Uma criança a ser transportada da verdade para a mentira. O medo que sentimos quando não sabemos ainda como as coisas vão acabar, esse desconhecimento dos actos que pertencem a este homem e a esta mulher, esta forma de haver escrita para além do interesse da vida da criança, toda esta emoção permaneceu eternamente numa situação tão perturbante como o acto de escrever. A escrita não precisa de história.
fernando esteves pinto

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