escrever dentro dos outros
É estranho estar de fora e ver dois corpos inclinados sobre uma mesa, os braços a atravessar o tampo e os dedos das mãos cravados no tempo que demora a dizer palavras velhas espalhadas à volta das bocas, murmurar como um canivete a ferir tudo o que custa dizer, sentir que os outros são folhas a cair ao teu lado, e tu ouves e sofres por todas as frases como estacas que se espetam ao lado numa mesa próxima onde a imagem se repete e é sempre assim: existir como num álbum de humanos a jurar amor no meio de tanta gente triste a beber e a comer e a engolir sentimentos sem compreensão; mas tu dizes: nada nem ninguém tem força humana para fechar este tecto solar sobre as nossas cabeças.
Profundo olhar o que as mãos sentem, penso que guardam palavras para dizer depois quando não existir medo, ela a encostar os lábios a tudo o que ele lhe diz e à volta o mesmo silêncio sobre as mesas com pessoas ligadas por palavras.
Estás a ver: os corpos comportam-se de forma repetida, a aproximação produz exactamente as mesmas emoções com graus de compreensão variáveis de acordo com a intensidade que o outro dispõe para te aceitar.
Uma tarde inteira de corpos suspensos sobre mesas ao ar livre numa rua movimentada e as pessoas deixam cair algum ódio quando passam por ti, palavras a bater na mesa onde as mãos arranham distraídas a luz que se esconde nos pensamentos que nunca chegam a ser de ninguém, e mesmo assim voltas o rosto para essas pessoas que caminham numa sombra de sofrimento até vê-las desaparecer, mas nada desaparece porque a ligação aos outros é infinita: mesas repetidas com homens e mulheres fotografados no tempo, palavras fotográficas num desespero para eternizar o momento em que a pose falha por ingenuidade emocional, e por fim ocorre-te escrever que as palavras devem estar fartas de repetir sempre as mesmas situações, e escreves que as palavras vingam-se daqueles que sentem mal os outros.
Nada é mais perigoso do que escrever dentro dos outros.
fernando esteves pinto

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