primeiro livro
O meu primeiro livro não me deu nada. Escrevi esse livro numa fase complicada da minha vida. Tinha muito tempo e não tinha nada. Tinha a solidão. Não tinha trabalho e voltava para casa mais cedo, depois de um dia perdido entre aqueles que trabalhavam e ganhavam a vida. Eu nunca ganhei a vida, nunca pensei dessa forma. Eu ganhei a solidão e era com a solidão que regressava a casa para escrever. Havia uma mesa no meio da sala. A casa estava ainda deserta. Lembro-me de entrar em casa e sentir-me culpado por ir escrever durante a tarde. A minha escrita sempre se alimentou da culpa. Culpa de não ser como os outros que chegam a casa para descansar, estar com os filhos e com a mulher. Eu chegava a casa para estar comigo. Tinha essa necessidade: encontrar-me com as minhas palavras.
Era uma espécie de cegueira, isso que eu sentia enquanto escrevia o que viria a ser o meu primeiro livro. Sei agora que eu já trazia toda a angústia de não ganhar a vida como todos os homens, e sentar-me para escrever como se só eu existisse no mundo. O esquecimento da realidade fazia-me escrever sempre mais, ao ponto de me sentir ausente da própria escrita.
O livro estava a ser escrito ao mesmo tempo que a minha vida se destruía. É preciso destruir para escrever. Foi sempre assim comigo: a maldade arrancada à vida para ser escrita da própria vida. Nunca escrevi a sentir-me bem com alguma coisa. Nunca. Precisava de rasgar o silêncio que me envolvia, por exemplo rasgar o silêncio com a má disposição de quem sente o tempo passar e nenhuma palavra pudesse ser escrita ainda. Escrever para destruir, acho que foi esse o meu erro de querer ser escritor.
Olho muito tempo para as paredes da minha casa. Olhei sempre muito nesse tempo em que escrevi o livro. Era nessas paredes brancas e nuas que as imagens do livro surgiam. A minha memória do livro escrevia-se nas paredes da casa. Havia discussões da vida passada e havia a escrita dessas discussões a impor-se na miséria dos meus pensamentos. Hoje compreendo porque é que eu escrevia zangado com o passado.
Chegar a casa zangado e tentar resolver a minha vida com as palavras. Escrever para estar só com o livro que um dia me haveria de condenar ao vazio. Pisar o livro antes da primeira leitura. Foi isso que eu fiz. Olhar a casa do livro e esmagá-lo contra o chão e pisá-lo com raiva. Tenho raiva do que escrevo, e agora muito mais. Sempre houve esse sentimento mas nunca quis acreditar. Como raramente acredito nas pessoas, também não creio no que fica escrito dos meus actos. Destruir o livro como sempre fiz com as pessoas que fizeram parte do meu pensamento.
Estou a sentir a maldição do primeiro livro, como se as pessoas que sentiram o peso da minha escrita se revoltassem e decidissem apropriar-se do livro para exercer o poder de me castigar por escrever ainda. Para eles tenho a dizer uma coisa: não sei o que é o medo. Não tenho essa noção de escrever como se o medo fosse o suporte daquilo que escrevo. Se a escrita é o medo, então eu sou a força do medo. Nunca o medo.
Escrever com a força do medo. O medo que vamos encontrar depois do que deixamos escrito para os outros. O medo que sentimos nos outros por tudo o que escrevemos sobre eles. A solidão ensinou-me a não ser cuidadoso com o que escrevo. Ensinou-me que a escrita só existe para além de mim.
fernando esteves pinto

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adorava ter escrito isto. senti-me exactamente assim quando escrevi o meu primeiro livro há 4 anos atrás. nunca o publiquei. ainda bem que alguém me recomendou este blog.
Comment by alice — 14/02/2007 @ 5:14 pm