kitsch
Meu querido diário:
Estou a escrever-te porque és o único que me compreende e me leva a sério sem pores em causa a minha estupidez. Com os outros não posso ser tão franco e ingénuo, embora a minha infantilidade tenha uma voz suave e cativante. Mas faço um esforço para parecer genuíno. Caracterizo-me por ser um escritor que nem lembra ao diabo. O resultado é a inveja e a chacota sobre a pureza do meu trabalho literário. Fui ver o Capote, esse encantamento cinematográfico, e quando saía do cinema senti o coração emplumado. Gostava de pronunciar o meu nome com a voz desmaiada e quase a partir-se do grande Truman. Já estou em ensaios diante do espelho íntimo do meu quarto para futuras apresentações dos meus queridos livros todos os dias.
Querido diário, nem imaginas como me sinto um autor feliz num país de poetas esquecidos e amargurados. Nasci para escrever. .. Olha-me só esta grande frase, tão simples e ao mesmo tempo tão profunda, tão presente na vida dos que andaram na escola – minha querida infância, como agradeço a tua visita – e parece que só eu a sinto. O meu trabalho como escritor é fazer que os outros sintam o que eu tenho impressão de sentir em tudo o que escrevo. Tu compreendes-me, não é assim? A profundidade não é a raiz. A profundidade do que escrevo é a flor dos meus sentimentos. Profundos são os meus poemas quando me levanto da cama logo de manhãzinha e começo a escrever antes de mijar. A minha alma é um regador e frescas são as lágrimas que rolam nas minhas palavras. Como é fértil o campo do meu corpo onde a poesia floresce sem o adubo da razão. Desde criança, querido diário, desde criança que a semente da minha consciência me pede para nascer e com ela eu me transforme num poeta da luminosidade complexa. Eu faço-lhe a vontade, querido diário, se a consciência do que penso se transformar num jardim de infância onde todos os poemas ainda vistam bibe. São impressionantes os frutos que a árvore da minha infância põe à minha disposição e com eles eu me alimento neste meu jeito de guloso inspirado. Outra grande frase, querido diário: os frutos da minha inspiração. Poeta é aquele que oferece estas guloseimas literárias aos seus leitores. Sempre partilhei os doces encantos da minha mente. Sempre escrevi como se fosse eu o primeiro a provar os biscoitos poéticos que depois ofereço ao gosto comum.
Querido diário, o sonho de um poeta deve estar acima de todos os pesadelos. Sonho a escrever e escrevo a dormir. Escrevo e reescrevo, desembrulho palavras no meu vasto dicionário de sentidos e chupo um poema até à nostalgia de sentir um rebuçado desfazer-se na saliva pura de um rio onde vejo partir um barco de palavras para dar as boas novas aos meus queridos leitores.
Oh! Escrever é viajar a vermo-nos partir. Ler é chegar aonde os outros já estiveram e já partiram.
Profundidade minha que me afogas nesta ânsia de querer estar e partir, onde as minhas palavras são a meta que cumpre a minha viagem.
Querido diário, um poema é uma fonte de lágrimas, logo, as minhas lágrimas são poemas em repuxo. Lágrima é uma palavra cintilante. Poema é uma palavra que nos acende. Sou um poeta que arde no fogo que a minha alma extingue.
Oh! Poesia, poesia. Às vezes tenho a sensação que sinto mais alto que a compreensão de quem me lê. Mas tu não, querido diário. Tu és o rosto branco da página onde eu manifesto toda a minha sensibilidade. Quero dizer-te uma coisa, querido diário. Quase um segredo. Sempre me senti uma criança muito diferente das outras. No bairro onde cresci, ou na escola que testemunhou o meu progresso como pessoa inteligente, eu já era visto como um poeta do futuro, pois as minhas observações sobre a vida e as coisas traziam a marca dos grandes poemas. Se eu dissesse aos meus amigos, por exemplo, que as nuvens que olhávamos no céu, negras e tumultuosas como um grito de Deus; aquelas nuvens carregadas de mistério e medo, se eu lhes dissesse que pareciam farrapos de poemas no livro azul do céu; os insensíveis dos meus amigos chamavam-me doido e previam que vinha aí tempestade da grossa e chuvas torrenciais.
Oh! Querido diário! Se eu alguma vez, em público, como de facto aconteceu, fizesse o retrato poético da Lurdinhas, nossa amiga, atribuindo aos seus lindos olhos uma intensidade de pirilampos, ou descrevesse o seu corpo como se bordasse um emblema de amor com as palavras apaixonadas no meu coração; os perversos dos meus amigos cuspiam com desdém os meus sentimentos e diziam-me na cara que ela era sem dúvida uma boa queca.
Isto para não falar de outras coisas, querido diário. Se eu discorresse sobre a metafísica dos pássaros, os meus amigos falavam em matá-los e comê-los fritos. Se eu confessasse que escrevera um poema, eles perguntavam-me se andava doente. Sempre que eu me propunha analisar o mundo numa perspectiva metafórica, os meus amigos opunham-se-me com a objectividade ignara dos que acham que uma pedra é uma pedra; e corriam comigo à pedrada.
Querido diário, de uma coisa tenho a certeza: a mágoa é que faz o poeta. A mágoa é a seiva das minhas palavras. Que coisa linda, escrever um poema e rir-me do silêncio de quem me lê.
Oh! Poesia, poesia! És a boneca da minha subjectividade.
fernando esteves pinto

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Não sei se desta vez o vão deixar rir-se do silêncio que se faz quando escreve. Eu não deixo. Um admirável kitsch, já por si admirável, pela maneira como o assume. O seu diário ganhou páginas.
Comment by mairiam — 21/02/2007 @ 6:37 pm