a cadeira
A linguagem dos objectos. A memória que existe neles. Gosto especialmente de escrever o objecto cadeira. Representar a imagem desse objecto num espaço amplo, vazio de qualquer outro sentido que não seja o pensamento objecto da cadeira. O pensamento já nos traz a forma que a palavra evoca. Escrever cadeira numa sala vazia é uma encenação do pensamento que traduz a imagem que se liberta da palavra. A escrita é uma oficina de imagens que se ligam entre elas. Escrevo cadeira e penso em objecto mesa. Não é uma obrigação. Não é uma condição rigorosa imposta pela palavra cadeira. Há cadeiras que não pertencem a nenhuma mesa. Esta cadeira que escrevo não existe debaixo de nenhuma mesa. Não penso em conjunto mas em forma isolada, mínima.
As palavras são desenhos que formam objectos. Isto é verdade para o caso da cadeira, como é verdade se a palavra fosse mesa. No pensamento que temos dos objectos, todos os desenhos são perfeitos. A perfeição é a forma nítida da imagem que o pensamento desenha na palavra escrita. Nunca se escreve cadeira na sua forma real, objectiva, isto é, ninguém escreve costas, assento, pés, quando simplesmente se refere a cadeira. Cadeira é já uma palavra sentada, ou a indicação disso mesmo. Como mesa é uma palavra rodeada por pessoas. Uma palavra no centro de alguma coisa. No campo das emoções as palavras não indicam objectos. Sobre este assunto é tudo mais invisual. Os sentimentos são palavras escondidas na consciência das imagens que se quer transmitir. Cada um sente os seus objectos emocionais. Mas é ainda verdade: a imagem cadeira pode estar inserida no sentimento medo. Por algum motivo particular da sua própria vida, alguém sente medo e a imagem cadeira surge sem que a palavra correspondente a esse objecto fosse evocada. Isto é um trabalho de encenação emocional.
Temos alguém sentado numa cadeira. Está a ser interrogado. É agredido. A imagem cadeira é a memória de uma agressão. A palavra cadeira não pertence ao objecto confortável para o qual foi concretizada. O sentimento medo incorporou a funcionalidade do objecto cadeira. Neste caso, a cadeira é uma sensação. O pensamento cadeira tem um corpo sentado sujeito à tortura e não ao conforto. A palavra física da cadeira deu lugar ao sentimento de inquietude que esse objecto representa na consciência. Logo, a cadeira é um objecto de experiência e não apenas uma peça de utilidade humana, corporal.
fernando esteves pinto

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