Obviamente há um erro no poema. Demasiado evidente é a questão. Surgem-me duas possibilidades para o erro. Primeira: depois de ler do que foi comentado o que interessa, chego às palavras de Pedro Sousa, onde menciona “uma forma de segunda pessoa do singular advinda do uso oral da mesma”. Pois bem, o poema fala de memória, de remoto desconforto provocado por ela; é nesta leitura que lhe encontro sentido. No lugar onde vivo, desde que nasci, é rara a pessoa que não emprega oralmente o “ouvistes”, o “fostes tu”, e tal, suponho, não será endémico da Praia de Faro. Onde quero chegar é a reminiscência, a forma de subconsciente, mas nunca inconsciente, pois considero a escrita um acto voluntário (mesmo sendo de fruição imprevisível), e tudo isto tem a ver com o poema. Segunda: um erro na gramática que põe em evidência a falta de depuração. Sem alterar o objecto, a eliminação dos pronomes na primeira estrofe permite força semelhante no poema:
Dissestes puros os regatos da insónia
limpas e férteis clamastes as lamas do outro tempo
quando um pouco de nada calava a fome
Agora vazas as tuas horas entre caminhos gastos
colhes da água turva certos demónios de sal
dobrando a sombra dos peixes na tua memória
A diferença entre as duas estrofes leva-me ao seguinte: num primeiro instante acentua-se um distanciamento, e depois, por uma certa intimidade, conduz à sensação de perda de uma condição de respeito; daí o tom de resignação que lhe vejo, ou até mesmo de condenação.
Penso que a origem do erro estará nas duas possibilidades. Dominar a gramática não faz de alguém poeta. Ser poeta não é dominar a gramática.
Resta-me agradecer a quem foi (des)construtivo e a quem não o foi também. Errar é preciso, não tenho disso receio, e logo não me posso lamentar, embora me aborreça pela minha precipitação. Aprender do erro é como ir ao mar: quem não lá vai não pesca nada, e para pescar alguma coisa é preciso ir lá algumas vezes.
João Bentes