Para tentar concluir
Obviamente há um erro no poema. Demasiado evidente é a questão. Surgem-me duas possibilidades para o erro. Primeira: depois de ler do que foi comentado o que interessa, chego às palavras de Pedro Sousa, onde menciona “uma forma de segunda pessoa do singular advinda do uso oral da mesma”. Pois bem, o poema fala de memória, de remoto desconforto provocado por ela; é nesta leitura que lhe encontro sentido. No lugar onde vivo, desde que nasci, é rara a pessoa que não emprega oralmente o “ouvistes”, o “fostes tu”, e tal, suponho, não será endémico da Praia de Faro. Onde quero chegar é a reminiscência, a forma de subconsciente, mas nunca inconsciente, pois considero a escrita um acto voluntário (mesmo sendo de fruição imprevisível), e tudo isto tem a ver com o poema. Segunda: um erro na gramática que põe em evidência a falta de depuração. Sem alterar o objecto, a eliminação dos pronomes na primeira estrofe permite força semelhante no poema:
Dissestes puros os regatos da insónia
limpas e férteis clamastes as lamas do outro tempo
quando um pouco de nada calava a fome
Agora vazas as tuas horas entre caminhos gastos
colhes da água turva certos demónios de sal
dobrando a sombra dos peixes na tua memória
A diferença entre as duas estrofes leva-me ao seguinte: num primeiro instante acentua-se um distanciamento, e depois, por uma certa intimidade, conduz à sensação de perda de uma condição de respeito; daí o tom de resignação que lhe vejo, ou até mesmo de condenação.
Penso que a origem do erro estará nas duas possibilidades. Dominar a gramática não faz de alguém poeta. Ser poeta não é dominar a gramática.
Resta-me agradecer a quem foi (des)construtivo e a quem não o foi também. Errar é preciso, não tenho disso receio, e logo não me posso lamentar, embora me aborreça pela minha precipitação. Aprender do erro é como ir ao mar: quem não lá vai não pesca nada, e para pescar alguma coisa é preciso ir lá algumas vezes.
João Bentes

pedidos:sulscrito@yahoo.com
agora estiveste muito bem. nestas coisas da escrita é preciso alguma humildade, ou “humidade” como alguns dizem na minha terra.
Deste uma grande lição agora. é verdade que houve muita “descontrução” nos comentários. Mas não se pode responder na mesma moeda.
um grande abraço e nunca percas o que aqui mostraste.
Henry
Comment by HF — 12/12/2007 @ 4:35 pm
Sobre a leitura e o acto des-contrutivo que dela advém, lemrei-me de um excerto, porque aqui o que interessa é a litertura, do poema “Canto de Mim Mesmo” de Walt Whitman:
Achas que mil acres são muitos? Achas que a Terra é muita?
Praticaste o necessário para aprender a ler?
Sentiste-te orgulhoso por captar o sentido dos poemas?
Fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem de todos os poemas,
Possuirás o que há de bom na Terra e no Sol (há milhões de sóis),
Não terás coisas em segunda ou terceira mão, nem verás pelos olhos dos mortos, nem te alimentarás dos espcetros dos livros,
Nem através dos meus olhos verás, nem de mim terás as coisas,
Escutarás tudo e todos e tudo em ti filtrarás.”
in Walt Whitman, Canto de Mim Mesmom A&A, 1999, p. 11.
pedro
Comment by pedro sousa — 12/12/2007 @ 7:24 pm
Os erros ortográficos ou as letras omissas são por causa das mãos frias e porque me esqueci de reler o texto antes de fixá-lo.
Comment by pedro sousa — 12/12/2007 @ 7:26 pm