Desabafo em fuga
Um video do encontro de escritores ibéricos em Huelva em 1995, aqui.
No fim do video o Fernando Esteves Pinto diz que qualquer dia foge de Portugal, eu creio que esse é o único remédio, sim. Mas fugir de Portugal, ou do que Portugal é hoje, terá que ser por uma variação (fuga) ao que nele vigora: uma fuga ao conformismo, uma fuga ao apoio estatal que é apenas uma condescendência, ao fisco e à higienização fascista que serve de ferramenta à uniformização do mercado, da cultura e do poder de decisão. Um fuga EM Portugal.
A pancadinha no ombro que nos dão as entidades que nos apoiam, e à cultura em geral, sabe mal, cheira mal e é sonsa. À primeira oportunidade aproveitar-se-ão da cultura para negociar, para fazer uma propaganda ao que a própria cultura não serve.
As galerias são centros de promoção política para quem quer cargos que espera que mais tarde cheguem, para artístas que querem ser reconhecidos pelo sistema e dar-lhe o braço. Podem ser, evidentemente, palcos de inconsciência profunda, para a qual não há desculpa.
As editoras comerciais são novelos de favores entre mercenários da literatura, os prémios são uma treta. Entre tudo isto haverá excepções, evidentemente, mas raras e no limiar da sobrevivência.
A independência da cultura em relação ao sistema político é a única forma digna de existência da mesma. A consciência disso e a coragem para isso são iminentemente necessárias.
Por isto, apelo à arte, aos artistas, aos espaços e aos movimentos não higienizados, não cumplices e interventivos.
O logotipo, marca do apoio, de uma câmara, de um ministério ou de qualquer outro centro de poder, numa obra de arte, num espaço ou num protocolo, é o selo da “ASAE da cultura”, de que esse “objecto” é higienizado, suportável e aprovado.
Bolas, tinha que dizer isto.
Sei que o Sulscrito tem sido apoiado por várias entidades do estado, que temos gramado a “palmadinha nas costas” para poder ir fazendo aquilo que projectamos, mas creio que, esta é a minha individual opinião, devemos preferir e procurar formas independentes de apoio para realizar aquilo que queremos. Isto será realmente exilarmo-nos, fugir EM Portugal, a arte EM fuga.
Ainda que saibamos que o dinheiro desses apoios estatais seja “nosso”, dos contribuintes, apenas devemos aceder-lhe quando ele não for negociado e “cedido” pelo poder, apenas quando o poder abdicar desse dinheiro (e do poder sobre ele) e o libertar na totalidade para ser gerido por quem o usa. Os apoios, neste momento, são dados como esmolas que por nós foram pagas anteriormente.
Deixo este desabafo e ponho-me em fuga.

pedidos:sulscrito@yahoo.com
“A pancadinha no ombro que nos dão as entidades que nos apoiam, e à cultura em geral, sabe mal, cheira mal e é sonsa. À primeira oportunidade aproveitar-se-ão da cultura para negociar, para fazer uma propaganda ao que a própria cultura não serve.”
Quanto a isto, haveria muito a dizer. Poderia dar-te a visão que qualquer ministro te haveria de dar - aquela que nos quereria fazer crer que isso não se passa de todo, que a cultura não favorece esses propósitos que estás a insinuar, que as instituições e a sua atitude perante a promoção cultural serve unicamente o propósito da fruição e afirmação das manifestações de determinado território (físico ou ideológico) e como tal o facto de se verificar a promoção por parte de quem promove não deixa de ser apenas uma inevitável consequência. Como Marc Guillaume diria, o Estado não pode deixar em mãos alheias tão paternal tarefa de “velar e promover o que é de todos nós”… Se isso significar que o mesmo pode estar a querer promover-se através disso, isso pode ser pura ilusão… Poderíamos querer acreditar nisto, ainda que seja evidente a falta de pilares nesta estrutura de pensamento. Velar e promover não pode de todo ser significado de auto-promoção. No entanto, feliz ou infelizmente, sempre foi este o objectivo do mecenato. Consequentemente ou não, a arte sempre viveu e se alimentou também desta situação. Assim,“a “palmadinha nas costas” [sempre serviu] para [os artistas poder(em) ir fazendo aquilo que projecta[ram], mas creio que, (…) devem preferir e procurar formas independentes de apoio para [irem] realiza[ndo] aquilo que querem”. Sempre que possível, a Arte, enquanto necessidade de expressão individual e autónoma deve procurar desligar-se de toda e qualquer condicionante ou então, saber utilizar essa realidade em seu favor. As instituições e os seus dinheiros (os nossos – utilizados com propósitos por vezes muito pouco translúcidos…) devem ser sempre que possível destituídos das iniciativas de âmbito institucional sob pena das sociedades e dos artistas perderem o seu individualismo, e de se estar perante o sumiço do sujeito pensante completamente afecto a encomendas programadas.
No seguimento da proposta, que seja este também um desabafo em fuga.
Comment by Miguel Godinho — 21/01/2008 @ 11:56 pm
pois é…
fazer [sacrificar a consciência] ou não fazer [sacrificar a “obra”]? heis uma das questões. Serão, neste momento, precisos mais projectos culturais (publicações, encontros, etc.), ou mais intolerância para com este sistema (publicações contra, encontros de protesto, etc.)?
É que a “coisa” passa depois pelo viver num apartamento, pôr combustível no carro, comprar a comida no hipermercado, ouvir a música, ver a tv, ter a net, comprar o livro, levar vacinas, ir a escola, pôr o filho na escola, ter conta no banco, tirar férias, ter um contracto, uma reforma, morrer num hospital… (para não falar em lutar activamente contra).
Há os que têm a coragem e há os que não a têm… e só.
Pedro Afonso
Comment by Pedro Afonso — 22/01/2008 @ 12:31 am