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17/03/2008

poesia dita no chalé João Lúcio (2)

Arquivado em: poemas, ecos

*

oh meu algarve
pareces manter
ainda assim
uma tendência incorruptível de azul
como céu
ainda
esse rasgão de cor
que nos ultrapassa
ainda sim
ainda por agora

de resto
oh meu algarve
és uma nódoa indelével
na conspurcada toalha
que é esta
que nos estenderam
no máximo como país

mais uma
oh meu algarve
mais uma nódoa
do que caiu da sobra da boca
de quem não olha ao que devora

oh me algarve
frúnculo de alcatrão e cimento
que calado rebenta
em areias de pus para um mar
que já não lava

de pernas abertas à invasão sazonal
que nunca te poupa
porque és barato e sem sentido
oh meu algarve
atravessam-te sem nunca olhar
o rosto que outrora tiveste
nem os rios te choram já
serras abaixo
restam-te as calçadas
peganhentas de cerveja
como lágrimas que se cristalizaram
sob os pés da indiferença

oh meu algarve
nem te lubrificaram na sodomização
e na dor silenciosa do teu corpo
fugiu-te a esperança e o grito
resta-te agora apodrecer
secar
nódoa desbotada
ao sol
que te dá a conhecer

*

venham
venham todos
besuntados de bronzeador
embandeirados de guarda-sóis
como que para reclamar
um pedaço de terra virgem
venham para o algarve no verão

venham todos
de corpos gordos e pendurados
da mamagem dos dias
de corpos esbeltos e magros
da labuta no ginásio
venham
para esse algarve de areia e mar
e de céu azul

venham todos
para a colónia de férias barata
para o aparthotel de segunda
para a casa a 1000€ a quinzena
ou para o resort de 25 estrelas
venham

venham todos
de inglaterra ou da holanda
da irlanda ou da alemanha
de lisboa ou do porto
de olhos vendados até ao quarto
que vos espera junto à praia
venham

temos muita cerveja e melancia
muita luz e noites quentes
muita areia e muita água
temos bares e discotecas
para os de primeira ou de segunda
até já temos música erudita
e festivais de tudo um pouco
graças a um “L” a mais no nome

venham venham todos
para o ano haverá mais
apartamentos para alugar
e rouba-se um pouco à praia
que a areia
essa
ainda não é a pagar
venham venham todos
entupam as estradas e o estacionamento
amontoem-se nas praias e nas piscinas

venham venham
venham comer o frango da guia
ou provar a amêijoa da ria
assar sardinha de espanha
e beber sumo de laranja prá ressaca
temos putas e camarão
tudo pago a meio tostão
para quem vier de cima

“temos palhaços e acrobatas”
experts em golfe e salva-vidas
no verão sabemos fazer
de tudo por vocês
falamos todas as línguas
pelos cotovelos

venham venham todos
não se acanhem
deixem cá um ordenado por semana
que isto pró ano estará tudo igual

Pedro Afonso

2 Comentários »

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  1. Tenho pena de não ter podido lá estar. Aqui vai um comentário (que já conheces) a propósito:

    New Millenium Algarve

    O Algarve, a citação de uma civilização e de uma paisagem mediterrânica ou a síntese de um desejo mal conduzido de entrada no mundo “evoluído” de hotéis da última moda, iguaizinhos aos que vi em Cancun. Também nós por cá temos uns mamarrachos na falésia de Albufeiracun.

    Neste formigueiro desenfreado do mês de Agosto, as formigas são feias, não respeitam o carreiro que aperta o intenso tráfego e atropelam-se por todos os lados. Fumegam pelo nariz frases de impaciência, convencidos de que a vida aqui tem de correr ao mesmo ritmo da metrópole. Ora é o barco que acede à praia que não circula mais rápido, ora é o velho que vai de pasteleira na estrada e que não deixa o BMW de matrícula francesa passar.

    Quis ver nesta região onde vivo uma paisagem que os postais antigos mostram, de casas caiadas de branco, ocre e óxido de ferro, derramadas ordenadamente pelos campos cobertos de figueiras, laranjeiras e amendoeiras em flor, mas esta minha imaginação fértil já não consegue fantasiar quando tenho a janela da sala aberta.

    Terra de eiras e de noras, poços e castelos de taipa. Chaminés rendilhadas e platibandas decoradas. Quem me prova que não é mais um produto da minha imaginação? Conheço um senhor que diz que se lembra mas eu não sei bem se hei-de acreditar. Nora, só conheço o “Aldeamento da Nora”, ali para os lados de Portimão.

    O meu pai está sempre a dizer que antigamente gostava de ir ao mercado de Estói comprar botas de couro que um senhor que vivia ali para os lados de Quelfes fazia. Mas a ultima vez que lá fui com ele, apareceu a GNR e apreendeu todos os CDs da Floribela ao filho desse mesmo senhor.

    Algarve. New Millenium Algarve.

    Miguel Godinho

    Abraço.

    Comment by Miguel Godinho — 17/03/2008 @ 8:22 pm

  2. sim. e agora totalmente descaracterizado há desculpa para tudo.
    Das duas uma: ou começamos a não tolerar e a responder organizados e em força, ou venham os homens máquina, desligados do afecto (acabem de chegar, pois já nos rodeiam, de certa forma), para que nos possamos suicidar todos juntos e partir.

    Comment by Pedro Afonso — 18/03/2008 @ 1:37 am

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