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17/03/2008

poesia dita no chalé João Lúcio (1)

Arquivado em: poemas

Oh meu Algarve cimentado em prol
da luxúria verdejante dos resorts
deu-te deus um mar azul e tépido
onde lavas a cara à sombra das concessões
nos três meses que te salvam da fome

Oh meu Algarve ardente consumista
constrói aquários para os peixes doutra vida
e asseados museus p’rós artesãos falidos
lagoas do mais barato álcool
para os filhos delinquentes das inglesas
que hás-de foder na eternidade das tuas areias

Oh meu Algarve diamante bruto
reino da imóvel especulação
fantasia mais real do impossível
não és mais que a falta de orientação
dos iates louros desfilando nas avenidas
levantando o grosso cheque do futuro
entre as nalgas dos que mimam
projectos de ordenamento litoral

Oh meu Algarve limpo e desenvolvido
hás-de ser o melhor destino europeu
depois de plantares bananeiras e coqueiros
e recifes de água azul e soberba
em que nadem tubarões e jet-skis

Oh meu Algarve desta gente tão contente
estás na crista da onda higienista
tens o oiro do caviar esfacelando-te as ventas
e um caranguejo verde-lodo murraceiro
protegido nos alguidares da reserva natural
na fundura de um anzol que ninguém usa
é dizimada a vida dos teus filhos

Oh meu Algarve do medronho e do figo
estância balnear dos pródigos sobrinhos
que agitam as velas do progresso
brincando aos homens sérios de ideias
desvinculadas do sou e do que acredito

Oh meu Algarve impressionista e trágico
hão-de enterrar-te como tudo o que matam
em todas as cidades de ti já extintas
com a culpa de mil deuses às costas
o teu destino é pedante servilismo

Oh meu Algarve desta juventude atónita
empenhada no cu de um fazer engolido
pela vontade de um querer ser contra
vestida à freak resignada mas direitinha

Oh meu Algarve branco esquizofrénico
infecto burguês viciado decrépito
és o que sempre foste e nada menos serás
o sol ardente com que te vendem aos caprichos
o vasto mar azul escondendo-te o lixo

Oh meu Algarve
adeus
que se foda a herança do meu pai
e tudo o que de ti subsista
porque o que tenho vai mais alto
e não é esperança cruel
nem outros tantos anos de mentira

João Bentes

1 Comentário »

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  1. As praias que se vão

    As cores deste progresso por cá são mais esquivas. Marés politizadas por vontades egoístas que gritam morte aos desabonados e condenam à extinção os desterrados. Suplicam os barcos mortos na ria por um último banho de mar, recusam o destino imposto de uma faina que não mais é. Permitem-se crescer os corrompidos, fazem-se cair os indefensáveis. Convertem-se as esperanças em derrotas, adivinha-se o dia que se tornou noite. As praias que se vão…

    Comment by Miguel Godinho — 17/03/2008 @ 7:28 pm

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