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18/04/2008

blogues e funcionalidades

Uma das coisas que mais me impressiona na cena dos blogues é a relação entre texto e leitores (comentários). Se é verdade que existem blogues que levam a escrita a sério, outros há que são pura distracção, charadas, manias. Se os primeiros (os sérios) carecem de comentários com fundamento; os outros assentam no disparate de opinião que os leitores sentem como uma necessidade para dar continuidade, por via da diversão, a uma função ridícula de se escrever e editar sem qualidades. Querem exemplos? Se alguém deixa registado num post que lhe dói a cabeça e não lhe apetece escrever, o sistema de comentários inunda-se doentiamente com dezenas de mensagens. E se alguém transcrever um texto de Nietzsche ou Sartre, o que acontece? Conheço um blogue onde os comentadores ( leitores dados aos costumes dos piqueniques ideológicos ) costumam estender uma toalha de disparates sobre as ideias contidas nesses trechos como se conspurcassem os lugares da mente. Vou ser mais directo: sobre uma ideologia de camus combina-se em que tasca se vai beber um copo de vinho ou comer um prato de caracóis.

E depois também existem aqueles blogues beijoqueiros. Escreve-se um poema florido e os comentários fazem bicha para agradecer de beiço fogoso tão profundas imagens e emoções. São poetas catequistas que usam a vida e o sol para camuflarem as suas próprias frustrações. Os versos que escrevem, se eu os representasse por desenho, tinham a imagem de caminhos eternamente perfumados por uma dor coberta de flores. Nesses posts ajardinados de tão doces palavras, os comentários chovem como pétalas de lágrimas, porque neste mundo da poesia que nasce da carência afectiva, autor e leitor agonizam no mesmo canteiro.

Quem nunca visitou um blogue onde se cultiva a futilidade verbal? Será que se escreve porque não se tem mais nada para dizer? Conheço vários blogues com pretensões humorísticas, mas a ideia que permanece depois de ler alguns posts é que o autor aprendeu a rir com o lado paralisado da sua própria vida. O interessante neste caso, e isso deve-se ao leitor que comenta ( provavelmente também ele a estudar para engraçado ) , é constatar que as mensagens têm uma qualidade irónica superior ao texto editado. Faz-me pensar que a brincadeira é uma função prática da própria vida, enquanto os assuntos sérios requerem outras distracções mais concentradas na existência.

Blogues onde os autores estão há beira do suicídio: atenção, psiquiatras. Os seus autores são maioritariamente meninas adolescentes que meditam e escrevem sobre a existência como um castigo que impõe a si próprias. Estar diante dum texto escrito por uma alma assim é como engolir um peixe com espinhas. Os temas andam muito por aqui: acham que os progenitores são o pior inimigo; sentem-se perseguidos e reservam uma indiferença de morte àqueles que os comentam, e para além desse nocturno de vida ainda se convencem que o amor é o último medicamento que desejam tomar. Não escrevem mal, mas a doença de pensar que ninguém os compreende leva-os a uma loucura risível de que a literatura faz gozo.

Que sentido faz um blogue sobre política num país de maus políticos? A censura e o comentário terão alguma propriedade sobre a disfunção de algumas ideias políticas? Eu percebo: esses blogues existem com a ilusão de ensinar como se governa uma sociedade. Abre-se o sistema de comentários ( como se o gesto fosse o mesmo que puxar um autoclismo ) e o debate está instalado: tudo o que se escreve sobre a governação dum país soa a inscrição de parede de casa de banho numa estação pública. E pelos vistos todos querem deixar uma impressão de merda sobre o que pensam dos vários assuntos retratados nesses blogues ( ou partidos virtuais? ).

fep

11 Comentários »

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  1. comentar não será sempre provocar; nem que seja por um bom bocadinho

    SPREAD THE PEACE AND GET THE LOVE

    Comment by * — 19/04/2008 @ 11:11 am

  2. “Se os primeiros (os sérios) carecem de comentários com fundamento; os outros assentam no disparate de opinião que os leitores sentem como uma necessidade para dar continuidade, por via da diversão, a uma função ridícula de se escrever e editar sem qualidades”…

    O que é sério? E o que é “sério”, revela uma honestidade intelectual? Ser-se sério é uma virtude? E, o humor será, mesmo, uma atitude menor?
    Rir, divertir-se, é - ao que parece - pelas palavras do autor do texto acima uma atitude digamos; desonesta, de pouca maturidade intelectual. Logo e, ao que também parece, o intelectual será alguém acima da crítica (mesmo entendendo crítica como a entendemos - não o bota abaixo, mas a exigência de fundamentação coerente, a observação, a analise, etc…).

    EDITAR SEM QUALIDADES… um blogue, meu caro, é espaço público. No espaço público a visita acontece, ultrapassa qualquer controlo… o blogue faz parte de uma cultura (outra) de liberdade plena e isso pode eventualmente incomodar certo conservadorismo… é isso? conservadorismo?
    A liberdade incomoda apenas (desculpai o termo) a imaturidade intelectual. Não mais. O homem culto é livre e saudável, jamais será incomodado pela tal “inunda-se doentiamente com dezenas de mensagens”. A insegurança sim. Torna o sujeito susceptível às observações despropositadas (por vezes) ou de rigor (muitas outras)…
    e, pegando na questão - “E se alguém transcrever um texto de Nietzsche ou Sartre, o que acontece? Conheço um blogue onde os comentadores ( leitores dados aos costumes dos piqueniques ideológicos ) costumam estender uma toalha de disparates sobre as ideias contidas nesses trechos como se conspurcassem os lugares da mente. Vou ser mais directo: sobre uma ideologia de camus combina-se em que tasca se vai beber um copo de vinho ou comer um prato de caracóis”.

    Beber vinho e comer é um prazer terreno. O prazer jamais foi incompatível com o acto criativo, poético. Os maiores poetas portugueses (lê-los é constatar) cantaram tais virtudes - Camões, Bocage, Pessoa, Pessanha, Cesariny e tantos outros. O Grande filósofo que é citado no seu texto - Nietzsche - tem uma obra que seria importante ler: “a origem da tragédia”. Lê-la pode ser o suficiente para evitar tais confusões que dançam no patamar do autoritarismo e duma cultura que se aproxima da censura… Essa cultura foi chão que deu uvas e pouco recomendável será.

    “Quem nunca visitou um blogue onde se cultiva a futilidade verbal?”

    Visitámos muitos. E porque não visita-los? É um extraordinário exercício intelectual, é com efeito - “como engolir um peixe com espinhas”. É também perceber que o mundo (da escrita) não está limitado à “intelectualidade” instituída. Que há poetas, pintores, artistas, actores, pensadores…. mas há também pequenos romances de série B ou Z. Por vezes com muito mais visitantes que os espaços culturais ou “ditos”.
    Todos temos direito à vida!…
    Todos temos o direito de expor as nossas inquietações…

    e finalmente:
    “Que sentido faz um blogue sobre política num país de maus políticos?”

    Todo o sentido, meu caro. Todo. E não será necessário ser-se politólogo para o afirmar. A crítica, meu caro, é saudável… é um estado de alma (humana). Seria bom ler Natália Correia - também.
    Saudações marafadas

    Comment by joão marafado — 19/04/2008 @ 1:59 pm

  3. O que são «blogues sérios»? Dás este como exemplo?
    Parece que a estupidez humana, o arbitrário, o nonsense, etc, te provocam comichão testicular a erguer-se em discurso político…
    Podes sempre aderir à Hammerskin - facilmente te elevarão a intelectual!

    Comment by KLATUU o embuçado — 19/04/2008 @ 4:05 pm

  4. pois é FEP…
    entendo que a irritação que algumas coisas causem seja um catalizador da escrita, mas não será esse o momento no qual se deve, também, pendurar o espelho à nossa frente?

    A questão é que quer a “impressão de merda”, quer a “futilidade verbal”, quer “editar e escrever sem qualidade” fazem parte deste fenómeno por direito próprio, assim como fazem parte da maioria das conversas que se vai tendo pelos lugares “públicos” em toda a parte.

    Aqui mesmo, no nosso blog, temos coisas muito “desqualificadas”, de teor pessoal e leviano.

    Se pensares bem, não serão, também, “a pura distracção, charadas, manias” o que levam os “bloguers sérios” a publicar? Já agora, também pergunto, quem são eles?
    Quanto à política, se não fossem os blogues, neste momento seria uma realidade ainda menos participativa.

    Também não creio que a “literatura faça gozo” da “loucura risível”, pelo contrário: faz tema e sobre ela ensaia e, por vezes, nela assenta.

    Silenciar tudo isto seria dar palavra apenas às figuras mediáticas que opinam exactamente da mesma forma, mas só que com total projecção. Seria dizer: “escrever é só para quem sabe, pensar também e comentar o que se pensa e escreve é só para os que o fazem. Este “quem sabe” seria, mais uma vez, instituido pelos que têm poder para “saber”.”

    Não deixa de ser verdade que todos os exemplos que referes são facilmente encontrados entre os milhões de blogues que existem, e que, por vezes, se pensa: “como é que se fica apenas por aqui” ou “esta malta não deve ler nada para além do que escreve”. Mas o que separa estes blogues de outros não é o não serem “sérios”, pois para quem os escreve aquilo é, provavelmente, tão “sério” como o é para os outros.

    Pedro Afonso

    Comment by Pedro Afonso — 19/04/2008 @ 7:22 pm

  5. fep, deves andar mal de amores. cada posta tua aqui é uma crítica. nao es tu que es escritor? pq e q o blog do sulscrito nao serve pa os seus autores publicarem textos mais literarios? nao sabem? nao querem? engraçado falares em partidos politicos. creio que este blogue é mais um partido politico do que outros quaisquer. não dês tu o exemplo daquilo que dizes nao ser.

    verme

    Comment by verme — 19/04/2008 @ 8:15 pm

  6. sulscrito… que sul, que escrita, que projecto cultural (a sul)?… Pensar um projecto aqui e agora é para romper com a mediocridade que nos cerca, não juntar muitos textos e poemas e fazer uma (mais uma) revista.
    sulscrito é (seria) uma ideia mas, não rompe, não intervém.
    Lamento, mas não.
    Assim, não.
    E a publicação impensada de textos como este (assinado fep) em nada dignifica esse sulscrito.
    Pelo contrário.
    Este texto é abjecto… inqualificável… enfim, intelectualmente desonesto.

    Acompanho com curiosidade os projectos culturais que emergem na região, “sulscrito” era uma expectativa…
    já falhou.
    Mais um projecto falhado.
    Lamentável!

    Comment by joão marafado — 19/04/2008 @ 8:43 pm

  7. a final o q é isto do blog, sua gestão, conteúdos e funcionalidades é muito mais q uma critica. ela é uma refleção, sim; indignatória; mas acima de tudo mostra-se como uma urgente indignação. poder reflectir no meio de tanto lixo informativo é mais que uma urgência; ela é uma necessidade emergente.

    COMENTAR É UM ACTO SUBVERSIVO DO SER.

    Comment by * — 19/04/2008 @ 9:24 pm

  8. é muito fácil fal(h)ar assim… oh J. Marafado.
    A irritação é tanta que só irá encontrar falhados em todo o lado. Talvez acabe sozinho a dar murros no ar (lembro-me aqui duma tira do Quino).

    Também sou contra a tolerância absoluta, contra a mediocridade enquanto forma de estar no “centro”. O Sulscrito é o contrário disso mesmo. Esse centro é o que passa por um poder vertical onde o que se publica tem que ser “editado”. Aqui no blog qualquer um dos seus utilizadores pode publicar sem ter que ser “editado” pelos outros.

    O Sulscrito rompe, em primeiro lugar porque faz, consegue fazer e continua a fazer e porque liga pessoas. Em segundo lugar porque não se alinha com quem quer “mudar o sul”. Nós fazemos o que temos para fazer. Intervir é fazer, principalmente onde ninguém faz nada.
    o Sulscrito até pode ser um projecto “falhado”, “lamentável” e “indigno”, mas só o é porque rompe: está à margens dos “de Sucesso”, dos “Louváveis” e dos “Dignos”.

    Não sei se já reparou, Marafado, mas esta a indignar-se, simplesmente, com o facto de haver aqui uma opinião com que não concorda. Se reparar, neste espaço há várias: somos várias pessoas… assim sendo, não somos um “partido”, oh Verme (o outro comentador), somos um “quebrado”.

    Pedro Afonso

    Comment by Pedro Afonso — 19/04/2008 @ 9:55 pm

  9. Meu caro
    nada me irrita…
    já não tenho idade para isso.
    esse sangue à flor da pele (post 7) nada tem a ver, com a minha posição. assim e para concluir - definitivamente; é preferível partir que quebrar… reparar as rachas provocadas é bem mais difícil que jogar fora e fazer tudo de novo… aliás o discurso do vosso parceiro mantém-se no novo “post” agora assumidamente machista, homofóbico e quiçá mui próximo do moralista bacoco…
    nada me irrita, meu caro e fiquemos por aqui - não alimento essa fogueira. seria prolongar-lhe a vida…
    cada um sabe de si e como não sou religioso, duvido que alguém saiba de todos.
    sem mais
    João

    Comment by joão marafado — 20/04/2008 @ 11:20 am

  10. Se dúvidas houvesse, o diálogo que o(s) post(s) da discórdia suscitaram esclareceram-nas: o propósito da blogosfera é tornar o país mais real, ainda que na virtualidade, tornar as pessoas mais responsáveis ainda que no anonimato (ou não…), ajudar a fazer da vivência de cada um de nós uma melhor vivência. Quem achar que quantidade não é sinónimo de qualidade, poderá ter alguma razão…mas perdê-la-á toda se falhar a compreensão de que na muita quantidade alguma qualidade poderá ser encontrada… há muita merda? Há sim senhores! Há muito pseudo-intelectualismo? Nem mais! Há muita literatura com muita parra e pouca uva (e às vezes muita uva mas pouco sumo)? Sem dúvida… mas não nos esqueçamos que é na pluralidade de opiniões (imensas desculpas aos iluminados que fazem posts normativos do que DEVE SER a respeito de qualquer coisa), até prova em contrário, que o sujeito e a comunidade crescem - e o mundo muda a cada instante e a cada ponto de vista… E até deixamos aqui uma pequena inconfidência… uma das pessoas menos apetecrechadas intelectualmente que já conhecemos disse a coisa mais sábia que já ouvimos, em diálogo: “Pois é, a vida é uma foda!” Resposta: “Ao menos se for bem dada”…

    Saudações

    Val & Ursula

    Comment by Draculea Café Bar — 23/04/2008 @ 12:56 am

  11. P.S.: “A Origem da Tragédia” é um dos primeiros textos que me marcaram (o meu pseudónimo literário - perdoem-me chamar ao que escrevo literatura - tem inclusivamente a sua génese na dualidade apolíneo-dionisíaca) e de certeza que relê-lo ao sabor de uma boa caracolada e uma bela cervejola ou um rico copo de vinho só lhe há-de realçar o gosto subtantivo…

    Val

    Comment by Draculea Café Bar — 23/04/2008 @ 1:02 am

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