uma consciência do tempo
Tenho uma relação com o tempo que não desejo a ninguém. Lembro-me de ser criança e estar sentado ao sol a ver as sombras deslocarem-se no chão. Pensei nesse instante que, mesmo que eu não fizesse nada e me mantivesse imóvel, o tempo haveria de fazer alguma coisa por mim. Em vez de ser eu a exercer qualquer tipo de actividade sobre o tempo, seria o tempo a abrir-me o espaço para a contemplação vazia do ser. Sempre esperei toda a minha vida. Se houve coisa que o tempo me deu, foi a paciência de esperar que algo me acontecesse. Como eu tinha a convicção de que o tempo estava sempre a mudar de disposição, acreditava cientificamente que também eu mudaria e passaria a ser instrumentalizado pela sua passagem. Mas o tempo é um processo variável e a sua velocidade e lentidão são accionadas pela necessidade humana. Conclui então que eu era uma consciência do tempo. Quando me encontrava sozinho, o tempo tinha um comportamento lento e caprichoso como uma solidão; mas quando estava com alguém, o tempo era a soma de duas consciências temporais a consumir um espaço abstracto. Nunca gostei de pensar que o tempo não perdoa. Se o tempo fosse emocional e me condenasse sentimentalmente, eu sentir-me-ia uma sombra que ele deslocasse com uma exactidão humana. Mas tenho o meu pensamento para contrariar o poder que o tempo exerce sobre mim. O facto de o tempo me observar não lhe dá o direito de alienar a minha presença. Eu sou uma sombra que desobedece às regras meticulosas do tempo. E essa será, fatalmente, a minha transgressão existencial.
fep

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uma flor e um livro, ofereço
Comment by * — 23/04/2008 @ 10:43 am