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29/05/2008

dias assim

Há dias em que a humanidade complica com o meu sistema existencial. Não há simpatia que reponha os meus níveis normais de tolerância. Nada parece funcionar de acordo com as leis da vida. Sinto as regras do comportamento humano adulteradas. Nem um dia de sol ilumina qualquer esperança de amar alguém. Sinto-me num excesso de não existir que me impossibilita de sentir que os outros também existem.

fep

27/05/2008

Há pessoas presas dentro de pessoas

Arquivado em: poemas

Há pessoas presas dentro de pessoas
dentro de garrafas alisando a madeira fria
e o que do fumo se estende pelas mesas
é a curva lividez dalgum temor sinistro

Como nada acontece entre o som e o copo
deposita-me no sentir o sono profundo
um vento baço que arde pelas costas
inglória e perfurante a espada de deus

joão bentes

25/05/2008

LIGHT

Quarto. Luz intensa. Duas mulheres. Os corpos cobertos. Tecido transparente. As formas. Máquina de filmar. Posições. Vozes. Acção. As línguas tocam-se. Os seios. Mordê-los. Uma mão no rosto. Os cabelos. Os olhos ardem na imagem do outro rosto. Indicações. Deitar na cama. Descer a boca pelo corpo. Olhar e reter nesse olhar o prazer do outro. As mãos.
- Corta!
A voz do realizador. Fios a arrastarem no chão. Mudança de posições. Luzes.
Beijar o sexo. A língua no vermelho. Contracções. Gemidos.
História simples. Duas mulheres numa estação de autocarros. O mesmo destino.
- Saí de casa. Procuro um quarto. Uma vida.
Duas histórias simples no mesmo acto de leitura. A mesma casa. Café. O lume. Amar-te contra as palavras. Escrevo. Foder nas palavras que escrevo. Foder na tua boca as minhas palavras. Vir-me nas tuas palavras.
- Quero realidade. - A voz do realizador. O olhar dentro da tua vagina. A luz a magoar o prazer que não sentes. Mexer a língua. As mãos nas nádegas. O teu corpo numa nuvem.
- Hoje estou vazia. Não sinto nada.
Sentadas no mesmo banco no autocarro. As tuas mãos. Antes das palavras o teu corpo. Masturbo-te. Não quero que olhes. Olha através da janela o andamento da tua vida.
A voz do realizador. Olha-te no espelho. Tu vens por trás. sentir a ausência desse amor que não sentes. Deito-me no chão e tu escreves.
Sou sempre assim, vazia. Rasgar o corpo nas folhas escritas abandonadas neste desejo. Faz-me confusão o tempo deste desejo. As pessoas amadas no tempo. Não tenho tempo.
O teu sexo e eu nesta morte de escrever o tempo inexistente como se nenhum desejo te recordasse na vida.
- Que o teu prazer seja a minha morte.
Autocarro. Bairro. Prédios de apartamentos. Rua. A tua mão. Subir as escadas. O teu corpo. Movimento. Quadros nas paredes. Destruir as imagens. Escrever-te nua contra as pinturas. Não posso entrar em ti. Não tenho palavras. Recuperar o teu amor. A luz pela janela.
- Ama-te em mim.
Não sinto nada. Nem a tua escrita quando o teu corpo no meu. As paredes apertam-me contra o vazio. Se amo tudo acaba.
- Corta!

fep

23/05/2008

pintura

Arquivado em: poemas

Parece a fachada dum prédio velho
Labirinto
Confusão de janelas perturbadas
a olhar através do pensamento das cores
O tabuleiro negro das sacadas inclinado sobre as ruas
dialogando com as sombras no silêncio dos espaços brancos
Na língua dos vasos flores ocultas
Sinto-as
A luz dos lençóis a secar
Respiração de vento
Paredes pintadas pelo tempo
Outra memória
Portas abertas e os meus olhos entram
Uma rapariga dança feliz
Outra faz exercícios domésticos
Uma cafeteira assobia no bico do fogão
O vapor é uma aguada cinzenta muito leve
Num divã dorme o sono duma criança
Um pano sustido no ar
Infinidade de polilha
Um quadro de Picasso (imitação) pendurado na parede
Os saltimbancos
A humidade desce até ao rodapé
Nas cidades já só nascem flores nos olhos dos poetas
explica um pássaro na gaiola
Ao fundo num corredor um homem e uma mulher
beijam-se em segredo
Boca na boca sem palavras
Um livro caído no chão aberto no poema da água
Uma velha arrasta a sua silhueta e deita-se-lhe em cima
nódoa de tinta
Os gatos escondem-se na ferrugem das varandas
Vejo-lhes as fagulhas dos olhos
As pinceladas de cinza das caudas
Redes mosquiteiras nas janelas
Ferros cravados verde-musgo das chuvas
Líquen
Uma escada que sobe e eu subo com ela

fep

a mão suja (V)

Arquivado em: poemas, escrever é

uma nódoa na palma
húmida gelada
uma mancha que ecoa
dissonante e veloz
rasgando a superfície num raiar
azul

se assim começa
gela-se tingida de suor

Pedro Afonso

22/05/2008

Vento que acendes do áspero cimento

Arquivado em: poemas

Vento que acendes do áspero cimento
não mais que ténues limites pelas ruas
corpos que cruzam as amplas esplanadas

Persistes recalque da luz que desbrava
remexendo algures a apócrifa essência
entre o verde incólume do exacto plástico

Submergir até que a cabeça insufle
aguardar o pó principiar um nome
adivinhar longe ninguém que passa

joão bentes

21/05/2008

Aprumados gumes de néon plastificado

Arquivado em: poemas

Aprumados gumes de néon plastificado
ressoam púrpura o confuso sílex corroído
e o sofá doméstico a sofisma atordoante

Há aparas que são névoa perfurante e tensa
uma pressão súbita que se entranha nas veias
a bandeja oxidada muito firme nas mãos

Quase começo de novo os pés de me deitar outro
nas águas do sul onde peixes dançam nucleares
aprofunda-se no sangue o delírio sarraceno

joão bentes

20/05/2008

a mão suja (IV)

Arquivado em: poemas, escrever é

se penso com a mão
é na lama que os dedos
agem um patinar
nada artístico
uma fuga em pânico escorregadio

sou um deslize coxo
do assombro

Pedro Afonso

17/05/2008

a mão suja (III)

Arquivado em: poemas, escrever é

é na ausência do quê que se esfria
o dia a luz na mão
sugada pelas aparências
de uma pele escalpada voando
em sangue
pétala de horizonte caído tocando o medo

o que vai chegando é negro
de dedos nos olhos

Pedro Afonso

16/05/2008

ainda o edita 2008

Arquivado em: ecos

umas quantas fotografias, aqui.

FMI - José Mário Branco (em 1979)

parte 1

parte 2

“…mãe eu quero ficar sozinho
mãe não quero pensar mais
mãe eu quero morrer
eu quero desnascer, ir-me embora
sem sequer ter que me ir embora…”

joão bentes

a mão suja (II)

Arquivado em: poemas, escrever é

não sei se desperto
mais familiar
com o estrondo do sol a nascer
ou a noite sugada pela luz

a mão vibra na ponta
da dormência do braço quebrado

Pedro Afonso
(anterior: I)

14/05/2008

publicado o rapaz-areia

Arquivado em: divulgação

Existiu em tempos uma ilha ao largo da costa do Algarve em tudo semelhante às que ainda hoje insistem em proteger esta ria que me fascina. Uma ilha extensa, toda de areia branca que evaporava e ruía à força das marés, dos ventos e do sol. Esta ilha, agora impalpável e improvável, naufragou sem deixar pistas. Toda ela areia e alguns barracos de madeira, os quais o mar tratou de lhes dar outros usos, e os barcos de quem lá os teve engolidos pelo tempo e pelas entranhas negras desta ria que os sustentou.

Não seriam nenhumas as provas da existência desta areia elevada do mar e da sua pequena povoação de pescadores se um evento extraordinário não me tivesse ocorrido. Ainda assim, as provas dessa existência deixarão dúvidas a quem quiser prová-lo topograficamente ou por outros meios físicos que nos servem de verdade. A minha certeza não vos chegará, com certeza, mas o que vos apresento nesta publicação deixar-vos-á no mínimo inseguros em relação a um nada que outrora foi.

Ficou hoje concluída a publicação de um conjunto de textos desse caderno que encontrei debaixo das águas ao largo da extinta ilha de Santa Lúcida.

Esse conjunto inédito de textos, intitulado rapaz-areia, continuará acessível aqui para quem não seguiu a publicação ou a quiser voltar a ler.

Pedro Afonso, o achador do caderno submerso.

palavras na mesa

Arquivado em: ecos

Apanhado na rede: jantar de despedida do brasileiro Valdir Rodrigues no Chalé de Bela Mandil. Ver o filme e seguir as imagens.

fep

13/05/2008

imagens e reflexos

O senhor Gato parece preocupado com o verso “Ele deixou a sua alma a marcar uma página”
do poema editado neste blogue. Diz o Gato que reconheceu na imagem da frase reflexos de outro poema do livro “Fragmentos” da autora Ana de Sousa. A rematar os seus comentários, sugere o Gato que o verso em questão está longe da originalidade. Pergunto: qual dos versos carece de originalidade? O que integra o meu poema escrito em 2000 e editado no meu blogue em 2003, ou o verso do poema de Ana de Sousa, cujo livro onde ele está inserido foi publicado em 2006? Será que estamos perante um comentário de alguém com o rabo a marcar a angústia e a solidão?

fep

12/05/2008

a mão suja (I)

Arquivado em: poemas, escrever é

mantém-se ainda a mão
sugada no lodo
o corpo foge até ao limite do braço
como se a não levasse
e dessa matéria negra o que me chega:

o frio do vácuo puxando
para o sem fundo

Pedro Afonso

da posse

Arquivado em: poemas

NUNCA NUNCA
NADA NADA NADA
PARA SEMPRE

joão bentes

10/05/2008

POEMAS SEM EMPREGO

Arquivado em: poemas

1.
a manhã nasce com as aves no peito das palavras
e já os olhos se abrem necessários para receber o dia
desejava o silêncio como água habitando as ilhas
desertas no corpo

2.
viajo de branco pelo passeio da memória
invento uma forma para sobreviver ao artesanato do tempo

3.
não há emprego para as palavras
desafiando o deserto em que escrevo
encosto a carne ao silêncio da voz
é um fio de sangue construindo o poema
vem do seio da língua crescendo

4.
junto às tábuas da tarde sente-se o mundo afastar-se
respiro a terra por dentro repleta de sonhos eliminados
aqui o fogo repousa na água carbonizada das chuvas
a magia da noite há-de explodir

5.
derramo na mesa os objectos que guardo nos olhos
trago sempre pedras para casa
cumpro a noite - adormeço com as palavras

fep

09/05/2008

palavras silêncio

Arquivado em: poemas

Foges do frio e da chuva
abandonas a cidade
o teu pensamento a guiar-te pelas ruas
o meu pensamento distante é suficiente
para te isolar da vida exterior
eu oiço o teu silêncio como se recolhesse
nos teus passos húmidos pelo caminho
as palavras que tu pensas até chegares a casa
escrevo o interior do teu quarto e o silêncio
é o teu olhar cansado numa folha cheia de palavras
moves-te pelo quarto numa dança luminosa
o medo é o som deste silêncio gravado à volta do teu quarto
se o silêncio fosse as grades das tuas palavras
o silêncio também seria a impossibilidade da minha escrita
mas eu escrevo o teu silêncio como se as palavras
fossem as paredes que fecham o teu quarto
eu também destruo o meu silêncio
contra tudo o que destruo em ti
e as minhas palavras transformar-se-ão no quarto
onde viveremos nessa destruição
porque o silêncio é a distância interior
profundamente habitada por um sentimento futuro
agora o nosso tempo é este som que escutas
nas palavras que lês do meu pensamento
ninguém destrói o silêncio
sem antes destruir a pessoa silenciosa
as minhas paredes são as palavras
que escutas no silêncio do meu pensamento
destruir o silêncio é ignorar as palavras
que se deseja sentir.

fep

08/05/2008

Só se pode ganhar se houver quem perca

Arquivado em: Das Grandes Questões

A Lei providencia que a vida quotidiana decorra nos limites do socialmente aceitável. A Lei são esses limites, na medida em que serve de instrumento de assimilação, de uniformização, de referência e chamada à Razão Arbitrária do que eventualmente se desvia, por excesso de nitidez no reconhecimento do que o estrema, na sua acção.

A Lei é, portanto, a actualização normativa que acompanha a evolução do comportamento Humano no seio do progresso civilizacional que conhecemos, em que vivemos. É uma regência flutuante, encolhendo e estendendo as fronteiras designadas da prosperidade colectiva.

Tratar-se-á, sempre, de uma questão de prevenção, que oferece uma leitura do movimento monótono das massas. O Homem pensa a Lei ao pensar-se em Si. Teme de forma antecipada as consequências. Só se pode ganhar se houver quem perca.

joão bentes

UM GELADO NO INVERNO

Arquivado em: poemas

Querida compreende a minha ilusão
e pensa que sou um gelado no inverno
que doce cabeça vazia a alimentar
salas de espera com conversas
sentadas no disparate imobiliário
e tu vens lamber o meu juízo em ruínas
na margem onde se instala o lobo à espera de comer
uma das tuas bonecas de trapinhos sentimentais
oh que solidão formidável quando o quarto está cheio
e a cama composta de teias de aranha
porque o amor é uma lição que não se aprende
quando o coração é um balde de despejo inútil
e tu perdes a vida em troco da frontalidade
e a minha escrita vive destas mortes
vestidas para viver na ilusão
eu sei eu sei tu és a prendinha da consciência
para meninos de gostos integrais
e depois tanto barulho tanto barulho meu deus
deves estar louca ou apaixonada
pelas moscas que cantam no silêncio.

fep

07/05/2008

micro relato edita08

A máquina devorou o cartão e por pouco não devorava o Fernando. Consegui agarrá-lo por uma perna e afugentar a máquina com um crucifixo.

Masquei umas folhas que se encontravam sobre a revista colombiana, que partilhava o mesmo posto de venda com o Sulscrito. Não deu para perceber muito bem.

Acho que a Jose Cuervo (oro) é a que melhora de forma significativa a minha pronúncia, especialmente a partir do terceiro copo. Mas a Cruzcampo também funciona.

Isto está bom é para eles, segundo dizem. E se está bom não leva sal.

joão bentes

06/05/2008

retrato de palavras

Arquivado em: poemas

estendo-te a minha mão e os dedos tremem
sobre o silêncio azul do teu corpo
é o silêncio dos muros
limite da solidão
sono
água
folha seca
ombro
orvalho na tua boca
e eu não procuro nas coisas
senão o desejo de te encontrar
está uma lâmina dentro dum prato e luz
apenas uma lâmina e o dia voltará a mentir-te
um dia vermelho em decomposição
nas minhas as tuas mãos escorrem uma doçura oleosa
sufocada de longa rotina
viajar no teu silêncio
no teu sangue
emergir do crepúsculo
numa revoada de mil lembranças
vivemos acaso?
deslizas
deslizo nas curvas enigmáticas do passado
as memórias acendem-se
os pensamentos circulam
os jardins são de cimento e as flores sabem-no
deslizas
é o cenário do teu corpo
as flores no perfume da tua pele
o musgo do teu ventre
sonho-te vida
segredo
luz
sangue
azul
sonho
e agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual
a água no tanque corre em borbotões
a luz escorre de vidros
a terra treme
e no entanto eu sei
todos os dias são dias deste próprio dia
por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas
o passado numa moldura antiga
o amor num retrato amarelecido
cortinas de pó e silêncio
escorre a luz morna pelas paredes
a cama ao fundo desfeita
desfeitos os sonhos também
concreto o amor apenas de quem ama
longe na distância final
toda esta ausência que dizes haver em mim
é feita do que somos e nada te oculto
enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo
silenciosamente
os teus lábios fecham-se de pó
ardor
vermelho
até no vazio nós caímos
entre a separação do que é secreto em ti
as palavras
só a luz pode desiludir a beleza
a luz desilude a beleza
nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos
e a imaginação era um pensamento aberto
a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos
nem o vento de cordéis desgrenhados sacode o profundo desejo
emoldurada nos meus braços
como uma janela engolida pelas heras
escutas o silêncio que é a luz e é de pedra

fep

Edita (por aí) 2008

Arquivado em: ecos

Bicicleta

Mandrágora

BigOde

Canto Escuro

Uberto Stabile











































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