retrato de palavras
estendo-te a minha mão e os dedos tremem
sobre o silêncio azul do teu corpo
é o silêncio dos muros
limite da solidão
sono
água
folha seca
ombro
orvalho na tua boca
e eu não procuro nas coisas
senão o desejo de te encontrar
está uma lâmina dentro dum prato e luz
apenas uma lâmina e o dia voltará a mentir-te
um dia vermelho em decomposição
nas minhas as tuas mãos escorrem uma doçura oleosa
sufocada de longa rotina
viajar no teu silêncio
no teu sangue
emergir do crepúsculo
numa revoada de mil lembranças
vivemos acaso?
deslizas
deslizo nas curvas enigmáticas do passado
as memórias acendem-se
os pensamentos circulam
os jardins são de cimento e as flores sabem-no
deslizas
é o cenário do teu corpo
as flores no perfume da tua pele
o musgo do teu ventre
sonho-te vida
segredo
luz
sangue
azul
sonho
e agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual
a água no tanque corre em borbotões
a luz escorre de vidros
a terra treme
e no entanto eu sei
todos os dias são dias deste próprio dia
por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas
o passado numa moldura antiga
o amor num retrato amarelecido
cortinas de pó e silêncio
escorre a luz morna pelas paredes
a cama ao fundo desfeita
desfeitos os sonhos também
concreto o amor apenas de quem ama
longe na distância final
toda esta ausência que dizes haver em mim
é feita do que somos e nada te oculto
enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo
silenciosamente
os teus lábios fecham-se de pó
ardor
vermelho
até no vazio nós caímos
entre a separação do que é secreto em ti
as palavras
só a luz pode desiludir a beleza
a luz desilude a beleza
nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos
e a imaginação era um pensamento aberto
a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos
nem o vento de cordéis desgrenhados sacode o profundo desejo
emoldurada nos meus braços
como uma janela engolida pelas heras
escutas o silêncio que é a luz e é de pedra
fep

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