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23/05/2008

pintura

Arquivado em: poemas

Parece a fachada dum prédio velho
Labirinto
Confusão de janelas perturbadas
a olhar através do pensamento das cores
O tabuleiro negro das sacadas inclinado sobre as ruas
dialogando com as sombras no silêncio dos espaços brancos
Na língua dos vasos flores ocultas
Sinto-as
A luz dos lençóis a secar
Respiração de vento
Paredes pintadas pelo tempo
Outra memória
Portas abertas e os meus olhos entram
Uma rapariga dança feliz
Outra faz exercícios domésticos
Uma cafeteira assobia no bico do fogão
O vapor é uma aguada cinzenta muito leve
Num divã dorme o sono duma criança
Um pano sustido no ar
Infinidade de polilha
Um quadro de Picasso (imitação) pendurado na parede
Os saltimbancos
A humidade desce até ao rodapé
Nas cidades já só nascem flores nos olhos dos poetas
explica um pássaro na gaiola
Ao fundo num corredor um homem e uma mulher
beijam-se em segredo
Boca na boca sem palavras
Um livro caído no chão aberto no poema da água
Uma velha arrasta a sua silhueta e deita-se-lhe em cima
nódoa de tinta
Os gatos escondem-se na ferrugem das varandas
Vejo-lhes as fagulhas dos olhos
As pinceladas de cinza das caudas
Redes mosquiteiras nas janelas
Ferros cravados verde-musgo das chuvas
Líquen
Uma escada que sobe e eu subo com ela

fep

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