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27/08/2009

Silves - encontro de poesia

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24/08/2009

uma leitura de Os Nossos Dias

Arquivado em: ecos

Um horizonte a meio
Os nossos dias, seguido de Os Lugares Antigos
de Miguel Godinho, 4águas Editora, Agosto 2009

Em “Os nossos dias”, o primeiro livro de Miguel Godinho, deparamo-nos com uma linguagem cuidada, mas não rebuscada, crua, mas nunca simplista, com aquilo que parecendo ser um sinal de contenção, será mais uma opção – um apuro estético – que demonstra um tipo de firmeza na “voz” fora do comum num jovem e estreante poeta. A poesia de Miguel Godinho, poder-se-á, para já com este livro, enquadrar na noção de “poesia da experiência”, mas sem nunca se esgotar num tom puramente narrativo, nem numa experiência exclusivamente literal. É uma poesia, que sem ser deslumbrante, é visceral, pois nasce de uma necessidade, de uma vertigem da Vida ao se debruçar numa varanda à beira do abismo da memória: “Se eu tivesse certezas sobre quem sou/ não haveria necessidade na escrita deste texto” (p. 9). Nos “nossos dias” a poesia nasce a partir de uma geografia porvir, desde “os lugares antigos”. Nasce, nessa exigência do impossível, uma desistência que se constrói no irrecuperável, erigindo um edifício quotidiano de desconforto: um dia sentiu-se o que era possível viver e isso fugiu para sempre.

Nesta escrita, que é uma (o)posição do ser sobre si, não se encontra conforto sem decepção: não existe sofá sem o onanismo inútil de uma espera daquilo que se perdeu e que nem a perspectiva de um novo dia poderá recuperar. Aqui o novo distrai, repete-se, apenas afoga o fastio em mais fastio.

Às vezes concluímos

que já chega de brincar com ela

preparamo-nos para vestir as calças e guardá-la

mas há sempre algo que nos distrai

damos por nós e temo-la nas mãos

outra vez

Da dicotomia “Os nossos dias” e “Os lugares antigos” cresce a potência de uma intensidade que se poderia reviver, não fosse a bruta crueldade do tempo presente sem sentido ser uma presença tão intensa que cinde o vivido, abrindo-o para uma outra parte: uma utopia passada: a infância, a adolescência, a Vida. Há como que um peso no plano da vida, um horizonte a meio de tudo que o dobra, que secciona e mantém distintas duas partes.

Nos desejos adolescentes

a inocência talhada

será sempre assim

o Junho de noventa e oito

de novo aqui

e o cheiro a ria

eu deitado

na sombra nocturna

da casa fechada

na praia da ilha

o vento sussurra

será sempre assim

Temos, portanto, duas partes que competem na presença de uma terceira, ou melhor: uma primeira, que assiste. Observamos, assim, um sujeito dobrado e desdobrado, como que reflexo reflectindo-se e ainda fora de si se visse a si e ao seu reflexo. Este livro, este trabalho, é de reflexão, naquilo que de mais concreto pode ser definido enquanto tal. O que é a reflexão senão a criação de uma duplicidade da qual o sujeito se faz “de fora”? De uma múltipla perspectiva, de um múltiplo tempo? Do que uma nomeação daquilo que se fende e se constitui por si, em si, para si?
Este trabalho constrói-se numa divisão imprescindível em dois tempos, dois sujeitos, dois momentos: “os nossos dias” e “os lugares antigos”; a “vidinha” e a “Vida”; o “eu” e o “outro”. Daqui, desta fronteira, o sujeito procura-se, procura ver-se agora, mas sempre em relação ao que sabe que foi, àquilo que sentiu e de que se vê perdido: “entre o real e o que nos oferecem/ o intervalo que nos separa de nós mesmos”(p. 11); mas sabe também, que quanto mais se vincula aos “nossos dias” – a vidinha, as horas sem sentido – maior é a distância, maior é a certeza da derrota:

Pouco a pouco vamos apodrecendo

na ilusão de sermos mais nós

sem nunca conseguirmos sê-lo em absoluto

O ritual de caminharmos sem destino faz de nós uma indefinição

reflectida na confusão dos dias,

na verdade da derrota.

Conseguiremos algum dia

ser imunes ao fastio?

Nunca a fuligem das horas

foi tão óbvia quanto agora

A verdade é que ao olhar-me ao espelho

cada vez mais me demoro no vazio

O “outro” sonhado, desejado, perdido-recuperado pela experiência da escrita, pelo vasculhar do tempo dito, pelo desconforto do sentir sem tocar, desenha-se por uma tangente traçada àquilo que se sentiu outrora como a verdade e que agora se afasta, permanecendo a experiência presente como uma névoa quase impalpável, insuficiente. O “outro” é mais verdade do que o “eu”, porque foi mais vivo, porque permanece vivo entre a dormência do presente como o sonho tido e a verdade da memória como o sonho perdido. Esse “outro” apenas coincide com o “eu” quando é “diminuído de vergonha/ numa farda que te servia/ numa figura que agora é a tua”.

Sendo um trabalho reflexivo, não se fica por aí, é também um trabalho crítico. Haverá poesia capaz dar conta de uma realidade sem lhe ser crítica, quando nos oferece toda uma decepção do sujeito em relação ao mundo que experiencia e nos dá a experienciar? “Às vezes esqueço-me de onde estou/ um pinhal em chamas e eu no centro/ de isqueiro na mão”.

Aqui, sempre que há contemplação é ou a do vazio, ou a daquilo que se perdeu. Quando há descrição é sempre relativa ao que causa desconforto e mesmo o pouco conforto que refere é sempre também ele crítico, pois assenta na desistência, numa não saída de um não lugar.
É crítico em relação ao acto de escrever - o para quê disso, o que fazer disso, como fazer isso: Se eu tivesse certezas sobre quem sou/ não haveria necessidade na escrita deste texto/ não precisaria de me vasculhar por entre as palavras// Se as convicções que me alinham fossem óbvias ao olhar/ não riscaria este texto vezes sem conta - já nem sei bem/ o porquê desta conversa.

Em relação à experiência do sujeito, ao seu dia-a-dia é crítico e decepcionado, mais uma vez: Uma fatiota de segunda a sexta/ e a mentira evidente na ordem dos dias/ lembro-me disso quando me deito/ de barriga para cima na secretária/ e quando cumpro tarefas/ em projectos essenciais// a minuta já está completa, senhor engenheiro/ falta apenas o senhor engenheiro assinar// uma faca nas mãos do tempo/ a assassinar a métrica dos dias/ tenho ganho muitas rugas nos testículos/ por mil euros ao fim do mês/ acho que os neurónios já se esqueceram de respirar/ pelo menos consigo pagar os créditos/ e ser feliz ao fim de semana.

E é crítico, ainda, em relação à ideologia vigente, ao estilo de vida burocrático e alienado que o oprime e diminui. É, por vezes, tão acidamente analítico que a própria escrita ao ser interrompida ainda assim continua como que não podendo parar e regista a sua interrupção, que é sempre uma interrupção de ser. Essa interrupção é, sempre, uma inutilidade, vem sempre de uma presença que apenas tem como objectivo fazer-se presente:
Estou sim, muito bom dia senhor engenheiro,/ faça o favor de dizer// (nada no espírito que valha a pena expressar/ a caneta resvala-me da mão enquanto me perco/ no infinito. O vazio do papel, um espelho,/ uma ausência enquanto atendo senhores engenheiros)// claro que sim, senhor engenheiro, sempre que o desejar// (uma carreira resplandece/ numa sociedade aberrante/ só para saldar as múltiplas despesas/ de uma vida aparentemente burguesa)// adeus, muito boa tarde, senhor engenheiro/ faça o favor de ligar sempre que quiser.

Em “Os nossos dias” entende-se que “apenas depois de tudo teres perdido/ és livre de tudo fazer”. É, ao mesmo tempo que decepcionada, uma escrita libertária, uma escrita de quem percebe o caminho que há a percorrer para se libertar dos grilhões do sem sentido que vigora. É, desta forma, uma escrita de protesto que denuncia “isto” e pressente o “para além disto”. Mesmo partindo da decepção e do assumir de algum conformismo, aponta a saída: “deixemos que nos cunhem o semblante/ eles que se fodam, mon amour/ eles que se fodam”. Mas, para além do conformismo é uma escrita resistente. Resiste precisamente ao sofá, no sentido em que o aponta como leito de morte de ser, como que quem tendo que descansar soubesse que descansa para continuar um “dia atrás do outro a caminhar errante/ pelo trilho da cegueira”, descontente, desiludido, mas consciente, acompanhado da memória, ainda na margem que oprime o rio, mas sempre no limite de saltar para a corrente selvagem: é uma escrita que tem permanentemente referente a opressão e por isso mesmo deixa pressentir sempre o limiar indizível da loucura, do limite, do momento em que só tudo pode ser abandonado.

Na falta de uma utopia

um grande nada enquanto engordo

refastelado na doença do corpo

a janela tem boa vista e o sofá

dá para deita. Posso sempre

puxar a mesinha de apoio

e descalçar-me de mim

Esta é uma escrita de abandono, mas que não se abandona, reencontrando nos “lugares antigos” aquilo que a permite olhar para “os nossos dias”, olhar-se a si e olhar para nós. Aqui está a memória, a memória usada: “O que nos fica de ontem/ são ruínas nebulosas/ imagens que emendamos/ conforme nos convém”. E está, também, na leitura, na nossa e na da própria escrita, através da qual passamos por outras escritas: de músicas, de palavras de outros textos, de imagens que ficam no fundo dos olhos.
É desta forma que, depois da decepção, do abandono, encontramos uma recuperação do ser, uma preocupação ontológica que respira por entre a crueza dos “nossos dias”: “recordas-te de ti/ quando tudo era azul/ quando ainda não te havias/ transformado numa ilusão?”. Talvez por isso, no fim dos “nossos dias” o sujeito se lembre do “porquê desta conversa”, e quando isso acontece, passamos, como no fim do livro entendemos, “de repente”, aos “lugares antigos”.

De repente

lembrei-me das cores de ontem

dos cheiros daquele presente

desse passado que é de novo agora

como se nunca tivesse deixado de ser

Como que um presente sempre

presente nesta memória de agora

agora e por agora/ porque de repente

a muleta do tempo tropeça

na vontade do teu regresso

De repente

Apresentação de Pedro Afonso

02/08/2009

a pele

Arquivado em: a poesia está na rua

Poesia visual, por Adão Contreiras.











































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