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23/05/2008

a mão suja (V)

Arquivado em: poemas, escrever é

uma nódoa na palma
húmida gelada
uma mancha que ecoa
dissonante e veloz
rasgando a superfície num raiar
azul

se assim começa
gela-se tingida de suor

Pedro Afonso

20/05/2008

a mão suja (IV)

Arquivado em: poemas, escrever é

se penso com a mão
é na lama que os dedos
agem um patinar
nada artístico
uma fuga em pânico escorregadio

sou um deslize coxo
do assombro

Pedro Afonso

17/05/2008

a mão suja (III)

Arquivado em: poemas, escrever é

é na ausência do quê que se esfria
o dia a luz na mão
sugada pelas aparências
de uma pele escalpada voando
em sangue
pétala de horizonte caído tocando o medo

o que vai chegando é negro
de dedos nos olhos

Pedro Afonso

16/05/2008

a mão suja (II)

Arquivado em: poemas, escrever é

não sei se desperto
mais familiar
com o estrondo do sol a nascer
ou a noite sugada pela luz

a mão vibra na ponta
da dormência do braço quebrado

Pedro Afonso
(anterior: I)

12/05/2008

a mão suja (I)

Arquivado em: poemas, escrever é

mantém-se ainda a mão
sugada no lodo
o corpo foge até ao limite do braço
como se a não levasse
e dessa matéria negra o que me chega:

o frio do vácuo puxando
para o sem fundo

Pedro Afonso

07/04/2008

Da Micro-Ficção

Li hoje o prefácio do Henrique Fialho à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa. É um texto interessante que, para quem - como eu - tem pouca informação acerca da Micro-Ficção, oferece uma panorâmica introdutória que pode servir a outras leituras e que levanta questões importantes a considerar. O que mais me interessou foram as questões acerca do género e da relação deste com os outros que lhe fazem fronteira e a problemática relacionada com a sua dimensão reduzida e os tempos actuais.

O tempo sempre fugiu e o homem sempre correu atrás dele na tentativa desesperada de o ultrapassar, de lhe estar à frente ou de não ser por ele subjugado ou, pelo menos, de nele se sentir.
Diz-se que hoje o tempo foge mais rápido, que o nosso modo de vida lhe corresponde aumentando a velocidade da vivência, imediatizando os consumos, os produtos, as experiências.
Sempre fugiu, o tempo, hoje foge à nossa maneira.

Creio, concordando com o Henrique, que a génese da Micro-Ficção não se pode prender com os tempos actuais, com “as novas cronometragens da vida quotidiana”, com este “tempo sem tempo”. Estará, essa génese, mais relacionada com um outro imediatismo, com um imediatismo de longo efeito. Um imediatismo que aponta para o funcionamento da anedota, do aforismo, do ensinamento budista, como é referido no referido prefácio. O que passa por imediatismo é o acesso ao total do texto devido às suas dimensões.

Quanto à Micro-Ficção que hoje se escreve creio que o mais interessante é aquilo ao que o Henrique se refere como “a anulação das fronteiras dos géneros”, essa forma de experimentação que é sempre meta-literária, que passa por uma procura de originalidade e acende a sempre produtiva ambiguidade de classificação. Esta característica é sem dúvida uma riqueza, é sem dúvida uma fonte de questões.

E há a questão - que, como já disse, não passa pela génese - do “tempo sem tempo” e da dimensão deste género. De, hoje em dia, por exemplo nos blogs, ser um género literário em crescimento. Adapta-se a isso? É adoptado por isso? Serve mais a um tipo de leitura para o qual a maioria das pessoas está hoje disponível? Para o qual alguns escritores estão mais disponíveis e a partir do qual sentem comunicar melhor?

Quanto a mim, que tenho ensaiado algumas incursões na micro-ficção, o que me interessa é, sendo a poesia aquilo que escrevo, essa busca desse limite-fronteira, esse texto híbrido fora do espaço circunscrito a uma designação. É, para mim enquanto pessoa que escreve, um espaço de experimentação e, por vezes, de resvalo, para onde os textos vão fugindo.

O homem na esplanada atransparentava-se ao escrever. Era um poeta, conhecia-o, era meu vizinho. Sei que para voltar da sua invisibilidade escrevia pequenas histórias, dúbias, que lhe restituiam a cor a da certeza.

Pedro Afonso

12/09/2007

Ler (I)

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Gostava que aqui, no blog do Sulscrito, se desse início a alguma discussão, ou troca de ideias, acerca da leitura. Sendo este um blog essencialmente de e sobre a escrita, a leitura terá de ter o seu lugar de destaque enquanto atividade principal da escrita.

Participem, quer nos comentários, quer enviando textos para o nosso email (sulscrito@yahoo.com), os quais nós posteriormente publicaremos.

Fica esta primeira ideia:

A literatura traça-nos caminhos para o que não pode ser dito; deixa-nos perplexos nesse limite abismo: “um outro sentido / tão selvagem e tão precisamente puro que anulará o sentido das palavras” (Ramos Rosa).

A literatura transporta-nos até essa sua fronteira e, depois, abandona-nos, deixando-nos sós nessa região indizível. É para essa região além fronteiras que ela aponta.

Não vos acontece levantar os olhos da página e só então ler?

Pedro Afonso

14/03/2007

a cadeira

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A linguagem dos objectos. A memória que existe neles. Gosto especialmente de escrever o objecto cadeira. Representar a imagem desse objecto num espaço amplo, vazio de qualquer outro sentido que não seja o pensamento objecto da cadeira. O pensamento já nos traz a forma que a palavra evoca. Escrever cadeira numa sala vazia é uma encenação do pensamento que traduz a imagem que se liberta da palavra. A escrita é uma oficina de imagens que se ligam entre elas. Escrevo cadeira e penso em objecto mesa. Não é uma obrigação. Não é uma condição rigorosa imposta pela palavra cadeira. Há cadeiras que não pertencem a nenhuma mesa. Esta cadeira que escrevo não existe debaixo de nenhuma mesa. Não penso em conjunto mas em forma isolada, mínima.

As palavras são desenhos que formam objectos. Isto é verdade para o caso da cadeira, como é verdade se a palavra fosse mesa. No pensamento que temos dos objectos, todos os desenhos são perfeitos. A perfeição é a forma nítida da imagem que o pensamento desenha na palavra escrita. Nunca se escreve cadeira na sua forma real, objectiva, isto é, ninguém escreve costas, assento, pés, quando simplesmente se refere a cadeira. Cadeira é já uma palavra sentada, ou a indicação disso mesmo. Como mesa é uma palavra rodeada por pessoas. Uma palavra no centro de alguma coisa. No campo das emoções as palavras não indicam objectos. Sobre este assunto é tudo mais invisual. Os sentimentos são palavras escondidas na consciência das imagens que se quer transmitir. Cada um sente os seus objectos emocionais. Mas é ainda verdade: a imagem cadeira pode estar inserida no sentimento medo. Por algum motivo particular da sua própria vida, alguém sente medo e a imagem cadeira surge sem que a palavra correspondente a esse objecto fosse evocada. Isto é um trabalho de encenação emocional.

Temos alguém sentado numa cadeira. Está a ser interrogado. É agredido. A imagem cadeira é a memória de uma agressão. A palavra cadeira não pertence ao objecto confortável para o qual foi concretizada. O sentimento medo incorporou a funcionalidade do objecto cadeira. Neste caso, a cadeira é uma sensação. O pensamento cadeira tem um corpo sentado sujeito à tortura e não ao conforto. A palavra física da cadeira deu lugar ao sentimento de inquietude que esse objecto representa na consciência. Logo, a cadeira é um objecto de experiência e não apenas uma peça de utilidade humana, corporal.

fernando esteves pinto

26/02/2007

a escrita é a observação do teu pensamento

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Sentes-te afastado da escrita. Ou a escrita afastou-se de ti? A verdade é que interiorizas tanto o que pretendes escrever, que a escrita não tem acontecido. Talvez seja uma viragem. É seguramente uma viragem na tua forma de escrever. Dá a ideia que a vida se esgotou, e no entanto ela continua. É uma paragem, só isso. Não podes ficar perturbado. Mas se ficares perturbado, a perturbação também se escreve. Talvez este vazio se deva à tua imobilidade do momento que atravessas. Algo se está a construir à margem da tua própria vontade. Alguma coisa se escreve por dentro do que vives. Não é ainda escrita do que possas escrever. O pior é não compreenderes a construção da obra que se ergue dentro de ti.

Vivemos os dias e nem sequer fazemos uma leitura do que está a ser escrito. A capacidade de escrever surge da intuição que nos conduz a essa matéria que é o escrito. Se não perceberes isso, se a escrita se perder naquilo que pensas, a tua vida armazena-se na interioridade como se fosse uma estrutura mal construída. É um perigo não saber o que fazer com as palavras. Sabemos que as palavras existem em tudo o que somos, mas ignoramos o que as palavras destroem no espaço vazio que representamos. Uma ruína de palavras, isto a que chamamos escrita. E depois temos o pensamento – essa espécie de tempo. É uma condição para quem escreve: sentir que o tempo é o pensamento da escrita. Não é nada agradável sentir que existe um tempo imóvel sobre aquele que escreve. É como se a escrita nos obrigasse a pensar sobre a destruição do que está a ser construído.

Volto sempre a esta ideia: escreve-se como forma de abandonarmos o nosso próprio tempo. Se o tempo é em ti uma consciência incómoda, se sentires no tempo as manobras indecisas da tua memória, então tudo o que escreves é ainda um esboço do que realmente desejas escrever. Tens o pensamento como uma rede de malhas largas. Um filtro pouco exigente. Também podes pensar que o pensamento anda à volta do tempo, como a terra à volta do sol. A escrita é a observação do teu pensamento.

fernando esteves pinto

23/02/2007

A escritora

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Quando decidiu ser escritora nunca pensou ser devorada pelos livros que escrevia
A inspiração procurava o lixo em centros comerciais
Marcas de inutilidades em produtos pouco humanos
Também era presença onde a solidão dava espectáculo
Entre amigos produzidos por uma afectividade perturbada
Vestia nas melhores lojas ao preço de palavras mal empregadas
E nenhuma frase dos seus livros era peça única
Fazia combinações de pensamentos como quem preenche uma segunda via
De um documento emocional pedido num departamento criativo
Os romances trajavam a rigor de imitação
Com personagens maquilhados de inteligência publicitária
Nas sessões de autógrafos exibia o cartaz da amabilidade
Instalação orgulhosa para leitores infelizes
Que procuravam nas suas obras o entulho e o desperdício
Pormenores de vida que se liam como regra de desconforto
No jogo leve da literatura de oferta e aniversário
Os críticos literários mantinham-na em cativeiro no curral da indiferença
Longe das questões universais e das páginas do orgulho impresso
Por vezes o seu nome trazia alguma luz
Quando a forma de existir no meio intelectual
Lhe exigia custos de imagem e profundidade
Estudos ridicularizados pela gestão danosa de críticos habilidosos
Na humilhação da visibilidade negativa
Utilizando leis de improviso na magia da auto-ostentação
Escrever sobre a sua obra garantia a exposição por efeito contrário
Tornando-se objecto esplêndido a interminável mediocridade
Inocência popular julgada pelos cabeçalhos da ditadura crítica
Numa encenação débil e tendências amavelmente conflituosas
Mas ela escrevia sempre na esperança perdoável das suas qualidades
Tão dolorosamente brilhante que iluminava nos outros
O que ela nunca sentira como verdadeiro

fernando esteves pinto

21/02/2007

kitsch

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Meu querido diário:
Estou a escrever-te porque és o único que me compreende e me leva a sério sem pores em causa a minha estupidez. Com os outros não posso ser tão franco e ingénuo, embora a minha infantilidade tenha uma voz suave e cativante. Mas faço um esforço para parecer genuíno. Caracterizo-me por ser um escritor que nem lembra ao diabo. O resultado é a inveja e a chacota sobre a pureza do meu trabalho literário. Fui ver o Capote, esse encantamento cinematográfico, e quando saía do cinema senti o coração emplumado. Gostava de pronunciar o meu nome com a voz desmaiada e quase a partir-se do grande Truman. Já estou em ensaios diante do espelho íntimo do meu quarto para futuras apresentações dos meus queridos livros todos os dias.

Querido diário, nem imaginas como me sinto um autor feliz num país de poetas esquecidos e amargurados. Nasci para escrever. .. Olha-me só esta grande frase, tão simples e ao mesmo tempo tão profunda, tão presente na vida dos que andaram na escola – minha querida infância, como agradeço a tua visita – e parece que só eu a sinto. O meu trabalho como escritor é fazer que os outros sintam o que eu tenho impressão de sentir em tudo o que escrevo. Tu compreendes-me, não é assim? A profundidade não é a raiz. A profundidade do que escrevo é a flor dos meus sentimentos. Profundos são os meus poemas quando me levanto da cama logo de manhãzinha e começo a escrever antes de mijar. A minha alma é um regador e frescas são as lágrimas que rolam nas minhas palavras. Como é fértil o campo do meu corpo onde a poesia floresce sem o adubo da razão. Desde criança, querido diário, desde criança que a semente da minha consciência me pede para nascer e com ela eu me transforme num poeta da luminosidade complexa. Eu faço-lhe a vontade, querido diário, se a consciência do que penso se transformar num jardim de infância onde todos os poemas ainda vistam bibe. São impressionantes os frutos que a árvore da minha infância põe à minha disposição e com eles eu me alimento neste meu jeito de guloso inspirado. Outra grande frase, querido diário: os frutos da minha inspiração. Poeta é aquele que oferece estas guloseimas literárias aos seus leitores. Sempre partilhei os doces encantos da minha mente. Sempre escrevi como se fosse eu o primeiro a provar os biscoitos poéticos que depois ofereço ao gosto comum.

Querido diário, o sonho de um poeta deve estar acima de todos os pesadelos. Sonho a escrever e escrevo a dormir. Escrevo e reescrevo, desembrulho palavras no meu vasto dicionário de sentidos e chupo um poema até à nostalgia de sentir um rebuçado desfazer-se na saliva pura de um rio onde vejo partir um barco de palavras para dar as boas novas aos meus queridos leitores.

Oh! Escrever é viajar a vermo-nos partir. Ler é chegar aonde os outros já estiveram e já partiram.
Profundidade minha que me afogas nesta ânsia de querer estar e partir, onde as minhas palavras são a meta que cumpre a minha viagem.

Querido diário, um poema é uma fonte de lágrimas, logo, as minhas lágrimas são poemas em repuxo. Lágrima é uma palavra cintilante. Poema é uma palavra que nos acende. Sou um poeta que arde no fogo que a minha alma extingue.

Oh! Poesia, poesia. Às vezes tenho a sensação que sinto mais alto que a compreensão de quem me lê. Mas tu não, querido diário. Tu és o rosto branco da página onde eu manifesto toda a minha sensibilidade. Quero dizer-te uma coisa, querido diário. Quase um segredo. Sempre me senti uma criança muito diferente das outras. No bairro onde cresci, ou na escola que testemunhou o meu progresso como pessoa inteligente, eu já era visto como um poeta do futuro, pois as minhas observações sobre a vida e as coisas traziam a marca dos grandes poemas. Se eu dissesse aos meus amigos, por exemplo, que as nuvens que olhávamos no céu, negras e tumultuosas como um grito de Deus; aquelas nuvens carregadas de mistério e medo, se eu lhes dissesse que pareciam farrapos de poemas no livro azul do céu; os insensíveis dos meus amigos chamavam-me doido e previam que vinha aí tempestade da grossa e chuvas torrenciais.

Oh! Querido diário! Se eu alguma vez, em público, como de facto aconteceu, fizesse o retrato poético da Lurdinhas, nossa amiga, atribuindo aos seus lindos olhos uma intensidade de pirilampos, ou descrevesse o seu corpo como se bordasse um emblema de amor com as palavras apaixonadas no meu coração; os perversos dos meus amigos cuspiam com desdém os meus sentimentos e diziam-me na cara que ela era sem dúvida uma boa queca.

Isto para não falar de outras coisas, querido diário. Se eu discorresse sobre a metafísica dos pássaros, os meus amigos falavam em matá-los e comê-los fritos. Se eu confessasse que escrevera um poema, eles perguntavam-me se andava doente. Sempre que eu me propunha analisar o mundo numa perspectiva metafórica, os meus amigos opunham-se-me com a objectividade ignara dos que acham que uma pedra é uma pedra; e corriam comigo à pedrada.

Querido diário, de uma coisa tenho a certeza: a mágoa é que faz o poeta. A mágoa é a seiva das minhas palavras. Que coisa linda, escrever um poema e rir-me do silêncio de quem me lê.

Oh! Poesia, poesia! És a boneca da minha subjectividade.

fernando esteves pinto

13/02/2007

primeiro livro

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O meu primeiro livro não me deu nada. Escrevi esse livro numa fase complicada da minha vida. Tinha muito tempo e não tinha nada. Tinha a solidão. Não tinha trabalho e voltava para casa mais cedo, depois de um dia perdido entre aqueles que trabalhavam e ganhavam a vida. Eu nunca ganhei a vida, nunca pensei dessa forma. Eu ganhei a solidão e era com a solidão que regressava a casa para escrever. Havia uma mesa no meio da sala. A casa estava ainda deserta. Lembro-me de entrar em casa e sentir-me culpado por ir escrever durante a tarde. A minha escrita sempre se alimentou da culpa. Culpa de não ser como os outros que chegam a casa para descansar, estar com os filhos e com a mulher. Eu chegava a casa para estar comigo. Tinha essa necessidade: encontrar-me com as minhas palavras.

Era uma espécie de cegueira, isso que eu sentia enquanto escrevia o que viria a ser o meu primeiro livro. Sei agora que eu já trazia toda a angústia de não ganhar a vida como todos os homens, e sentar-me para escrever como se só eu existisse no mundo. O esquecimento da realidade fazia-me escrever sempre mais, ao ponto de me sentir ausente da própria escrita.

O livro estava a ser escrito ao mesmo tempo que a minha vida se destruía. É preciso destruir para escrever. Foi sempre assim comigo: a maldade arrancada à vida para ser escrita da própria vida. Nunca escrevi a sentir-me bem com alguma coisa. Nunca. Precisava de rasgar o silêncio que me envolvia, por exemplo rasgar o silêncio com a má disposição de quem sente o tempo passar e nenhuma palavra pudesse ser escrita ainda. Escrever para destruir, acho que foi esse o meu erro de querer ser escritor.

Olho muito tempo para as paredes da minha casa. Olhei sempre muito nesse tempo em que escrevi o livro. Era nessas paredes brancas e nuas que as imagens do livro surgiam. A minha memória do livro escrevia-se nas paredes da casa. Havia discussões da vida passada e havia a escrita dessas discussões a impor-se na miséria dos meus pensamentos. Hoje compreendo porque é que eu escrevia zangado com o passado.

Chegar a casa zangado e tentar resolver a minha vida com as palavras. Escrever para estar só com o livro que um dia me haveria de condenar ao vazio. Pisar o livro antes da primeira leitura. Foi isso que eu fiz. Olhar a casa do livro e esmagá-lo contra o chão e pisá-lo com raiva. Tenho raiva do que escrevo, e agora muito mais. Sempre houve esse sentimento mas nunca quis acreditar. Como raramente acredito nas pessoas, também não creio no que fica escrito dos meus actos. Destruir o livro como sempre fiz com as pessoas que fizeram parte do meu pensamento.

Estou a sentir a maldição do primeiro livro, como se as pessoas que sentiram o peso da minha escrita se revoltassem e decidissem apropriar-se do livro para exercer o poder de me castigar por escrever ainda. Para eles tenho a dizer uma coisa: não sei o que é o medo. Não tenho essa noção de escrever como se o medo fosse o suporte daquilo que escrevo. Se a escrita é o medo, então eu sou a força do medo. Nunca o medo.

Escrever com a força do medo. O medo que vamos encontrar depois do que deixamos escrito para os outros. O medo que sentimos nos outros por tudo o que escrevemos sobre eles. A solidão ensinou-me a não ser cuidadoso com o que escrevo. Ensinou-me que a escrita só existe para além de mim.

fernando esteves pinto

07/02/2007

esquecer o futuro

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Como se sentisses as palavras baterem no fundo. Sentir a fita do teu pensamento desenrolar; um corte luminoso, e logo a seguir ouvir uma batida de silêncio; uma pulsação muito leve, e a frase a desfazer-se, a distorcer o acto de pensar como se alguém te levasse a dar uma volta ao contrário no tempo. Talvez seja necessário esquecer o futuro para compreenderes que alguém ao teu lado perdeu todas as possibilidades de se iludir.

fernando esteves pinto

03/02/2007

escrever dentro dos outros

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É estranho estar de fora e ver dois corpos inclinados sobre uma mesa, os braços a atravessar o tampo e os dedos das mãos cravados no tempo que demora a dizer palavras velhas espalhadas à volta das bocas, murmurar como um canivete a ferir tudo o que custa dizer, sentir que os outros são folhas a cair ao teu lado, e tu ouves e sofres por todas as frases como estacas que se espetam ao lado numa mesa próxima onde a imagem se repete e é sempre assim: existir como num álbum de humanos a jurar amor no meio de tanta gente triste a beber e a comer e a engolir sentimentos sem compreensão; mas tu dizes: nada nem ninguém tem força humana para fechar este tecto solar sobre as nossas cabeças.
Profundo olhar o que as mãos sentem, penso que guardam palavras para dizer depois quando não existir medo, ela a encostar os lábios a tudo o que ele lhe diz e à volta o mesmo silêncio sobre as mesas com pessoas ligadas por palavras.
Estás a ver: os corpos comportam-se de forma repetida, a aproximação produz exactamente as mesmas emoções com graus de compreensão variáveis de acordo com a intensidade que o outro dispõe para te aceitar.
Uma tarde inteira de corpos suspensos sobre mesas ao ar livre numa rua movimentada e as pessoas deixam cair algum ódio quando passam por ti, palavras a bater na mesa onde as mãos arranham distraídas a luz que se esconde nos pensamentos que nunca chegam a ser de ninguém, e mesmo assim voltas o rosto para essas pessoas que caminham numa sombra de sofrimento até vê-las desaparecer, mas nada desaparece porque a ligação aos outros é infinita: mesas repetidas com homens e mulheres fotografados no tempo, palavras fotográficas num desespero para eternizar o momento em que a pose falha por ingenuidade emocional, e por fim ocorre-te escrever que as palavras devem estar fartas de repetir sempre as mesmas situações, e escreves que as palavras vingam-se daqueles que sentem mal os outros.
Nada é mais perigoso do que escrever dentro dos outros.

fernando esteves pinto

27/01/2007

a escrita não precisa de história

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Tenho muito esta imagem de uma janela suja. A vida que se reflecte nessa sujidade, já tinha pensado antes, existe em vários escritos. Em criança passava muito tempo a olhar através dos vidros escuros dos meus dias. As pessoas. Como num filme em que percebemos que é a câmara a passar lentamente, assim muito próximo do sofrimento de observar que a vida podia aperfeiçoar melhor os nossos sentimentos. Imagens feridas de pessoas a passarem no meu rosto no vidro sujo. Hoje mete-me impressão sentir como era capaz de suportar esse tempo onde todas as imagens eram bruscas e perturbadoras.

Vi uma criança ser arrancada dos braços da sua mãe. Os gritos batiam contra o meu rosto. Pedradas de medo contra os meus olhos. É uma rua estranha numa tarde escura. O homem chegou num carro. As imagens passam muito depressa. Uma mulher vem à porta com uma criança no colo. E depois a escrita das pessoas que sofrem e fazem sofrer. O homem veio para roubar a filha a essa mulher, a esse amor de um dia sujo e longo. Palavras que não oiço, palavras que escrevo. Lembro-me da mulher a correr pela rua numa loucura de mãe sem filho. Como os bichos tontos que perdem o rumo da vida e ficam cegos de ódio até à ruína.

O homem fala e a criança chora. O diálogo do sofrimento embacia a janela por onde espreito estes humanos seres. As pessoas a observarem a cena do roubo da criança numa posição tão perigosamente anti-existencial como se não fosse aconselhável uma plateia para a miséria. Sabemos que não é assim: a miséria humana faz sempre uma sala cheia onde todos sentem uma dor inocente uns pelos outros.

Os gritos da mulher, agora com uma faca na mão. A mulher a investir o seu desespero contra o homem que segurava a criança nos braços. A boca dela sem palavras a não ser estas que escrevo nesta sujidade de viver contra a crueldade. Lembro-me de sentir que estava a assistir a um crime de amor e ódio. A morte de uma criança para que não pertencesse a ninguém. Duas vezes a arma faca e tudo é possível escrever sobre a criança que não chegou a morrer. A poesia protege os inocentes.

Comecei a escrever numa janela embaciada de sujidade. Escrevi sobre este caso cujo desfecho não me recordo. Para todos os efeitos, a imagem que ficou foi a de uma criança a ser violada na sua inocência. Uma criança a ser transportada da verdade para a mentira. O medo que sentimos quando não sabemos ainda como as coisas vão acabar, esse desconhecimento dos actos que pertencem a este homem e a esta mulher, esta forma de haver escrita para além do interesse da vida da criança, toda esta emoção permaneceu eternamente numa situação tão perturbante como o acto de escrever. A escrita não precisa de história.

fernando esteves pinto

26/01/2007

fast food

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Um povo que não tinha acesso a livros. Portanto, um povo que não experimentava esse murmúrio visual que a leitura gravava na consciência. Casas sem livros. Dias escuros sem livros. Lembro-me desses dias como buracos onde as pessoas viviam. Nada iluminava este povo mudo. Agora não é assim. O problema agora é os livros. É preciso descer ainda mais no assunto: da mesma forma que se aprendeu a ler mal durante esses tempos da ditadura; também agora se escreve de um modo insignificante e insultuoso para o próprio prazer da leitura.

Na minha casa havia um único livro e isso era muito importante para minha compreensão da literatura. Estar só com o autor desse livro, ouvi-lo respirar, ler por cima da sua solidão. Sentir o livro ser escrito nas minhas mãos. O livro tinha essa humanidade de me permitir fazer parte do pensamento do autor. O objecto livro era uma obra de arte que a leitura tornava ainda mais feliz. Hoje os livros escritos são uma extensão das revistas sociais.

O problema da literatura, hoje, é que os livros se escrevem como se não existisse nenhuma outra forma de escrita para esses autores comercialmente inovadores na insignificância do que dão a ler. Existe um triângulo deformado e que mesmo assim sustem a literatura como se não houvesse erros de valor: autores, editores e leitores - todos juntos no grande mercado onde se negoceia o desrespeito pela literatura.
Se existe o fast food, porque não há-de existir a literatura pronta a esquecer?

fernando esteves pinto

25/01/2007

livros em branco

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Que escritores temos hoje? Temos muitas pessoas a fazer um bordado de vidas que não lhes pertence. Autores de narrativas que não são mais que listas de emoções extraídas de apontamentos de leituras avulsas. Temos cada vez mais escritores sem escrita. Livros mentirosos. Escritores que nunca passaram por aquilo que escrevem. Temos pessoas que escrevem o espectáculo inocente que a vida lhes dá. Autores que temem entrar nos buracos da vida e trazer cá para fora as palavras mais profundas.

Foi uma tarde passada no campo e ele continuou: a pior publicidade que haviam de dar à literatura foi permitirem editar livros escritos por figuras públicas e do entretenimento social. A banalidade literária inaugurou o mercado esplendoroso do livro fingido.

Depois vieram os nomes. Aqueles que foram morrendo com os livros que escreveram. Um livro morre porque o seu autor nunca existiu. E ele lembrou-se de A., o bruxo que se apresentava com a capa de sombra do Lobo Antunes. O tempo despiu-lhe a capa da influência e carregou-o de esquecimento assombroso. A. falhou no julgamento que fez de si mesmo. Escreveu alguns livros sem se entregar à escrita. Levou todo este tempo a brincar aos escritores. A promessa falhou. A solidão não é para todos.

Também a infância não é para brincadeiras. O grande tema de alguns desses escritores arrumados no tempo continua a ser a infância. Facilmente se deixam tentar por uma literatura de brinquedo. São escritores demasiado asseados, sem nódoas. Nunca se deixam sujar pela escrita. E a comparação do meu amigo foi atingir a escrita de B.. Posso tentar explicar, disse ele: é uma criança inofensiva. Não se desvia um milímetro do lugar-comum, esse recreio de frases e palavras onde ele se sente protegido pelos educadores dessa espécie de literatura novelesca.
Não sei, nunca li.

Estava uma tarde fria e na sala havia enormes telas brancas. Pareciam livros gigantes.
E depois lembrei-me que agora está na moda escrever livros em branco.

fernando esteves pinto

24/01/2007

mentes perigosas

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Não foi bem isto o que ele disse, mas a minha interpretação das suas palavras apontaram para esta ideia: como escritor, tenho contra a minha pessoa o facto de ainda estar vivo.
Ninguém vai morrer, ninguém pensa em morte agora que falamos do assunto. Esta é a história de um jovem que se fechou dentro dum espaço sufocante com a vida a dar-lhe pancadinhas no rótulo da sua imaginação e às tantas o pensamento obriga-o a escrever uma vaga de livros como se o tempo o ameaçasse de morte todos os dias; o rapaz maluquinho a esventrar o mundo que o ameaça, e eu a pensar se a escrita não será uma forma de trespassarmos o humano, sem encargos – um negócio a coração aberto para analistas fraudulentos que sentem nas palavras o mistério da riqueza material.

Na literatura, todas as vozes são singulares. Isto tanto na merda como no belo: acrescento eu para que a escrita reconheça para sempre o seu lugar.
Agora leio pouco, disse ainda o rapaz que escreve quando se passeia pelos mesmos lugares da sua cidade. É triste perdermos a palavra que queremos lembrar para ser escrita. Eu sei que não vou alcançar a tua cabeça altíssima de fermento metafórico e pechisbeques filosóficos que sempre dão jeito para cultivar folhas brancas de solidão enganosa. Aborrecem-me as verdades isoladas como um imenso campo cultivado onde só um pássaro debica.

Diz adeus aos livros que escreveste e podes encomendar a eternidade enquanto os teus pais estão vivos, e depois dos pais, os filhos que se fabricam para não te faltar o ar. Enquanto alguém esquecido escreve no horror de viver tapado pelo iminente existencialismo comercial em saldos, tu não e tu nunca, a escrita dá uma volta à tua cabeça assim como as palavras dão um nó à tua vida, e temos montado diante dos nossos olhos um expositor de sentimentos com custos de produção e vivência abaixo da tua própria identidade.

É tão bom escrever como quem engana, ò construtor de matéria desabitada. Fico a olhar para estes livros, ondas de música que os críticos afinam ou experimentam à temperatura da voz que mente e que a consciência ignora. Cada autor faz o seu totoloto literário, e escrevem romances como quem coloca uma cruzinha no quadrado da sorte. A explicação da obra é necessária para o conforto emocional do leitor que se perde nos corredores experimentais onde o autor se sentiu perdido e exausto.

No fundo todos nós falamos verdade, mas a verdade também é motivo de guerra.
A verdade é um contraceptivo para mentes perigosas.

fernando esteves pinto

23/01/2007

é um escritor perfeitamente errado

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Talvez seja a sua fragilidade. Porque a fraqueza que ele sente perante os outros é tão profunda, tão vivida ao nível da sua consciência, que ninguém se apercebe dessa dificuldade da sua vida em comentar o seu trabalho. Ele escreve. Ele tenta aperfeiçoar-se através da escrita. As pessoas para quem ele escreve sentem que vão muito longe na compreensão do que lêem. São pessoas destruídas. São pessoas que procuram no livro o que não sabem sentir por elas próprias.

Os leitores estão sempre a ser enganados pelos que escrevem a partir de uma ideia organizada. Orientar um plano afectivo, sentir as palavras como função sentimental. A mentira como imagem de estilo regulamentada. A vaidade emocional a rendilhar o coração. Lê-se muito isso por aí. Uma autoria obsessiva e mediática a invadir a feira literária.

Ele escreve, mas sem nenhuma verdade. Ele nunca sentiu esse peso, escrever como se sentisse insultado por si mesmo. Não tem essa coragem, não escreve. Ao contrário disso, dá-nos redacções com valor suficiente para meninas cábulas. São esses os seus leitores: os cábulas da vida e do romance falhado.

Estou a escrever para depois. Por outras palavras: estou a denunciar o futuro daqueles que escrevem sem nenhuma propriedade existencial. Nunca a literatura foi tão iluminada nos salões da futilidade. Assim como esse que escreve a infantilidade ajuizada dos seus pensamentos como se fosse a dançar no caminho para a escola. Esse que não tem uma palavra que lhe suje o bibe do bom comportamento social. Escrever com palavras limpas mas nunca livres, é isso que ele faz.

Ele é desde sempre um jovem escritor que se vigia a si próprio. A fraqueza dita-lhe a escrita do medo. A escrita sujeita ao julgamento de quem renúncia todas as histórias criadas pelo medo. Ele é isso, um escritor fotográfico. Um coleccionador de foto emoções que faz a decoração do tempo da sua vida. Mas ele nunca há-de saber que a escrita é mais que uma galeria de imagens correctamente alinhadas para meditações melodiosas. Ele escreve sem culpa, e sem culpa não pode haver escrita. É um escritor perfeitamente errado.

fernando esteves pinto

22/01/2007

a escrita cega

Arquivado em: escrever é

Hoje não consigo olhar a minha mãe como quando era criança. Ela fala-me da sua vida, demora-se muito tempo em algumas palavras, pequenas histórias já repetidas noutras circunstâncias, fala-me das pessoas que neste momento da sua vida a rodeiam, e os meus olhos nunca se viram para ela. Enquanto ela me fala, como se ainda vivesse debaixo do tempo passado, eu penso como tenho coragem de não a olhar nos olhos. A vida faz isto às pessoas que escrevem: esconder o olhar da escrita sempre que alguém nos fala.

Escutar em vez de olhar. É isso que eu faço com a minha mãe. O meu olhar está na escrita do que ela me conta da sua vida. As crianças, quando os adultos lhes falam, são obrigadas a olhá-los nos olhos. Olha para mim enquanto falo contigo. A dor dos que viveram mais que as crianças pede isso às próprias crianças. A criança velha e amargurada pede a atenção do olhar verdadeiro da criança que aprende a olhar. Mas o tempo destrói a mentira daquele que olha sem coragem. Quando sei que vou escrever sobre alguém, o meu olhar sobre ela não é importante. Com a minha mãe é o mesmo. O meu pensamento olha-a com toda a certeza de a ver representada no que escrevo.

Oiço a voz da minha mãe como se ela caminhasse devagar à minha volta em infinitos círculos mentais tão parecidos com a solidão que antecede o acto de a pensar sentada na minha frente. O meu pensamento está já a escrever com as palavras que ela me diz. Olhá-la seria destruir a escrita que o meu olhar não sabe suportar. É insuportável, sim. É insuportável a força que a coragem exerce sobre os actos negativos que temos reservado para os outros.

Sempre tive uma atitude feia perante a minha mãe. O facto de escrever fazia-me pensar que eu podia ensiná-la a viver melhor. A escrita não é assim tão perfeita. Escreve-se por defeito da nossa própria razão. A vida escreve muito mais do que podemos pensar. A escrita embrutece o olhar sobre a vida. Não olhar a minha mãe nos olhos é uma forma de a poupar do desespero de quem escreve. Não se pode escrever sem implicar os outros na nossa escrita. Para um escritor, tudo o que ele escreve é uma ocupação sobre o outro. A escrita despeja todos os dias no mundo homens e mulheres que escrevem sobre as suas próprias vidas. E na vida dessas pessoas que escrevem quase nada existe que toque os outros. Esses são os escritores sem mundo. Sempre me fez impressão escrever sem interior. A escrita é mais que o próprio olhar de quem escreve. A escrita cega.

fernando esteves pinto

20/01/2007

algumas regras

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Imagino um escritor sentado no penico das suas necessidades sentimentais a defecar afectos encantados para comercializar no mercado do lugar-comum, essa vistosa vitrina onde o pensamento se expõe por palavras e se decompõe como um pedaço de razão contaminado de mentiras.

Sei, os mortos ainda escrevem melhor do que os vivos.
Estou a pensar no que acabei de escrever.
Estamos na vida e o tempo toca para sairmos.
A morte. Não leio portugueses em nenhum tempo.

Um dia o filho diz ao jovem escritor que o pai é um maluquinho a falar com as palavras.
Ninguém compreende, mas é isso que o escritor faz com os livros que escreve:
sentado na primeira fila na sala da sua vida, escreve redacções lacrimais para os outros que estão sentados atrás de si - esses personagens de nenhum romance que aguardam impacientes e feridos
na longa leitura que enegrece ainda mais as suas vidas.

Escrever para enganar. O que vou pensar agora?
Pôr o sol atrás de mim quando caminho em direcção à escola?
Escrever que a minha professora é uma mulher igual a todos os vestidos que a minha mãe não veste
e que estão guardados há anos dentro dum guarda-fatos?

Ele é um jovem escritor com uma intuição que só pode ser avaliada e admirada
quando o tempo da sua vida passar.
É tão fácil, pensa o escritor. O leitor já não é exigente.
Compra livros já lidos na apresentação do contra-pensamento.
Agora os livros são embalagens vazias que tu podes preencher ou não com o teu pensamento.
Dar vida aos livros através do leitor, da sua disponibilidade económica, nunca humana.

Estou a imaginar esse jovem escritor sentado num imenso prado e a tirar coelhos da cabeça como quem troca cromos de palavras. Nunca gostei de livros que se escondem atrás dos seus autores. Se o coração do jovem escritor falhar, o filho que um dia terá a idade do pai que morreu pegará fogo aos livros que ele escreveu.

Ridículo. A escrita é uma doença sem vontade de cura.

Assim falei sobre um jovem escritor que é mais erro que autor.
Um erro totalmente atribuído pelo leitor,
esse grande juiz literário sem grandes conhecimentos das regras da solidão daquele que escreve.

fernando esteves pinto

19/01/2007

desencontro

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Escrever sem a matéria do tempo
no perigo de me sentir perdido.

fep

18/01/2007

crónica do pensamento

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Há uma coisa importante que é preciso saber sobre as pessoas que escrevem. Talvez isso as distinga uns dos outros: há quem esteja na escrita porque se tornou insuportável estar dentro de si. Há também os outros - os que exploram a escrita como se abusassem da confiança das palavras.
Não estou em nenhum deles. Sempre senti outro perigo a escrever.

O perigo de escrever sobre os outros - ainda a ouvir as suas vozes a embater contra o tempo que me protege dos seus actos - eu a escrever e eles a reclamar o seu lugar na escrita a ser produzida. Escrever em directo, sem nenhuma ausência. Sem isso a que chamamos distanciamento.

Nunca pus a escrita ao serviço da mentira. É isso que eu censuro em alguns escritores: a mentira. Escrever muito bem sobre o que nunca sentiram, é isso que eles fazem, não é preciso sentir, as palavras já trazem o belo incorporado sem ser necessário o pensamento profundo.

Eu tinha a minha casa e a casa era um mundo na minha infância. Uma casa sem palavras. Tudo era grande nesse tempo, vazio e aberto como um campo onde eu pudesse correr sem vontade. Escrevi as primeiras palavras que ninguém havia dito naquela casa. Não sei como aconteceu. Talvez eu tivesse fugido das pessoas para me tornar o cronista da vida delas. Aquele que escreve. O que vive só com as palavras dos outros.

Não é um abandono, esta forma de escrever sobre os outros. Viver na solidão dos outros também é escrever sobre mim. Sempre me posicionei, tanto na vida como na escrita, entre o silêncio e as palavras dos que estão à minha volta.

Comecei a escrever quando me puseram de castigo num lugar silencioso. Levei muito tempo a pensar que a escrita era um trabalho de castigo que a solidão impunha ao meu pensamento como paga dos meus actos. Inverti tudo. Mudei a vida do avesso. A vida sobre quem escrevo. Abri a vida deles de forma a expor também a minha. É inevitável para quem escreve e não contempla somente o seu pensamento como forma de disfarce que certos escritores adoptam para escreverem sobre o nada das suas vidas.

A escrita é mais que o próprio pensamento.
A escrita merece mais que o pensamento de quem escreve em silêncio.

fernando esteves pinto

16/01/2007

[27] - V. F.

Arquivado em: escrever é, aparição

As palavras são
meros artifícios
de luz e de sombra
com que se iludem
tolos e poetas.

Luís Ene

Literatura

Arquivado em: escrever é, ecos

O vento dos poemas
estremece
a página.

Luís Ene

12/01/2007

cuspir na vida

Arquivado em: escrever é

de frustrado só tenho o facto de ainda não poder escrever pior.
como eu gostaria de escrever pior.
pior como a vida.
pior como o sofrimento.
como isso que tu sentes.
como essa coisa que tu vives que não é amor nem ódio.
é uma insatisfação como não ter força ou respeito por uma mulher
que nos aborrece e que implica com o nosso fracasso.
a complicação da escrita está toda na vontade de não ser evidente.
esconder a vida.
esconder o menos belo.
viver à custa do feio.
ir ao fundo do que sentes sem tropeçar no fingimento.
trazer os defeitos dos outros para todos lerem.
carregar no pensamento esse fardo que é escrever sobre a vida dos outros.
só sentirás que tens vida se os outros te fizerem viver.
a escrita complicada é uma forma de cuspir na vida.

fernando esteves pinto

11/01/2007

um transporte sempre em andamento

Arquivado em: escrever é

Ontem editei aqui um texto a que dei o nome Se Isto É Escrever. Confesso que não tinha nenhuma ideia do que ia escrever. Não havia uma consciência de escrita que obedecesse a uma regra criativa que incluísse o problema da temática ou outro pormenor descritivo que cativasse o leitor. Escrevi esse texto inconscientemente. Escrevi-o como se me sentisse uma peça dum jogo que eu desconhecesse as regras. Escrevi sem sentido do que estava a sentir no momento de escrever. Foi uma espécie de desistência, esse instante em que todas as palavras engrossam no meu cérebro para cativarem um lugar no texto; e eu permiti que as palavras ocupassem lugares de entendimento estranhos e inadequados e prejudicassem dessa forma a compreensão dos leitores. Também a minha compreensão do que escrevi ficou afectada. Há frases que não sei o que significam. Houve apenas a utilização de palavras para formar um corpo frásico. Houve, e isso não poderei desmentir, uma preocupação de juntar palavras que se sentissem umas às outras. E o resultado foi uma carruagem de significados adulterados pela minha inconsciência voluntária de escrever. Mas existe um ou vários sentidos no texto. No meu subconsciente o texto tem todo o sentido, uma vez que escapou ao processo mental de haver um esforço consciente que lhe desse uma razão de ser escrito. A razão do texto está nas imagens subconscientes que eu criei a partir de um processo quase nulo de expressão mental; isto é, a figuração das frases muito dificilmente pertence a um real que domine o meu acto de pensar e escrever. A escrita é um acto consciente, mas o que em mim escreve é o meu estado semiconsciente. A imagem seria esta: escrevo como se tentasse apanhar um transporte sempre em andamento.

fernando esteves pinto

10/01/2007

se isto é escrever

Arquivado em: escrever é

Podia interessar nesse tempo não haver um único dia
pelo menos propor um encontro nas tuas pernas
escrever com o sexo um poema quando imaginara os estudos
para obter a vida que mal começara a triunfar no momento mais importante
na iminência de cometer alguma força também
na impotência das ruas inesperadas
depois de ter lido a consciência ausente como uma queda na sua maldade
mais do que admirável num desejo único como conhecimento do corpo
ocultado numa noite apesar da nudez evolutiva que esconde a vergonha
de nada existir no longo corpo durante o tempo adaptado
no cheiro das mulheres reduzidas sem dúvida contra os lugares decotados
da respeitabilidade previsível como um enorme truque de intimidade
existente num certo prazer enfraquecido e falso diante dos teus seios
porque evidentemente sentia como estarias nessa vontade suprema
para contrariar o mais simples do amor é verdade
alguma coisa que o nosso longo destino tem o direito ao erro
e isso é desumanidade quando a sinceridade é um vocábulo dramático
e insignificante nos anos de conclusão pelas regras abandonadas
como se te atrevesses a abrir o sexo apaixonado pela transgressão censurável
e artificial porque não está muito longe tudo o que podemos perder
neste inferno louco de amar num prazer fechado
até ao momento miniatural de ninguém existir.

fernando esteves pinto

08/01/2007

escritores

Arquivado em: escrever é

Estes são os escritores.
Abusam do silêncio como cenário
E servem-se de truques que as palavras rejeitam.

fep

05/01/2007

máscara

Arquivado em: escrever é

Vem o tempo e desfaz todas as ideias possessivas de pertencermos a alguém. O tempo que combate as estátuas e derruba as máscaras que exibimos para nos sentirmos perfeitos. Mas a perfeição não é nenhuma arte que se exponha nos espaços privados do ser. Por entre o tempo, a tua vida é uma sensação interdita. Tudo é dominado pela linguagem quando a respiração está a ser escrita no interior da máscara .

Nenhum rosto compreende a sufocação das palavras.

Um dia o livro será a tua consciência num grito gráfico de poema único e denso. É dentro das palavras que és verdadeiro. Todo o silêncio da tua existência foi um teatro de loucura, e depois transformaste-te numa linguagem de escravidão que fere a tua própria ausência.

Que palavras são as tuas? Que escreves tu para além do que é urgente ler nos outros?

Estou a ouvir uma música que respira para sempre.

Como escrever nas veias da leitura que fazes da vertigem que sinto?

Não posso escrever sem destruição.

fernando esteves pinto

03/01/2007

Despir e vestir

Arquivado em: escrever é, ecos

Um texto é uma forma de se despir um assunto, diz o Miguel Godinho, e eu não podia estar mais de acordo. No entanto, estou convencido que para a grande maioria (escrever) um texto é (apenas) uma forma de se apresentar um assunto.

Luís Ene











































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