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03/04/2009

palavra Ibérica (4)

Apresentação de Crematório sentimental, por Uberto stabile. Filme de Adão Contreiras.

01/04/2009

Palavra Ibérica (2)

Apresentação do livro de Rui Costa: “O Pequeno Almoço de Carla Bruni”. Aqui

30/03/2009

palavra ibérica

o filme. 1ª parte.

29/03/2009

O pequeno almoço de Carla Bruni

O Rui Costa corre o risco de se tornar um caso estranho na poesia portuguesa. Quando apareceu em 2005 com um livro intitulado “ A Nuvem Prateada das Pessoas Graves”, prémio de poesia Daniel Faria, a pergunta que ficou no ar adivinhava-se entre os seus pares: quem é este Rui Costa? Perante tanta curiosidade, eu intuí que o Rui só podia responder-nos: não sabem de onde venho, mas hão-de saber para onde vou. E já agora: para onde vos levarei.
E assim chegamos ao segundo livro de poemas do Rui: “O Pequeno Almoço de Carla Bruni”. Carla Bruni que destronou a Shakira, muito por culpa dos media e da actualidade da informção. Isto só vem provar que o Rui é um cronista atento da sociedade poética em que nos envolvemos. É fácil verificar que a poesia do Rui é surreal e que trabalha a disformidade do ser e das coisas. Se eu designasse um sintoma que a sua poesia sugere, arriscaria informar que, após cada leitura dum poema, estamos perante uma situação “sintológica”. Bem, eu não tenho a certeza de que a palavra exista, mas quererá dizer isto: há na poesia do Rui uma outra forma de sentir para além da normalidade, isto é, o sujeito poético que o autor evoca parece-nos envolvido numa racionalidade absurda e constantemente submetido a um tipo de regras que ainda não foram experimentadas na realidade. Um exemplo:

“(…) Na verdade, as mãos deste homem não seriam
mãos como as de outros animais - dos corvos, por exemplo -
capazes de ouvir, do fundo intuído da sua genética
consciência, mesmo aqueles pequenos actos que ainda não
aconteceram.”

Depois descemos mais umas linhas na poética do autor, e noutro poema podemos ler:

“Na vida,
a caminho do futuro que ele nunca saberá onde fica,
o limão continuará a ser inteiro
e o seu sumo continuará a ser sumo,
pela mesma sábia razão por que a história dos homens
é sempre muito maior do que eles.”

Portanto, esta é uma poesia onde tudo acontece estranhamente pela primeira vez na história real dos homens em relação a tudo o que os rodeia. Outro aspecto interessante na escrita do Rui é que as coisas têm maior protagonismo que o próprio ser humano, levando-nos a crer que são essas mesmas coisas o agente provocador do pensamento e da consciência humanas. Quando lerem com atenção este livro hão-de reparar que a emoção não faz caminho nestes poemas, e nem precisa, uma vez que a emoção, ou, se quisermos, o sentimentalismo não é estrutura adequada ao tipo de mensagem/imagem que o autor pretende transmitir. Outro exemplo:

“Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.”

Chama-se a isto uma pedra de gelo a rodopiar no vaso da cabeça dos outros. Eu sei que o Rui a escrever é de uma frieza que inebria a compreensão do leitor. O que significa que cada frase é um trago de calor que nos fica na memória a arder durante muito tempo. E o poema acaba assim:

“Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.”

O romantismo é outro aspecto curioso na poesia do Rui. É um romantismo que não se assume como atitude romântica. Será pudor em revelar tão delicadas rendas que nos vestem o coração? Não creio. Em questões de amor metafórico e sentimentos similares, eis que o autor se transfigura num criativo afectuoso, e arregaça a sua camisinha de serviço enquanto escreve:

“amo-te
por não ser outro:
é, assim, uma impossibilidade
que nos aproxima.”

Como podem perceber, há nestes versos uma possibilidade de fuga que o autor transforma numa aproximação a outro ser na expectativa de ser desejado. Complicado? Ora, só quem nunca amou ou foi amado. E este:

“exagero o que
não sou para que
gostes mais de mim:
aumentar a probabilidade
de te receber.”

É a coberto destas máscaras que o Rui vai falando sobre o amor. É esta a relação mais honesta que existe entre duas pessoas: exagerar o que não somos para tornar mais credível aquele que realmente acreditamos ser, em toda a verdade, perante os outros. Como sabem, o amor também se alimenta destas diversões. E se a verdade por vezes condena, a mentira é capaz de ressuscitar uma relação.

“O Pequeno Almoço de Carla Bruni” é um livro provocador. Não por imaginarmos que o pequeno Sarkozy seja o aperitivo da Carla logo pela manhã. Este livro é provocador porque disforma toda uma série de imagens que conhecemos como realidade. O autor diz o contrário do que se espera. Promove o jogo entre a surpresa e a contrariedade, com base num conjunto de regras que o autor criou para despistar os nossos próprios actos quotidianos, e quem não perceber isto, ou não pertence a este mundo ou não entende nada de poesia. E para finalizar, o rui deixa-nos um aviso:

“digo o contrário
do que quero
para que no espelho
a imagem não surja
invertida.”

Mas se a imagem surgir invertida, continua ainda a ser poesia.

Texto de apresentação por Fernando Esteves Pinto

26/10/2008

abandono

estou fora. a partir de agora estou fora.
fora da burocracia dos apoios, dos processos dos projectos que nos fazem chegar às coisas que queremos fazer com vontade de lhes pegar fogo. fora da hipocrisia que é lutar pela independência de movimentos tornando-nos dependentes daquilo que nos prende.
estou fora. cada vez mais fora. só esse caminho se me aponta agora.
saí.

bom trabalho a quem fica.
Pedro Afonso

22/10/2008

filme na TRAMA

Apanhado na rede: uma noite TRAMADA. Aqui

18/10/2008

apresentação na Trama

O texto da Inês que apresentou em Lisboa, na Trama, o ainda aqui este lugar de Pedro Afonso, AQUI

O texto de apresentação da revista Sulscrito não se registou, foi improviso em êxtase de Fernado Esteves Pinto.

13/10/2008

Da Crise (que não é nova)

Como em Faro é necessário lutar para conseguir criar o que é necessário a todos: AQUI, AQUI e AQUI.

26/09/2008

da pulhice

A maior derrota, em tudo, é esquecer, sobretudo aquilo que nos trouxe a morte, e morrer depois sem nunca termos chegado a compreender até que ponto pode ir a pulhice humana. E quando estivermos de pés para a cova, de nada nos vale armar em espertos. Não devemos porém esquecer. Ao contrário, devemos contar tudo sem omitir palavra, a respeito do que de mais perverso encontrámos no homem, e só então pôr de lado o cigarro e descer. É coisa que vale pelos trabalhos de uma vida inteira.

Céline, viagem ao fim da noite, Editora Ulisseia, 2ª edição 1983 (tradução de Aníbal Fernandes).

A pulhice merece pouco de nós quando é cobarde e anónima, mas não que a esqueçamos, sr. josé anónimo dos comentários deste post.

Pedro Afonso

20/09/2008

Revistas a sul

Revistas a sul vistas pelo Henrique Fialho. AQUI.

15/09/2008

o novo e a emergência (II)

A discussão que começou com o tal artigo do Ipsilon, acerca da “nova poesia”, continua. O HMBF escreveu mais 2 posts acerca do assunto, AQUI e AQUI, e a coisa vai, parece-me, com a preciosa ajuda dos comentários, apurando-se.

Que haverá, mais tarde ou mais cedo, uma nova geração de poesia portuguesa, não parece haver dúvidas e acerca disso, dessa possibilidade, não creio que haja muito mais gente a querer discutir - para já; já todos perceberam que se trata apenas de ansiedade que convém controlar, chegará o tempo para isso.

A geração dos 80’s creio que está defendida (se é que necessitava de algo mais do que a sua auto-defesa), aqueles que a punham em causa, quero acreditar, foi por pura distracção.

Onde me parece que se está quase a chegar é a uma questão que será muito interessante, a qual o Luís Filipe Cristóvão aflora já num dos comentários no blog do Henrique: e que será a seguinte: “Como é (são) a(s) cena(s) literárias de agora?”. A crítica: qual é, onde está, como é; o “meio literário”; as possibilidades de convivência e contactos entre os poetas.

Há muito aonde ir. Ainda bem que se chegou aqui.

Pedro Afonso

o novo e a emergência

Outra visão acerca da questão da “nova geração de poetas”, AQUI.

13/09/2008

Há uma nova geração de poetas portugueses do século XXI?

O artigo de Luís Miguel Queirós que saíu no Ípsilon do Público da passada 6ª feira - ao qual se faz referência no post anterior e nos respectivos comentários - já vai criando reacções nalguns blogs que nos habituram a discutir a poesia:

AQUI, o Henrique Filaho (com comentários do autor do artigo do Ípsilon) e AQUI, o Luís Filipe Cristóvão, poeta e editor.

Vale a pena ler, assim como o artigo do jornal.

A minha opinião fica, de forma breve, no 2º comentário do post anterior, mas fico sempre com a impressão de que é algo dramático o apontar para “novas gerações” quando estas estão, ainda, em estados embrionários. Como diz o Luís F. Cristóvão: “o novo, para o ser realmente, precisa de tempo para envelhecer”.
Mas é interessante que se levante a questão.

Pedro

04/06/2008

os dois

GOSTARIA DE MORRER ENCOSTADO A UMA ÁRVORE.
OS DOIS ENCOSTADOS À MESMA ÁRVORE.
COM O SOL A CORRER À VOLTA.
ENTRE A SOMBRA E A LUZ.
ENTRE O DIA E A NOITE.
ENTRE A VIDA E A MORTE.

fep

29/05/2008

dias assim

Há dias em que a humanidade complica com o meu sistema existencial. Não há simpatia que reponha os meus níveis normais de tolerância. Nada parece funcionar de acordo com as leis da vida. Sinto as regras do comportamento humano adulteradas. Nem um dia de sol ilumina qualquer esperança de amar alguém. Sinto-me num excesso de não existir que me impossibilita de sentir que os outros também existem.

fep

25/05/2008

LIGHT

Quarto. Luz intensa. Duas mulheres. Os corpos cobertos. Tecido transparente. As formas. Máquina de filmar. Posições. Vozes. Acção. As línguas tocam-se. Os seios. Mordê-los. Uma mão no rosto. Os cabelos. Os olhos ardem na imagem do outro rosto. Indicações. Deitar na cama. Descer a boca pelo corpo. Olhar e reter nesse olhar o prazer do outro. As mãos.
- Corta!
A voz do realizador. Fios a arrastarem no chão. Mudança de posições. Luzes.
Beijar o sexo. A língua no vermelho. Contracções. Gemidos.
História simples. Duas mulheres numa estação de autocarros. O mesmo destino.
- Saí de casa. Procuro um quarto. Uma vida.
Duas histórias simples no mesmo acto de leitura. A mesma casa. Café. O lume. Amar-te contra as palavras. Escrevo. Foder nas palavras que escrevo. Foder na tua boca as minhas palavras. Vir-me nas tuas palavras.
- Quero realidade. - A voz do realizador. O olhar dentro da tua vagina. A luz a magoar o prazer que não sentes. Mexer a língua. As mãos nas nádegas. O teu corpo numa nuvem.
- Hoje estou vazia. Não sinto nada.
Sentadas no mesmo banco no autocarro. As tuas mãos. Antes das palavras o teu corpo. Masturbo-te. Não quero que olhes. Olha através da janela o andamento da tua vida.
A voz do realizador. Olha-te no espelho. Tu vens por trás. sentir a ausência desse amor que não sentes. Deito-me no chão e tu escreves.
Sou sempre assim, vazia. Rasgar o corpo nas folhas escritas abandonadas neste desejo. Faz-me confusão o tempo deste desejo. As pessoas amadas no tempo. Não tenho tempo.
O teu sexo e eu nesta morte de escrever o tempo inexistente como se nenhum desejo te recordasse na vida.
- Que o teu prazer seja a minha morte.
Autocarro. Bairro. Prédios de apartamentos. Rua. A tua mão. Subir as escadas. O teu corpo. Movimento. Quadros nas paredes. Destruir as imagens. Escrever-te nua contra as pinturas. Não posso entrar em ti. Não tenho palavras. Recuperar o teu amor. A luz pela janela.
- Ama-te em mim.
Não sinto nada. Nem a tua escrita quando o teu corpo no meu. As paredes apertam-me contra o vazio. Se amo tudo acaba.
- Corta!

fep

16/05/2008

FMI - José Mário Branco (em 1979)

parte 1

parte 2

“…mãe eu quero ficar sozinho
mãe não quero pensar mais
mãe eu quero morrer
eu quero desnascer, ir-me embora
sem sequer ter que me ir embora…”

joão bentes

13/05/2008

imagens e reflexos

O senhor Gato parece preocupado com o verso “Ele deixou a sua alma a marcar uma página”
do poema editado neste blogue. Diz o Gato que reconheceu na imagem da frase reflexos de outro poema do livro “Fragmentos” da autora Ana de Sousa. A rematar os seus comentários, sugere o Gato que o verso em questão está longe da originalidade. Pergunto: qual dos versos carece de originalidade? O que integra o meu poema escrito em 2000 e editado no meu blogue em 2003, ou o verso do poema de Ana de Sousa, cujo livro onde ele está inserido foi publicado em 2006? Será que estamos perante um comentário de alguém com o rabo a marcar a angústia e a solidão?

fep

07/05/2008

micro relato edita08

A máquina devorou o cartão e por pouco não devorava o Fernando. Consegui agarrá-lo por uma perna e afugentar a máquina com um crucifixo.

Masquei umas folhas que se encontravam sobre a revista colombiana, que partilhava o mesmo posto de venda com o Sulscrito. Não deu para perceber muito bem.

Acho que a Jose Cuervo (oro) é a que melhora de forma significativa a minha pronúncia, especialmente a partir do terceiro copo. Mas a Cruzcampo também funciona.

Isto está bom é para eles, segundo dizem. E se está bom não leva sal.

joão bentes

26/04/2008

uma fonte de vida no cérebro

Cede-se espaço físico-social por motivos de obsolescência existencial.
Não inclui carácter nem honestidade adquiridos durante a vida.
A identidade é oferta por saturação viciosa da parte do sistema.
Homem de meia idade recusa-se a permanecer num espaço
de existência constantemente posto em causa, como se o tempo
fosse uma viagem que ele tivesse de pagar.
Em troca do seu doméstico destino,
dêem-lhe um deserto com uma fonte de vida no cérebro.

fep

23/04/2008

uma consciência do tempo

Tenho uma relação com o tempo que não desejo a ninguém. Lembro-me de ser criança e estar sentado ao sol a ver as sombras deslocarem-se no chão. Pensei nesse instante que, mesmo que eu não fizesse nada e me mantivesse imóvel, o tempo haveria de fazer alguma coisa por mim. Em vez de ser eu a exercer qualquer tipo de actividade sobre o tempo, seria o tempo a abrir-me o espaço para a contemplação vazia do ser. Sempre esperei toda a minha vida. Se houve coisa que o tempo me deu, foi a paciência de esperar que algo me acontecesse. Como eu tinha a convicção de que o tempo estava sempre a mudar de disposição, acreditava cientificamente que também eu mudaria e passaria a ser instrumentalizado pela sua passagem. Mas o tempo é um processo variável e a sua velocidade e lentidão são accionadas pela necessidade humana. Conclui então que eu era uma consciência do tempo. Quando me encontrava sozinho, o tempo tinha um comportamento lento e caprichoso como uma solidão; mas quando estava com alguém, o tempo era a soma de duas consciências temporais a consumir um espaço abstracto. Nunca gostei de pensar que o tempo não perdoa. Se o tempo fosse emocional e me condenasse sentimentalmente, eu sentir-me-ia uma sombra que ele deslocasse com uma exactidão humana. Mas tenho o meu pensamento para contrariar o poder que o tempo exerce sobre mim. O facto de o tempo me observar não lhe dá o direito de alienar a minha presença. Eu sou uma sombra que desobedece às regras meticulosas do tempo. E essa será, fatalmente, a minha transgressão existencial.

fep

22/04/2008

coitado, dêem-lhe um blogue

O amor não é para todos, logo, o sexo é só para alguns. Dito assim poderá parecer frio e pessimista da minha parte, mas a frase lamentosa nem sequer é minha. E faz todo o sentido, pois o autor sentimental deste desabafo enlouqueceu por sentir isso mesmo numa determinada fase da sua vida. Tinha dezasseis anos quando se apaixonou pela madrinha de baptizo, uma mulher cinquentona, solteira na maternidade e no prazer. O meu amigo louco cresceu no colo da senhora, e transportou até à idade quase adulta o conforto e o carinho que recebia sem maldade nem proibições afectivas. Depois veio a adolescência e desalojou-o das características infantis como a inocência e dotou-o de um desejo carnal por aquela que fora mais que sua mãe. O reconhecimento que o louco apaixonado fazia do amor recebido em criança por aquela mulher, desejava ele agora reabilitá-lo numa relação adulta com base no sexo. É verdade. Se antes fora a criança pura, embalada entre os seios opulentos da senhora ( ou talvez até servisse de brinquedo sexual e alimentasse nela algumas perversões cautelosamente disfarçadas pelos cuidados intensivos do amor de madrinha ), agora o meu amigo louco reclamava com todo o seu delírio e paixão o prazer do corpo proibido, como se fosse esse o momento em que ele teria de pagar a sua dívida emocional por ter sido tão amado em criança. Mas a madrinha expulsou-o do seu coração, sacudiu-o do regaço perigosamente ameaçado pela ambição sexual do afilhado, como se ele representasse para ela apenas uma migalha sentimental. E de nada lhe serviu as cartas que escrevera à madrinha, revelando-se na dor do abandono e sob o efeito de uma tempestade de lágrimas, em que evocava pôr fim à vida. No entanto, nenhum contacto físico com a madrinha fora suficiente para o encorajar a envolver-se sexualmente com outra mulher, e assim virgem se conservara até ser internado num hospício, a declarar o amor infantil e complexo que sentia pela madrinha, ao colo duma mulher apática como ele, a acariciar-lhe os cabelos lisos e a oferecer-lhe os seios caídos, para que o louco como ela alimentasse as suas perversões. Se houvesse uma moral da história, penso que seria esta: nunca leves o amor da infância para a idade adulta. Podes enlouquecer.

Aceitam-se sugestões para outras moralidades.

fep

21/04/2008

maldito blogue

Poeta das mulheres improváveis e do amor à distância, o jovem advogado revelou-me a sua nova paixão por uma leitora desconhecida. A ciência amorosa que o incomodava assentava na seguinte questão: pode alguém amar uma pessoa só pela ideia que se constrói sobre ela. E foi adiantando que já havia fabricado um sentimento que consistia numa emoção abstracta com base na ideia da leitora em causa. Simplificando: será possível amar a consciência de uma mulher, ignorando se ela é gorda ou magra; alta ou baixa; ou se é feia ou bonita? O conhecimento do rótulo físico da mulher não será um pormenor condicionante, uma senha visual que nos impossibilita o acesso ao seu interior? Exactamente, disse o jovem advogado, como eu gostaria de amar essa leitora desprovida do seu próprio corpo. Interessa-me possui-la para além da aparência que ela apresenta perante os outros. A minha ideia do amor baniu para sempre a imagem física, corpórea. Não é o belo o que mais me interessa para me sentir feliz; não é a foto-carnal que a mulher exibe no seu dia-a-dia em relação com os outros. Não estranhes, mas o que me fascina numa mulher é precisamente o que ela pensa e sente sobre ela própria, e fascina-me a capacidade brutal de ela exteriorizar esse saber, como se eu fosse o seu universo. Da mesma forma que eu amo a ideia de um amor incorpóreo, também sou capaz de amar no mistério do amor dessa mulher. E ela ama-te?, perguntei ao jovem advogado. Penso que ela tem medo da ideia desse amor. Ela tem uma consciência muito activa para poder aceitar o amor de alguém. Vive dentro de si mesma. Vive o seu próprio amor, a sua ideia amorosa da vida. Vive em dupla personalidade com alguém, talvez com ela própria. Até já lhe ofereci um blogue.

fep

19/04/2008

a importância de ter um blogue

” Tenho uma amiga que é tonta ou não gosta de homens “.
Foi com esta frase que o jovem advogado começou a contar-me a sua história sobre uma balzaquiana solteira que conheceu num desses encontros literários de fins-de-semana.
” Pode um homem roubar o amor a uma mulher?”

A história é simples.
O envolvimento entre os dois assentava quase exclusivamente nos comentários que ela lhe deixava no blogue de um amigo servil, talvez um lambe conas tipo lencinho renova sempre pronto a retocar-lhe a maquilhagem do coração, ou então um escravo da frustração feminina a servir de carroça aos desejos maníaco-depressivos da rapariga, sem qualquer compensação carnal. O jovem advogado lá ia lendo a literatura daquela alma esponjosa:

- frases ornamentadas por uma afectividade antológica.
- palavras de bijuteria novelesca a fazer um efeito de grande paixão.
- revelações de sexualidade tipo filme amador para casalinhos inexperientes.

Provocações pouco entesadas, pois a rapariga nem sequer usava cuecas fio dental.

É claro que o jovem advogado, nas respostas a tão cândida desenvoltura feminina, só podia ser um ordinário apaixonado. Ou um poeta reles. E na volta do seu coração atormentado, ele compensava-a com a seguinte ordem de desejos:

- quero pôr o meu sexo a segredar-te ao ouvido.
- marcamos um encontro com os teus seios no recanto mais florido do meu corpo.
- queres criar um blogue comigo?

Depois combinaram um encontro para a consumição das promessas, mas a decoração afectiva que existia entre os dois não resistiu, desfigurando o encanto cúmplice e amoroso da relação.

” A tonta da minha amiga só tinha histerismo dentro do coração”, lamentou-se o jovem advogado. E poeta do mais reles.
” Histerismo e medo de ser amada por um poeta como eu”, continuou ele.
“É uma mulher que ama pelos livros. Pelos posts que lhe escrevo. E masturba-se com os poemas que lhe dedico”.

Com as palavras dos bilhetinhos do jovem advogado, ou com as palavras do autor dos livros que lê? Pergunto.

Nada estava definido na cabeça do jovem advogado, mas ainda o ouvi dizer:

” A diferença fode tudo “.

E criou um blogue sozinho. O maior blogue do mundo.

Caixa de Comentários:

1.
constatei depois que a tontinha era conservadora no uso da lingerie, mas uma irreverente fodilhona. portanto, cueca aconchegante = mulher interiormente perversa. e tem dois sentidos, assim: cueca aconchegante = homem loucamente perdido no oculto interior feminino. espero que o sistema sexual esteja matematicamente correcto. caso contrário o jovem advogado será um péssimo amante. o fio-dental pertence a outras variações sobre o mesmo assunto. Talvez seja o título dum poema do jovem advogado.

amigo da tontinha

2.
se queres saber, não sou adepto da linha erótica interior feminina. e quando vou para a cama é sempre despido de qualquer roupagem ambiental que me leva a apreciar mais a natureza sexual da mulher em detrimento da moda-em traje-menor que ela adoptou para enriquecer as formas das suas capacidades amantes. o fio-dental é a mascarilha vaginal que só funciona no imaginário daqueles que quase nunca têm mulheres. os solitários do amor e do sexo cada vez mais longe.

jovem advogado

3.
as coisas que este homem sabe acerca das mulheres sem roupa interior.

anónimo

fep

18/04/2008

blogues e funcionalidades

Uma das coisas que mais me impressiona na cena dos blogues é a relação entre texto e leitores (comentários). Se é verdade que existem blogues que levam a escrita a sério, outros há que são pura distracção, charadas, manias. Se os primeiros (os sérios) carecem de comentários com fundamento; os outros assentam no disparate de opinião que os leitores sentem como uma necessidade para dar continuidade, por via da diversão, a uma função ridícula de se escrever e editar sem qualidades. Querem exemplos? Se alguém deixa registado num post que lhe dói a cabeça e não lhe apetece escrever, o sistema de comentários inunda-se doentiamente com dezenas de mensagens. E se alguém transcrever um texto de Nietzsche ou Sartre, o que acontece? Conheço um blogue onde os comentadores ( leitores dados aos costumes dos piqueniques ideológicos ) costumam estender uma toalha de disparates sobre as ideias contidas nesses trechos como se conspurcassem os lugares da mente. Vou ser mais directo: sobre uma ideologia de camus combina-se em que tasca se vai beber um copo de vinho ou comer um prato de caracóis.

E depois também existem aqueles blogues beijoqueiros. Escreve-se um poema florido e os comentários fazem bicha para agradecer de beiço fogoso tão profundas imagens e emoções. São poetas catequistas que usam a vida e o sol para camuflarem as suas próprias frustrações. Os versos que escrevem, se eu os representasse por desenho, tinham a imagem de caminhos eternamente perfumados por uma dor coberta de flores. Nesses posts ajardinados de tão doces palavras, os comentários chovem como pétalas de lágrimas, porque neste mundo da poesia que nasce da carência afectiva, autor e leitor agonizam no mesmo canteiro.

Quem nunca visitou um blogue onde se cultiva a futilidade verbal? Será que se escreve porque não se tem mais nada para dizer? Conheço vários blogues com pretensões humorísticas, mas a ideia que permanece depois de ler alguns posts é que o autor aprendeu a rir com o lado paralisado da sua própria vida. O interessante neste caso, e isso deve-se ao leitor que comenta ( provavelmente também ele a estudar para engraçado ) , é constatar que as mensagens têm uma qualidade irónica superior ao texto editado. Faz-me pensar que a brincadeira é uma função prática da própria vida, enquanto os assuntos sérios requerem outras distracções mais concentradas na existência.

Blogues onde os autores estão há beira do suicídio: atenção, psiquiatras. Os seus autores são maioritariamente meninas adolescentes que meditam e escrevem sobre a existência como um castigo que impõe a si próprias. Estar diante dum texto escrito por uma alma assim é como engolir um peixe com espinhas. Os temas andam muito por aqui: acham que os progenitores são o pior inimigo; sentem-se perseguidos e reservam uma indiferença de morte àqueles que os comentam, e para além desse nocturno de vida ainda se convencem que o amor é o último medicamento que desejam tomar. Não escrevem mal, mas a doença de pensar que ninguém os compreende leva-os a uma loucura risível de que a literatura faz gozo.

Que sentido faz um blogue sobre política num país de maus políticos? A censura e o comentário terão alguma propriedade sobre a disfunção de algumas ideias políticas? Eu percebo: esses blogues existem com a ilusão de ensinar como se governa uma sociedade. Abre-se o sistema de comentários ( como se o gesto fosse o mesmo que puxar um autoclismo ) e o debate está instalado: tudo o que se escreve sobre a governação dum país soa a inscrição de parede de casa de banho numa estação pública. E pelos vistos todos querem deixar uma impressão de merda sobre o que pensam dos vários assuntos retratados nesses blogues ( ou partidos virtuais? ).

fep

07/04/2008

Da Micro-Ficção

Li hoje o prefácio do Henrique Fialho à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa. É um texto interessante que, para quem - como eu - tem pouca informação acerca da Micro-Ficção, oferece uma panorâmica introdutória que pode servir a outras leituras e que levanta questões importantes a considerar. O que mais me interessou foram as questões acerca do género e da relação deste com os outros que lhe fazem fronteira e a problemática relacionada com a sua dimensão reduzida e os tempos actuais.

O tempo sempre fugiu e o homem sempre correu atrás dele na tentativa desesperada de o ultrapassar, de lhe estar à frente ou de não ser por ele subjugado ou, pelo menos, de nele se sentir.
Diz-se que hoje o tempo foge mais rápido, que o nosso modo de vida lhe corresponde aumentando a velocidade da vivência, imediatizando os consumos, os produtos, as experiências.
Sempre fugiu, o tempo, hoje foge à nossa maneira.

Creio, concordando com o Henrique, que a génese da Micro-Ficção não se pode prender com os tempos actuais, com “as novas cronometragens da vida quotidiana”, com este “tempo sem tempo”. Estará, essa génese, mais relacionada com um outro imediatismo, com um imediatismo de longo efeito. Um imediatismo que aponta para o funcionamento da anedota, do aforismo, do ensinamento budista, como é referido no referido prefácio. O que passa por imediatismo é o acesso ao total do texto devido às suas dimensões.

Quanto à Micro-Ficção que hoje se escreve creio que o mais interessante é aquilo ao que o Henrique se refere como “a anulação das fronteiras dos géneros”, essa forma de experimentação que é sempre meta-literária, que passa por uma procura de originalidade e acende a sempre produtiva ambiguidade de classificação. Esta característica é sem dúvida uma riqueza, é sem dúvida uma fonte de questões.

E há a questão - que, como já disse, não passa pela génese - do “tempo sem tempo” e da dimensão deste género. De, hoje em dia, por exemplo nos blogs, ser um género literário em crescimento. Adapta-se a isso? É adoptado por isso? Serve mais a um tipo de leitura para o qual a maioria das pessoas está hoje disponível? Para o qual alguns escritores estão mais disponíveis e a partir do qual sentem comunicar melhor?

Quanto a mim, que tenho ensaiado algumas incursões na micro-ficção, o que me interessa é, sendo a poesia aquilo que escrevo, essa busca desse limite-fronteira, esse texto híbrido fora do espaço circunscrito a uma designação. É, para mim enquanto pessoa que escreve, um espaço de experimentação e, por vezes, de resvalo, para onde os textos vão fugindo.

O homem na esplanada atransparentava-se ao escrever. Era um poeta, conhecia-o, era meu vizinho. Sei que para voltar da sua invisibilidade escrevia pequenas histórias, dúbias, que lhe restituiam a cor a da certeza.

Pedro Afonso

02/04/2008

Talvez seja isto

Dois seres humanos em confronto físico directo por um telemóvel. No épico de Kubrick, as tribos disputavam a posse de uma pequena poça de Água. Houve então um desses infelizes que descobriu que um osso pode partir outros ossos. Como se não chegasse, ainda veio o maldito paralelepípedo e os sons tenebrosos de Ligeti. A sorte foi que pelo menos um chegou até Júpiter. Será também interessante pensar no HAL 9000 que aniquilou os outros tripulantes da grande nave-mãe. Talvez seja isto e/ou/a Selecção Natural.

joão bentes

01/04/2008

Ma(i)s notícias culturais do Algarve

“Contos de Liberdade” cancelados este ano. Mais informações aqui.

31/03/2008

então mudem a marca

O surgimento de um movimento literário tem o seu interesse e cria expectativas. Um projecto – Texto-al –, que se designa por “novo círculo literário do Algarve” tem as suas implicações e aumenta a confusão rotativa no que se deseja Círculo estável onde todos possam embarcar sem serem cuspidos por força do andamento e da velocidade (cópia desenfreada, neste caso). Porque se já existe um círculo (Sulscrito) por que não criarem um eixo? Ou um grupo? Ou uma seita? Se a imaginação foi corrida do texto – al, proponho para o novo projecto a indicação de “Peregrinos Literários do Algarve”. Com alguma fé e boa vontade não se repetem designações e não se copiam fórmulas. Mas o catálogo é longo e eu até ponho à vossa disposição uma série de opções e slogans que costumamos encontrar em dias de suspeita inspiração. Por que não experimentar “meia-lua da literatura algarvia”, ou “pôr-do-sol literário do Algarve”? E que tal “Vai de roda a cultura no Algarve”? É mais fácil e cómodo reciclar ideias que já existam, não é? Também acho, no vosso caso. Mas eu ajudo-vos: se espreitarem a vasta (como quem diz) galeria de figuras geométricas, são capazes de encontrar alguns tipos de triângulos, e rectângulos, ovais e quadrados. Vamos experimentar? “Triangulo obtuso-literário do Algarve” (rico na sua imagem, sugestivo sem escandalizar, e se não o querem em figura permanente, sempre podem utilizá-lo em sentido figurado). “Quadrado literário do Algarve”, tem os lados todos iguais e a sua expressão representa o mais democrático sistema das ideias, como por exemplo: entre quatro cabeças a originalidade está salvaguardada; é uma figura que confere resistência às ideias conservadoras, serve de sala de recobro para mentalidades com alto nível de imaginação, e oferece ambiente tranquilo para oportunismos floreados e conversas de lapela. Meus amigos, sejam bem-vindos ao carrossel da literatura do Algarve, pois só com um círculo não vislumbrávamos nenhuma pista que nos colocasse na recta literária da vanguarda, não havia termo de comparação, e eis que o figurino mudou, graças ao aparecimento de outro círculo a rodar nos calcanhares como uma roda cujo destino é andar sempre uns palmos atrás a aguardar uma utópica oportunidade de recuperar a distância. Já ouviram falar em identidade? Então mudem a marca.

fep

19/03/2008

Destruição da Natureza, Parque da Ria Formosa, Ludo, Faro

Mais acerca do desbaste de de árvores no Parque Natural da Ria Formosa, no Pontal, zona do Ludo junto à estrada para a Praia de Faro.

Aqui no Jornal “Região Sul”.

Quem conhece o Ludo junto à estrada para a praia, antes da última curva, reconhece a àrea deste cenário?

ludo_1

(foto “Região Sul”).

17/03/2008

Destruição da Natureza, no Ludo, em Faro


No Ludo, em Faro, 5ª feira passada.
Destruição não sinalizada, sem identificação de responsável.
Alguém sabe do que se trata?











































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