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04/06/2008

os dois

GOSTARIA DE MORRER ENCOSTADO A UMA ÁRVORE.
OS DOIS ENCOSTADOS À MESMA ÁRVORE.
COM O SOL A CORRER À VOLTA.
ENTRE A SOMBRA E A LUZ.
ENTRE O DIA E A NOITE.
ENTRE A VIDA E A MORTE.

fep

29/05/2008

dias assim

Há dias em que a humanidade complica com o meu sistema existencial. Não há simpatia que reponha os meus níveis normais de tolerância. Nada parece funcionar de acordo com as leis da vida. Sinto as regras do comportamento humano adulteradas. Nem um dia de sol ilumina qualquer esperança de amar alguém. Sinto-me num excesso de não existir que me impossibilita de sentir que os outros também existem.

fep

25/05/2008

LIGHT

Quarto. Luz intensa. Duas mulheres. Os corpos cobertos. Tecido transparente. As formas. Máquina de filmar. Posições. Vozes. Acção. As línguas tocam-se. Os seios. Mordê-los. Uma mão no rosto. Os cabelos. Os olhos ardem na imagem do outro rosto. Indicações. Deitar na cama. Descer a boca pelo corpo. Olhar e reter nesse olhar o prazer do outro. As mãos.
- Corta!
A voz do realizador. Fios a arrastarem no chão. Mudança de posições. Luzes.
Beijar o sexo. A língua no vermelho. Contracções. Gemidos.
História simples. Duas mulheres numa estação de autocarros. O mesmo destino.
- Saí de casa. Procuro um quarto. Uma vida.
Duas histórias simples no mesmo acto de leitura. A mesma casa. Café. O lume. Amar-te contra as palavras. Escrevo. Foder nas palavras que escrevo. Foder na tua boca as minhas palavras. Vir-me nas tuas palavras.
- Quero realidade. - A voz do realizador. O olhar dentro da tua vagina. A luz a magoar o prazer que não sentes. Mexer a língua. As mãos nas nádegas. O teu corpo numa nuvem.
- Hoje estou vazia. Não sinto nada.
Sentadas no mesmo banco no autocarro. As tuas mãos. Antes das palavras o teu corpo. Masturbo-te. Não quero que olhes. Olha através da janela o andamento da tua vida.
A voz do realizador. Olha-te no espelho. Tu vens por trás. sentir a ausência desse amor que não sentes. Deito-me no chão e tu escreves.
Sou sempre assim, vazia. Rasgar o corpo nas folhas escritas abandonadas neste desejo. Faz-me confusão o tempo deste desejo. As pessoas amadas no tempo. Não tenho tempo.
O teu sexo e eu nesta morte de escrever o tempo inexistente como se nenhum desejo te recordasse na vida.
- Que o teu prazer seja a minha morte.
Autocarro. Bairro. Prédios de apartamentos. Rua. A tua mão. Subir as escadas. O teu corpo. Movimento. Quadros nas paredes. Destruir as imagens. Escrever-te nua contra as pinturas. Não posso entrar em ti. Não tenho palavras. Recuperar o teu amor. A luz pela janela.
- Ama-te em mim.
Não sinto nada. Nem a tua escrita quando o teu corpo no meu. As paredes apertam-me contra o vazio. Se amo tudo acaba.
- Corta!

fep

16/05/2008

FMI - José Mário Branco (em 1979)

parte 1

parte 2

“…mãe eu quero ficar sozinho
mãe não quero pensar mais
mãe eu quero morrer
eu quero desnascer, ir-me embora
sem sequer ter que me ir embora…”

joão bentes

13/05/2008

imagens e reflexos

O senhor Gato parece preocupado com o verso “Ele deixou a sua alma a marcar uma página”
do poema editado neste blogue. Diz o Gato que reconheceu na imagem da frase reflexos de outro poema do livro “Fragmentos” da autora Ana de Sousa. A rematar os seus comentários, sugere o Gato que o verso em questão está longe da originalidade. Pergunto: qual dos versos carece de originalidade? O que integra o meu poema escrito em 2000 e editado no meu blogue em 2003, ou o verso do poema de Ana de Sousa, cujo livro onde ele está inserido foi publicado em 2006? Será que estamos perante um comentário de alguém com o rabo a marcar a angústia e a solidão?

fep

07/05/2008

micro relato edita08

A máquina devorou o cartão e por pouco não devorava o Fernando. Consegui agarrá-lo por uma perna e afugentar a máquina com um crucifixo.

Masquei umas folhas que se encontravam sobre a revista colombiana, que partilhava o mesmo posto de venda com o Sulscrito. Não deu para perceber muito bem.

Acho que a Jose Cuervo (oro) é a que melhora de forma significativa a minha pronúncia, especialmente a partir do terceiro copo. Mas a Cruzcampo também funciona.

Isto está bom é para eles, segundo dizem. E se está bom não leva sal.

joão bentes

26/04/2008

uma fonte de vida no cérebro

Cede-se espaço físico-social por motivos de obsolescência existencial.
Não inclui carácter nem honestidade adquiridos durante a vida.
A identidade é oferta por saturação viciosa da parte do sistema.
Homem de meia idade recusa-se a permanecer num espaço
de existência constantemente posto em causa, como se o tempo
fosse uma viagem que ele tivesse de pagar.
Em troca do seu doméstico destino,
dêem-lhe um deserto com uma fonte de vida no cérebro.

fep

23/04/2008

uma consciência do tempo

Tenho uma relação com o tempo que não desejo a ninguém. Lembro-me de ser criança e estar sentado ao sol a ver as sombras deslocarem-se no chão. Pensei nesse instante que, mesmo que eu não fizesse nada e me mantivesse imóvel, o tempo haveria de fazer alguma coisa por mim. Em vez de ser eu a exercer qualquer tipo de actividade sobre o tempo, seria o tempo a abrir-me o espaço para a contemplação vazia do ser. Sempre esperei toda a minha vida. Se houve coisa que o tempo me deu, foi a paciência de esperar que algo me acontecesse. Como eu tinha a convicção de que o tempo estava sempre a mudar de disposição, acreditava cientificamente que também eu mudaria e passaria a ser instrumentalizado pela sua passagem. Mas o tempo é um processo variável e a sua velocidade e lentidão são accionadas pela necessidade humana. Conclui então que eu era uma consciência do tempo. Quando me encontrava sozinho, o tempo tinha um comportamento lento e caprichoso como uma solidão; mas quando estava com alguém, o tempo era a soma de duas consciências temporais a consumir um espaço abstracto. Nunca gostei de pensar que o tempo não perdoa. Se o tempo fosse emocional e me condenasse sentimentalmente, eu sentir-me-ia uma sombra que ele deslocasse com uma exactidão humana. Mas tenho o meu pensamento para contrariar o poder que o tempo exerce sobre mim. O facto de o tempo me observar não lhe dá o direito de alienar a minha presença. Eu sou uma sombra que desobedece às regras meticulosas do tempo. E essa será, fatalmente, a minha transgressão existencial.

fep

22/04/2008

coitado, dêem-lhe um blogue

O amor não é para todos, logo, o sexo é só para alguns. Dito assim poderá parecer frio e pessimista da minha parte, mas a frase lamentosa nem sequer é minha. E faz todo o sentido, pois o autor sentimental deste desabafo enlouqueceu por sentir isso mesmo numa determinada fase da sua vida. Tinha dezasseis anos quando se apaixonou pela madrinha de baptizo, uma mulher cinquentona, solteira na maternidade e no prazer. O meu amigo louco cresceu no colo da senhora, e transportou até à idade quase adulta o conforto e o carinho que recebia sem maldade nem proibições afectivas. Depois veio a adolescência e desalojou-o das características infantis como a inocência e dotou-o de um desejo carnal por aquela que fora mais que sua mãe. O reconhecimento que o louco apaixonado fazia do amor recebido em criança por aquela mulher, desejava ele agora reabilitá-lo numa relação adulta com base no sexo. É verdade. Se antes fora a criança pura, embalada entre os seios opulentos da senhora ( ou talvez até servisse de brinquedo sexual e alimentasse nela algumas perversões cautelosamente disfarçadas pelos cuidados intensivos do amor de madrinha ), agora o meu amigo louco reclamava com todo o seu delírio e paixão o prazer do corpo proibido, como se fosse esse o momento em que ele teria de pagar a sua dívida emocional por ter sido tão amado em criança. Mas a madrinha expulsou-o do seu coração, sacudiu-o do regaço perigosamente ameaçado pela ambição sexual do afilhado, como se ele representasse para ela apenas uma migalha sentimental. E de nada lhe serviu as cartas que escrevera à madrinha, revelando-se na dor do abandono e sob o efeito de uma tempestade de lágrimas, em que evocava pôr fim à vida. No entanto, nenhum contacto físico com a madrinha fora suficiente para o encorajar a envolver-se sexualmente com outra mulher, e assim virgem se conservara até ser internado num hospício, a declarar o amor infantil e complexo que sentia pela madrinha, ao colo duma mulher apática como ele, a acariciar-lhe os cabelos lisos e a oferecer-lhe os seios caídos, para que o louco como ela alimentasse as suas perversões. Se houvesse uma moral da história, penso que seria esta: nunca leves o amor da infância para a idade adulta. Podes enlouquecer.

Aceitam-se sugestões para outras moralidades.

fep

21/04/2008

maldito blogue

Poeta das mulheres improváveis e do amor à distância, o jovem advogado revelou-me a sua nova paixão por uma leitora desconhecida. A ciência amorosa que o incomodava assentava na seguinte questão: pode alguém amar uma pessoa só pela ideia que se constrói sobre ela. E foi adiantando que já havia fabricado um sentimento que consistia numa emoção abstracta com base na ideia da leitora em causa. Simplificando: será possível amar a consciência de uma mulher, ignorando se ela é gorda ou magra; alta ou baixa; ou se é feia ou bonita? O conhecimento do rótulo físico da mulher não será um pormenor condicionante, uma senha visual que nos impossibilita o acesso ao seu interior? Exactamente, disse o jovem advogado, como eu gostaria de amar essa leitora desprovida do seu próprio corpo. Interessa-me possui-la para além da aparência que ela apresenta perante os outros. A minha ideia do amor baniu para sempre a imagem física, corpórea. Não é o belo o que mais me interessa para me sentir feliz; não é a foto-carnal que a mulher exibe no seu dia-a-dia em relação com os outros. Não estranhes, mas o que me fascina numa mulher é precisamente o que ela pensa e sente sobre ela própria, e fascina-me a capacidade brutal de ela exteriorizar esse saber, como se eu fosse o seu universo. Da mesma forma que eu amo a ideia de um amor incorpóreo, também sou capaz de amar no mistério do amor dessa mulher. E ela ama-te?, perguntei ao jovem advogado. Penso que ela tem medo da ideia desse amor. Ela tem uma consciência muito activa para poder aceitar o amor de alguém. Vive dentro de si mesma. Vive o seu próprio amor, a sua ideia amorosa da vida. Vive em dupla personalidade com alguém, talvez com ela própria. Até já lhe ofereci um blogue.

fep

19/04/2008

a importância de ter um blogue

” Tenho uma amiga que é tonta ou não gosta de homens “.
Foi com esta frase que o jovem advogado começou a contar-me a sua história sobre uma balzaquiana solteira que conheceu num desses encontros literários de fins-de-semana.
” Pode um homem roubar o amor a uma mulher?”

A história é simples.
O envolvimento entre os dois assentava quase exclusivamente nos comentários que ela lhe deixava no blogue de um amigo servil, talvez um lambe conas tipo lencinho renova sempre pronto a retocar-lhe a maquilhagem do coração, ou então um escravo da frustração feminina a servir de carroça aos desejos maníaco-depressivos da rapariga, sem qualquer compensação carnal. O jovem advogado lá ia lendo a literatura daquela alma esponjosa:

- frases ornamentadas por uma afectividade antológica.
- palavras de bijuteria novelesca a fazer um efeito de grande paixão.
- revelações de sexualidade tipo filme amador para casalinhos inexperientes.

Provocações pouco entesadas, pois a rapariga nem sequer usava cuecas fio dental.

É claro que o jovem advogado, nas respostas a tão cândida desenvoltura feminina, só podia ser um ordinário apaixonado. Ou um poeta reles. E na volta do seu coração atormentado, ele compensava-a com a seguinte ordem de desejos:

- quero pôr o meu sexo a segredar-te ao ouvido.
- marcamos um encontro com os teus seios no recanto mais florido do meu corpo.
- queres criar um blogue comigo?

Depois combinaram um encontro para a consumição das promessas, mas a decoração afectiva que existia entre os dois não resistiu, desfigurando o encanto cúmplice e amoroso da relação.

” A tonta da minha amiga só tinha histerismo dentro do coração”, lamentou-se o jovem advogado. E poeta do mais reles.
” Histerismo e medo de ser amada por um poeta como eu”, continuou ele.
“É uma mulher que ama pelos livros. Pelos posts que lhe escrevo. E masturba-se com os poemas que lhe dedico”.

Com as palavras dos bilhetinhos do jovem advogado, ou com as palavras do autor dos livros que lê? Pergunto.

Nada estava definido na cabeça do jovem advogado, mas ainda o ouvi dizer:

” A diferença fode tudo “.

E criou um blogue sozinho. O maior blogue do mundo.

Caixa de Comentários:

1.
constatei depois que a tontinha era conservadora no uso da lingerie, mas uma irreverente fodilhona. portanto, cueca aconchegante = mulher interiormente perversa. e tem dois sentidos, assim: cueca aconchegante = homem loucamente perdido no oculto interior feminino. espero que o sistema sexual esteja matematicamente correcto. caso contrário o jovem advogado será um péssimo amante. o fio-dental pertence a outras variações sobre o mesmo assunto. Talvez seja o título dum poema do jovem advogado.

amigo da tontinha

2.
se queres saber, não sou adepto da linha erótica interior feminina. e quando vou para a cama é sempre despido de qualquer roupagem ambiental que me leva a apreciar mais a natureza sexual da mulher em detrimento da moda-em traje-menor que ela adoptou para enriquecer as formas das suas capacidades amantes. o fio-dental é a mascarilha vaginal que só funciona no imaginário daqueles que quase nunca têm mulheres. os solitários do amor e do sexo cada vez mais longe.

jovem advogado

3.
as coisas que este homem sabe acerca das mulheres sem roupa interior.

anónimo

fep

18/04/2008

blogues e funcionalidades

Uma das coisas que mais me impressiona na cena dos blogues é a relação entre texto e leitores (comentários). Se é verdade que existem blogues que levam a escrita a sério, outros há que são pura distracção, charadas, manias. Se os primeiros (os sérios) carecem de comentários com fundamento; os outros assentam no disparate de opinião que os leitores sentem como uma necessidade para dar continuidade, por via da diversão, a uma função ridícula de se escrever e editar sem qualidades. Querem exemplos? Se alguém deixa registado num post que lhe dói a cabeça e não lhe apetece escrever, o sistema de comentários inunda-se doentiamente com dezenas de mensagens. E se alguém transcrever um texto de Nietzsche ou Sartre, o que acontece? Conheço um blogue onde os comentadores ( leitores dados aos costumes dos piqueniques ideológicos ) costumam estender uma toalha de disparates sobre as ideias contidas nesses trechos como se conspurcassem os lugares da mente. Vou ser mais directo: sobre uma ideologia de camus combina-se em que tasca se vai beber um copo de vinho ou comer um prato de caracóis.

E depois também existem aqueles blogues beijoqueiros. Escreve-se um poema florido e os comentários fazem bicha para agradecer de beiço fogoso tão profundas imagens e emoções. São poetas catequistas que usam a vida e o sol para camuflarem as suas próprias frustrações. Os versos que escrevem, se eu os representasse por desenho, tinham a imagem de caminhos eternamente perfumados por uma dor coberta de flores. Nesses posts ajardinados de tão doces palavras, os comentários chovem como pétalas de lágrimas, porque neste mundo da poesia que nasce da carência afectiva, autor e leitor agonizam no mesmo canteiro.

Quem nunca visitou um blogue onde se cultiva a futilidade verbal? Será que se escreve porque não se tem mais nada para dizer? Conheço vários blogues com pretensões humorísticas, mas a ideia que permanece depois de ler alguns posts é que o autor aprendeu a rir com o lado paralisado da sua própria vida. O interessante neste caso, e isso deve-se ao leitor que comenta ( provavelmente também ele a estudar para engraçado ) , é constatar que as mensagens têm uma qualidade irónica superior ao texto editado. Faz-me pensar que a brincadeira é uma função prática da própria vida, enquanto os assuntos sérios requerem outras distracções mais concentradas na existência.

Blogues onde os autores estão há beira do suicídio: atenção, psiquiatras. Os seus autores são maioritariamente meninas adolescentes que meditam e escrevem sobre a existência como um castigo que impõe a si próprias. Estar diante dum texto escrito por uma alma assim é como engolir um peixe com espinhas. Os temas andam muito por aqui: acham que os progenitores são o pior inimigo; sentem-se perseguidos e reservam uma indiferença de morte àqueles que os comentam, e para além desse nocturno de vida ainda se convencem que o amor é o último medicamento que desejam tomar. Não escrevem mal, mas a doença de pensar que ninguém os compreende leva-os a uma loucura risível de que a literatura faz gozo.

Que sentido faz um blogue sobre política num país de maus políticos? A censura e o comentário terão alguma propriedade sobre a disfunção de algumas ideias políticas? Eu percebo: esses blogues existem com a ilusão de ensinar como se governa uma sociedade. Abre-se o sistema de comentários ( como se o gesto fosse o mesmo que puxar um autoclismo ) e o debate está instalado: tudo o que se escreve sobre a governação dum país soa a inscrição de parede de casa de banho numa estação pública. E pelos vistos todos querem deixar uma impressão de merda sobre o que pensam dos vários assuntos retratados nesses blogues ( ou partidos virtuais? ).

fep

07/04/2008

Da Micro-Ficção

Li hoje o prefácio do Henrique Fialho à Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa. É um texto interessante que, para quem - como eu - tem pouca informação acerca da Micro-Ficção, oferece uma panorâmica introdutória que pode servir a outras leituras e que levanta questões importantes a considerar. O que mais me interessou foram as questões acerca do género e da relação deste com os outros que lhe fazem fronteira e a problemática relacionada com a sua dimensão reduzida e os tempos actuais.

O tempo sempre fugiu e o homem sempre correu atrás dele na tentativa desesperada de o ultrapassar, de lhe estar à frente ou de não ser por ele subjugado ou, pelo menos, de nele se sentir.
Diz-se que hoje o tempo foge mais rápido, que o nosso modo de vida lhe corresponde aumentando a velocidade da vivência, imediatizando os consumos, os produtos, as experiências.
Sempre fugiu, o tempo, hoje foge à nossa maneira.

Creio, concordando com o Henrique, que a génese da Micro-Ficção não se pode prender com os tempos actuais, com “as novas cronometragens da vida quotidiana”, com este “tempo sem tempo”. Estará, essa génese, mais relacionada com um outro imediatismo, com um imediatismo de longo efeito. Um imediatismo que aponta para o funcionamento da anedota, do aforismo, do ensinamento budista, como é referido no referido prefácio. O que passa por imediatismo é o acesso ao total do texto devido às suas dimensões.

Quanto à Micro-Ficção que hoje se escreve creio que o mais interessante é aquilo ao que o Henrique se refere como “a anulação das fronteiras dos géneros”, essa forma de experimentação que é sempre meta-literária, que passa por uma procura de originalidade e acende a sempre produtiva ambiguidade de classificação. Esta característica é sem dúvida uma riqueza, é sem dúvida uma fonte de questões.

E há a questão - que, como já disse, não passa pela génese - do “tempo sem tempo” e da dimensão deste género. De, hoje em dia, por exemplo nos blogs, ser um género literário em crescimento. Adapta-se a isso? É adoptado por isso? Serve mais a um tipo de leitura para o qual a maioria das pessoas está hoje disponível? Para o qual alguns escritores estão mais disponíveis e a partir do qual sentem comunicar melhor?

Quanto a mim, que tenho ensaiado algumas incursões na micro-ficção, o que me interessa é, sendo a poesia aquilo que escrevo, essa busca desse limite-fronteira, esse texto híbrido fora do espaço circunscrito a uma designação. É, para mim enquanto pessoa que escreve, um espaço de experimentação e, por vezes, de resvalo, para onde os textos vão fugindo.

O homem na esplanada atransparentava-se ao escrever. Era um poeta, conhecia-o, era meu vizinho. Sei que para voltar da sua invisibilidade escrevia pequenas histórias, dúbias, que lhe restituiam a cor a da certeza.

Pedro Afonso

02/04/2008

Talvez seja isto

Dois seres humanos em confronto físico directo por um telemóvel. No épico de Kubrick, as tribos disputavam a posse de uma pequena poça de Água. Houve então um desses infelizes que descobriu que um osso pode partir outros ossos. Como se não chegasse, ainda veio o maldito paralelepípedo e os sons tenebrosos de Ligeti. A sorte foi que pelo menos um chegou até Júpiter. Será também interessante pensar no HAL 9000 que aniquilou os outros tripulantes da grande nave-mãe. Talvez seja isto e/ou/a Selecção Natural.

joão bentes

01/04/2008

Ma(i)s notícias culturais do Algarve

“Contos de Liberdade” cancelados este ano. Mais informações aqui.

31/03/2008

então mudem a marca

O surgimento de um movimento literário tem o seu interesse e cria expectativas. Um projecto – Texto-al –, que se designa por “novo círculo literário do Algarve” tem as suas implicações e aumenta a confusão rotativa no que se deseja Círculo estável onde todos possam embarcar sem serem cuspidos por força do andamento e da velocidade (cópia desenfreada, neste caso). Porque se já existe um círculo (Sulscrito) por que não criarem um eixo? Ou um grupo? Ou uma seita? Se a imaginação foi corrida do texto – al, proponho para o novo projecto a indicação de “Peregrinos Literários do Algarve”. Com alguma fé e boa vontade não se repetem designações e não se copiam fórmulas. Mas o catálogo é longo e eu até ponho à vossa disposição uma série de opções e slogans que costumamos encontrar em dias de suspeita inspiração. Por que não experimentar “meia-lua da literatura algarvia”, ou “pôr-do-sol literário do Algarve”? E que tal “Vai de roda a cultura no Algarve”? É mais fácil e cómodo reciclar ideias que já existam, não é? Também acho, no vosso caso. Mas eu ajudo-vos: se espreitarem a vasta (como quem diz) galeria de figuras geométricas, são capazes de encontrar alguns tipos de triângulos, e rectângulos, ovais e quadrados. Vamos experimentar? “Triangulo obtuso-literário do Algarve” (rico na sua imagem, sugestivo sem escandalizar, e se não o querem em figura permanente, sempre podem utilizá-lo em sentido figurado). “Quadrado literário do Algarve”, tem os lados todos iguais e a sua expressão representa o mais democrático sistema das ideias, como por exemplo: entre quatro cabeças a originalidade está salvaguardada; é uma figura que confere resistência às ideias conservadoras, serve de sala de recobro para mentalidades com alto nível de imaginação, e oferece ambiente tranquilo para oportunismos floreados e conversas de lapela. Meus amigos, sejam bem-vindos ao carrossel da literatura do Algarve, pois só com um círculo não vislumbrávamos nenhuma pista que nos colocasse na recta literária da vanguarda, não havia termo de comparação, e eis que o figurino mudou, graças ao aparecimento de outro círculo a rodar nos calcanhares como uma roda cujo destino é andar sempre uns palmos atrás a aguardar uma utópica oportunidade de recuperar a distância. Já ouviram falar em identidade? Então mudem a marca.

fep

19/03/2008

Destruição da Natureza, Parque da Ria Formosa, Ludo, Faro

Mais acerca do desbaste de de árvores no Parque Natural da Ria Formosa, no Pontal, zona do Ludo junto à estrada para a Praia de Faro.

Aqui no Jornal “Região Sul”.

Quem conhece o Ludo junto à estrada para a praia, antes da última curva, reconhece a àrea deste cenário?

ludo_1

(foto “Região Sul”).

17/03/2008

Destruição da Natureza, no Ludo, em Faro


No Ludo, em Faro, 5ª feira passada.
Destruição não sinalizada, sem identificação de responsável.
Alguém sabe do que se trata?

25/02/2008

Allgarve 2008

e eu que pensava que ELES não se lembrariam de nós.

“A RTA promoverá ainda uma “mega festa” baptizada com o nome “Algarve Convida by Sacha”, agendada para a noite de 14 de Março no Mosteiro de São Bento da Vitória (Porto) e para a qual serão convidados mil pessoas, principalmente empresários.”

“A marca “Allgarve”, anunciada pelo ministro Manuel Pinho em Março de 2007, foi criada com o objectivo de valorizar a oferta turística da região algarvia e de promover um programa de valorização cultural, mas na altura do anúncio recebeu algumas críticas.”

Vou comprar um bom fato, arranjar uma miúda gira, reservar um descapotável para passearmos nas tardes de domingo em Agosto. Entretanto vou praticando o golfe, enquanto escuto atentamente todos os discos da Diana. Vou ler sobre culinária e aprender a degustar. Quero ser culto, aprender a falar de forma intelectual. Vou compreender que investimento financeiro é sinónimo de valorização, quando falamos de turismo de qualidade, é claro. Afinal a cultura tem valor…

OBRIGADO Sr. Ministro, OBRIGADO R.T.A.!
Isto é a diferença.

[A Guerrilha Urbana]

21/01/2008

Desabafo em fuga

Um video do encontro de escritores ibéricos em Huelva em 1995, aqui.

No fim do video o Fernando Esteves Pinto diz que qualquer dia foge de Portugal, eu creio que esse é o único remédio, sim. Mas fugir de Portugal, ou do que Portugal é hoje, terá que ser por uma variação (fuga) ao que nele vigora: uma fuga ao conformismo, uma fuga ao apoio estatal que é apenas uma condescendência, ao fisco e à higienização fascista que serve de ferramenta à uniformização do mercado, da cultura e do poder de decisão. Um fuga EM Portugal.

A pancadinha no ombro que nos dão as entidades que nos apoiam, e à cultura em geral, sabe mal, cheira mal e é sonsa. À primeira oportunidade aproveitar-se-ão da cultura para negociar, para fazer uma propaganda ao que a própria cultura não serve.

As galerias são centros de promoção política para quem quer cargos que espera que mais tarde cheguem, para artístas que querem ser reconhecidos pelo sistema e dar-lhe o braço. Podem ser, evidentemente, palcos de inconsciência profunda, para a qual não há desculpa.
As editoras comerciais são novelos de favores entre mercenários da literatura, os prémios são uma treta. Entre tudo isto haverá excepções, evidentemente, mas raras e no limiar da sobrevivência.

A independência da cultura em relação ao sistema político é a única forma digna de existência da mesma. A consciência disso e a coragem para isso são iminentemente necessárias.
Por isto, apelo à arte, aos artistas, aos espaços e aos movimentos não higienizados, não cumplices e interventivos.

O logotipo, marca do apoio, de uma câmara, de um ministério ou de qualquer outro centro de poder, numa obra de arte, num espaço ou num protocolo, é o selo da “ASAE da cultura”, de que esse “objecto” é higienizado, suportável e aprovado.

Bolas, tinha que dizer isto.

Sei que o Sulscrito tem sido apoiado por várias entidades do estado, que temos gramado a “palmadinha nas costas” para poder ir fazendo aquilo que projectamos, mas creio que, esta é a minha individual opinião, devemos preferir e procurar formas independentes de apoio para realizar aquilo que queremos. Isto será realmente exilarmo-nos, fugir EM Portugal, a arte EM fuga.

Ainda que saibamos que o dinheiro desses apoios estatais seja “nosso”, dos contribuintes, apenas devemos aceder-lhe quando ele não for negociado e “cedido” pelo poder, apenas quando o poder abdicar desse dinheiro (e do poder sobre ele) e o libertar na totalidade para ser gerido por quem o usa. Os apoios, neste momento, são dados como esmolas que por nós foram pagas anteriormente.

Deixo este desabafo e ponho-me em fuga.

Pedro Afonso

15/01/2008

Conversas ao Balcão no “Joaquim da Roda” em Cabanas de Tavira

No esplêndido espelho de água da Ria Formosa, empinados nos bancos para assistir ao pôr-do-sol, barrado pela escariada coluna de palmeiras e arbustos e pela “cortina de ferro” dos automóveis, os turistas acidentais das Conversas ao Balcão reuniram pela 3ª vez em busca do Algarve autêntico.
Estiveram presentes José Bívar do Aliança Cultural e do CCB-m, Fernando Esteves Pinto do Sulscrito e Palavra Ibérica, Joana Rego Bióloga Marinha coordenadora do grupo Decrescer, Osvaldo Rocha do Aliança Cultural e Atelier” 4Elementos”, Medi artista plástico, Carlos Valagão Agricultor de Tavira, Victor Cardeira, antropólogo, professor de Tavira, Rui Dias Simão Poeta, Pescador e o anfitrião da noite, João Bentes Poeta do Sulscrito, Engenheiro Biotecnólogo e Pescador da Ilha de Faro, Pedro Afonso Poeta e mentor do Sulscrito, Melro Músico de Faro, Mauro Amaral Cineasta de Faro, Dora Estudante e artista plástica de Faro, Filipe Pescador da Ilha de Faro, Inês Mestrinho Bióloga Marinha e Animadora, Nuno jovem agricultor e Animador, Cassiano Artista Plástico de Cabanas, Miguel Godinho e a sua arte poética cada vez mais apurada e Joaquim da Roda Proprietário do restaurante. O grupo de uma heterogeneidade etária entre os 20 e os 60.
O jantar bem regado pelo vinho caseiro da produção Valagão, consistiu de vários mariscos da Ria Formosa de Cabanas e praia de Faro.

Os temas saltaram espontaneamente para a mesa; abordou-se a questão do Tratado de Lisboa e a forma como tem sido apresentado, discutiram-se os vários conceitos de qualidade de vida que podem orientar o desenvolvimento de cada local, a discussão foi ilustrada por poemas alusivos à Vida da Ria, às infâncias e adolescências em liberdade de cada época; discutiram-se gerações, educações e convicções…

No próximo Sábado, na rua do Crime ou Prior e na rua do Compromisso ,em Faro a partir das 18 horas as Conversas ao Balcão continuam o seu périplo pelo o que resta do Algarve das tertúlias.

José Bivar

07/12/2007

Coitadinho de mim. Querem que eu me suicide.

1. Afinal existem mais pessoas assoberbadas com o ego, mas essas pobres andam tão atoladas nos interstícios da era digital que tomam tudo por evidente. É um sinal dos tempos. Agora é preciso ter blogues e (para não dizer “para” e tentar ser um pouco educado) publicar livros, é preciso falar de coisas importantes (!?) nos blogues, enfim, há quem tenha que provar qualquer coisa a si próprio, pois se fosse um escritor forte certamente não perderia tanto tempo na brejeirice. Pois no que me entendo, não necessito nem de livros nem de caixas de comentários cheias de “Adorei”, “É realmente fantástico”, “Adoro o que o Senhor escreve” e “:)”. Não preciso de ter diarreia intelectual e fastidiosa ao ponto de publicar e comentar tudo e mais alguma coisa sobre isto e sobre o outro, tornando-me superficial ao ponto de não reparar no idiota que sou. Infelizmente tenho bastantes pretextos para escrever. Como sei o que sou, procuro perceber aquilo que faço, mas não lamento não ter a insolência de me justificar inconsequentemente. O meu dia há-de chegar; não tenho pressa do fim.

2. A haver semelhança entre o que eu e o Pedro Afonso escrevemos, só pode significar uma coisa: apesar da maré, nós até comunicamos. Quando se é escritor e se comunica, é obvio que existe influência. Surpreendem-me as pessoas que não ultrapassam a aparência. A merda em que estão soterradas deve ser bastante confortável.

3. Com tanta gente a enterrar-se por aí, porque não haverei eu de ter o direito de me enterrar também? Foda-se! Devo ser mesmo bom! E agora atirem mais aos coitadinhos do Sul, que vivem numa qualquer disfunção paternalista que lhes ataca o orgulho e a presunção. Vai doer tanto como o desaparecimento da pequena Maddie.

4. E já agora baixo mais o nível.

Ó mãe
aquele micróbio bateu-me
diz que falhei
na concordância

E tu
não escreves nada
ficas ao computador
arrancando pintelhos do cu

João Bentes

06/12/2007

ao senhor pereira

poema de Pedro Afonso dirigido ao “senhor pereira” das caixas de comentários: aqui.

09/08/2007

PROSTITURISMO

O ALLGARVE é POORTUGAL.

[A Guerrilha Urbana]

31/05/2007

Aeroporto e Democracia

Andam por aí todos tão assolapados de indignação por o ministro ter dito que a margem sul é um deserto. Vendo bem as coisas, o homem só disse a verdade, e fê lo de forma tão subjectivamente honesta e eloquente, que ofendeu as mentezinhas mais hipócritas. Isto porque se olharmos muito profundamente para os botões da nossa camisa fina, perceberemos que ninguém quer o aeroporto novo em folha na margem sul. Pelo menos a Guerrilha tem a certeza de que não quer o estúpido aeroporto na margem sul. E se olharmos ainda mais profundamente para a margem sul, veremos que se não é um deserto, a metáfora adequa-se: planície alentejana inutilizável e barrocal algarvio desocupado. Para que raio serviria aqui um grande aeroporto? Já temos um em pleno parque natural e é mais do que o suficiente.

Quando as vozes, em oposição, se insurgem contra o dito ministro, exigindo-lhe a demissão, e pondo animais tão nobres como os dromedários à sombra de mega cartazes publicitários de beira de estrada, não querem realmente a sua demissão. Querem antes que ele continue, e por muitos e bons anos, pois se o ministro se demitisse, perderiam um moinho de vento daqueles que tanto gostam de combater. E se o ministro se demitisse, e viesse outro que dissesse que a margem sul é a melhor solução, haveria alguém, certamente, a propor o aeroporto nas Berlengas. Porque a função da oposição é precisamente essa: exigir o que parece ser certo, só porque não o é, e porque isso não pode nem deve ser feito. A posição do governo é mais ou menos a mesma: prender-se nos detalhes do que pode ser feito, para depois revelar a impossibilidade, e acabar por fazer a que foi a única opção. Assim ficam todos muitíssimo satisfeitos: a oposição a opor se e o governo a governar.

A grande questão aqui é que tudo em democracia está condicionado por princípio, e isto não é ironia, mas sim o assumir da verdade. Em democracia o confronto é aparente. Ser contra é a mesma coisa que ser a favor, e ser a favor é o mesmo que ser contra. Como se diferenciam duas coisas dentro de uma, se ambas têm o mesmo interesse fundamental, o interesse democrático? Certamente não será pela cor da bandeira, e muito menos pela sublimação demagógica perpetrada pelos meios de comunicação social.

A democracia é simplesmente o instrumento mais político da conjuntura capitalista. E nem esquerda nem direita se vêem livres de tal sombra. O que todos querem são simulacros e ficções de problemas casuais, que não passam de projecções dissimuladas dos seus próprios problemas e incapacidades reais. Da democracia poderá dizer se ser o exercício livre do sufrágio directo e universal pelo povo, para a eleição de um governo, satisfazendo a vontade de uma maioria. Isto porque, o povo, que vota ou não na maioria, não quer ser ele próprio a governar. Os políticos, só se diferenciam do povo pelo facto de não quererem que o povo governe, e são todos artifícios do jugo capitalista. Enfim, dêem a uns e a outros o que todos querem, poderemos assim ser felizes. Coisa mais lacónica e obsoleta, senão fantasmagórica e absurda, não deve mesmo existir.

[A Guerrilha Urbana]

14/05/2007

o amor é uma merda

Tira-me a merda dessa sanita.
Põe pelo menos o teu cu.
Teimosa.
Bruta.
Estúpida.
Estúpido.
Bruto.
Teimoso.
Vai-te foder.
Chato.
Olha que eu te fodo.
Olha que eu te mordo.
Cadela.
Cachorro vira-latas.
Rafeiro.
Vadio.
Puta.
Acaba comigo.
Mando-te vir.
Mando-te chegar.
Mando-te agarrares-me.
Não me queiras.
Desejo-te.
Perdes.
Ganho-te sempre.
Não brinques comigo.
Não me fodas.
Não vales a foda.
Vales-me a vida.
Eu sou a tua foda.
Eu sou a tua vida.
E se fizesses o favor de tirar essa sanita da minha frente?
Não me apetece ver a tua merda.
Não é a minha merda.
E de certeza que não é a tua.
Mas aqui ainda cheira mal.
Que engraçada.
Hilariante.
Odeio-te.
Tenho raiva de ti.
Rio-me.
Abraçava-te com força.
Sacudia-te com mais força.
Beijava-te loucamente até que a raiva se extinguisse.
Mordia-te a boca até o teu beijo morrer.
Encolhia-me no teu colo até o sangue parar de correr.
Afogava-te no meu sangue.
Envenenava-te com o meu sangue odioso.
Envolvia-me no teu sangue e enroscava-me no meu.
Embebedava-te de amor sanguíneo.
Engolia-te no meu sorriso apaixonado.
Não sabes rir.
Sei rir com o coração a soltar-se da boca.
Vai para o circo fazer rir os tristes.
Então tu serias o primeiro da fila, meu triste raivoso.
Meu palhaço amoroso.
Amor odioso.
Seria o único a não bater palmas.
Serias o único a levar um beijo.
Má sorte a minha ser beijado por ti.
Sorte a minha amar quem me odeia.

fernando esteves pinto

28/02/2007

o dinheiro

O dinheiro transformou-se num sentimento social tão ou mais intenso que o amor. Faz-se tudo por dinheiro. O grande conforto afectivo da sociedade reside no facto de as pessoas sentirem-se eternamente apaixonadas pela riqueza. Os pobres são os que mais amam aquilo que os ricos sentem. A opulência de uma minoria é a paixão de todos. O dinheiro, além do valor que regula a influência dos cidadãos na sociedade, define o sentimento de posse que caracteriza a ambição. Da mesma forma que se pode sentir amor por uma distante figura pública, no que diz respeito ao dinheiro é cada vez mais real que se ame o que não se tem e o que provavelmente nunca virá a ter. A ilusão pelo dinheiro é um estado ansioso onde se incluem aqueles que se sentem condenados por simples trocos. A riqueza nunca foi sensível a declarações de amor por parte das pessoas não afortunadas. O dinheiro não as ama. Ao contrário do amor entre duas pessoas, o dinheiro não partilha sentimentos; é ele próprio o motivo sentimental da relação entre aqueles que o possuem apaixonadamente. Querer muito uma coisa ( neste caso o dinheiro - não representasse ele o desejo que permite desejar todas as coisas ) é sentir a distância tortuosa que nos separa dessa coisa como valor adquirido. Temos assim o dinheiro como ideia de propriedade. A ideia de dinheiro é um sentimento que não corresponde forçosamente aos ideais de riqueza tradicionais. Porque, se o dinheiro é um sentimento instituído pelas novas sociedades, o seu investimento pode ser feito com base em instintos negativos. A guerra e o terrorismo são os principais consumidores de riqueza social. Logo, são os amantes da desumanização. A corrupção e o abuso de poder são características herdadas pelo dinheiro como forma de controlar a humanidade. O condicionamento das relações que o excesso de dinheiro impõe no indivíduo é a causa negativa de uma emoção de poder atribuída por um sistema de desigualdade entre pessoas. Hoje sente-se uma felicidade fantasiada pela imaginação do dinheiro, como se este elemento de sonho nos transportasse para um mundo fértil em riqueza humana. Mas como se pode ser feliz se o dinheiro revelar de quem o tem a sua pior natureza? Os juros manhosos de comportamento que o dinheiro exige para a sua aplicação põem constantemente à prova os detentores abastados deste justo inimigo que investe em tudo o que é grandioso. Assim surge o materialismo, atitude que o dinheiro concebeu para elevar o prazer e os benefícios de duvidoso carácter existencial sobre os pilares de uma humanidade que se deixa pensar pela ganância.

fernando esteves pinto

22/02/2007

Já que andamos numa de canções, esta é do Carnaval

você já não festeja o Carnavau
é a deprê di Portugau

aqui o Carnaval é muito a custo
dele o Jardim é o maior susto
felizmente já há o aborto
se a excitação der para o torto

você já não festeja o Carnavau
é a deprê di Portugau

por cá as cidades estão caladas
só na TV é que há paradas
samba de sofá e de café
por cá é seca estar de pé

você já não festeja o Carnavau
é a deprê di Portugau

(pode continuar nos comentários ou noutros posts)

[A Urbilha Guerrana]

Possível refrão para hipotética cantiga populista

(…)

E vai votando fala vota
vota no pé fala na bota
falo na puta vota na porta
Vota em 10 semanas de azia
Vota no podre na democracia

(…)

[A Guerrilha Urbana]

17/02/2007

passeando uma mulher pela coleira

Ia para escrever os homens ainda tratam as mulheres
como se fossem animais domésticos sem que o meu pensamento
fosse buscar aquele pastor de mulheres carentes,
aquele tratador sempre pronto e atencioso
a segurar a trela da oportunidade
para prender na coleira das mulheres perdidas,
com murmúrios de coragem a incitá-las a mudar de vida
a tua vida sempre dedicada aos outros e agora
o que sobra para ti se não cabes dentro do teu coração cheio de mortes?

Ia escrever sobre as mulheres que se deixam passear
num jardim mal tratado com flores murchas
que já foram beijos respeitados por homens honestos
mas o jardineiro mentiroso a vir ao caminho destas palavras
numa noite de intriga a mudar o sentido
do que penso sobre as mulheres que nunca se importam
de viver como animais domésticos e a oferecerem
o colar do pescoço para que lhes seja colocada a trela da ilusão
e sejam guiadas pelo fundo das noites em exposições de labirinto.

Também tu, enquanto os outros ocuparem a tua vida
com o seu passado a renovar-se numa ânsia de tortura,
também tu ia agora escrever, como poderás viver por ti
se a colecção de boas intenções que mostras aos outros
parece um almanaque ultrapassado
e o respeito que possas cobrar pela obra humana
será sempre uma moeda antiga fora de circulação?

Estava para escrever como pode uma mulher amar alguém
se dentro dela não sente o que os outros sentem por ela,
tudo numa complicação de trelas e coleiras elegantes
como as palavras desse tratador de mulheres domésticas
a pastar as suas tristezas nos seus domínios de cultura perversa,
e eu a escrever para me ajudar a esquecer que essas mulheres existem,
e no meu pensamento com muito cuidado a escolher as palavras
onde os outros se vão olhar no espelho,
talvez uma noite não demasiado pesada eu possa compreender
porque é que as mulheres têm esta tendência
de destruir o seu lado interior com o exterior de si mesmas.

fernando esteves pinto

16/02/2007

esse cantor

Sempre imaginei aquele homem sentado ao piano. Correr o pensamento pelos dias, contorcer o corpo como faria com a vida que todos desconhecem. A vida desse homem que canta todos os tempos da sua vida. Depois ficou o olhar distante de quem procura adivinhar o futuro. A confirmação do destino, sem palavras ainda.

Sou uma criança-ímane, agora posso confirmar, porque penso que o tempo tem um grande respeito pela minha felicidade.

Eu penso numa atracção pelos outros, como se o meu desejo renunciasse a sentir-se longe dos que amo. Agora nesta sala cheia de pessoas, ele canta. Ele rasga os sentimentos frágeis de quem veio aqui para escutá-lo. Eu tenho uma história onde posso reconhecê-lo. Não fiz nada por isso, escrevi nessa direcção da sua vida sem consciência de voltar a encontrá-lo.

A luz do palco toma conta dele. Protege-o. A voz desse cantor é um choro tão antigo. Passeia-se pelas ruas, magoa-se, sorri e continua a cantar. Aperto as mãos do seu amor como se me encontrasse nesses lugares por onde ele passou. Escrever cansa-me como ouvi-lo me sinto escrever sem tempo. Possuo a intimidade da sua existência e escrevo para me dissolver na sua vida. A voz dele deita fora o sofrimento. Recupero-o, eu sei, e procuro nos outros os restos do que eles nunca serão capazes de ser.

Ouço esse cantor devorador do tempo, fecho os olhos, não penso, e tu dizes:
- Estou aqui para me sentir mal com o tempo.

É tão triste sentir o tempo com pessoas agarradas a essa impressão de medo no qual o cantor participa, pessoas aflitas, e a voz do cantor a fazer existir aqueles que nunca estiveram longe dele, e ele a levantar os braços para todos aqueles que o escutam, tu também, e depois dizes:
- Tudo muito longe, como se o tempo receasse aproximar a vida que pertenceu aos dois.

Tudo falso. O erro é a perfeição do cantor. Só a força é verdadeira. As frases foram pisadas pelo teu sofrimento. Mas tu movimentas o corpo quando a voz dele nessas palavras. Compreendo, está descansada. A minha mãe tinha uma dança própria de quem já não se importava com a dor. Levantei-me muitas vezes da mesa, a mãe a fazer sinal, filho, e eu dentro do quarto, é a música deste cantor. As pessoas sempre foram postas no meu caminho pelo amor magoado. É um amor que está ainda a ser escrito ao som da vida desse cantor.

Sim, penso muito antes de me destruir naquilo que sinto por alguém.

fernando esteves pinto











































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