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27/05/2008

Há pessoas presas dentro de pessoas

Arquivado em: poemas

Há pessoas presas dentro de pessoas
dentro de garrafas alisando a madeira fria
e o que do fumo se estende pelas mesas
é a curva lividez dalgum temor sinistro

Como nada acontece entre o som e o copo
deposita-me no sentir o sono profundo
um vento baço que arde pelas costas
inglória e perfurante a espada de deus

joão bentes

23/05/2008

pintura

Arquivado em: poemas

Parece a fachada dum prédio velho
Labirinto
Confusão de janelas perturbadas
a olhar através do pensamento das cores
O tabuleiro negro das sacadas inclinado sobre as ruas
dialogando com as sombras no silêncio dos espaços brancos
Na língua dos vasos flores ocultas
Sinto-as
A luz dos lençóis a secar
Respiração de vento
Paredes pintadas pelo tempo
Outra memória
Portas abertas e os meus olhos entram
Uma rapariga dança feliz
Outra faz exercícios domésticos
Uma cafeteira assobia no bico do fogão
O vapor é uma aguada cinzenta muito leve
Num divã dorme o sono duma criança
Um pano sustido no ar
Infinidade de polilha
Um quadro de Picasso (imitação) pendurado na parede
Os saltimbancos
A humidade desce até ao rodapé
Nas cidades já só nascem flores nos olhos dos poetas
explica um pássaro na gaiola
Ao fundo num corredor um homem e uma mulher
beijam-se em segredo
Boca na boca sem palavras
Um livro caído no chão aberto no poema da água
Uma velha arrasta a sua silhueta e deita-se-lhe em cima
nódoa de tinta
Os gatos escondem-se na ferrugem das varandas
Vejo-lhes as fagulhas dos olhos
As pinceladas de cinza das caudas
Redes mosquiteiras nas janelas
Ferros cravados verde-musgo das chuvas
Líquen
Uma escada que sobe e eu subo com ela

fep

a mão suja (V)

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uma nódoa na palma
húmida gelada
uma mancha que ecoa
dissonante e veloz
rasgando a superfície num raiar
azul

se assim começa
gela-se tingida de suor

Pedro Afonso

22/05/2008

Vento que acendes do áspero cimento

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Vento que acendes do áspero cimento
não mais que ténues limites pelas ruas
corpos que cruzam as amplas esplanadas

Persistes recalque da luz que desbrava
remexendo algures a apócrifa essência
entre o verde incólume do exacto plástico

Submergir até que a cabeça insufle
aguardar o pó principiar um nome
adivinhar longe ninguém que passa

joão bentes

21/05/2008

Aprumados gumes de néon plastificado

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Aprumados gumes de néon plastificado
ressoam púrpura o confuso sílex corroído
e o sofá doméstico a sofisma atordoante

Há aparas que são névoa perfurante e tensa
uma pressão súbita que se entranha nas veias
a bandeja oxidada muito firme nas mãos

Quase começo de novo os pés de me deitar outro
nas águas do sul onde peixes dançam nucleares
aprofunda-se no sangue o delírio sarraceno

joão bentes

20/05/2008

a mão suja (IV)

Arquivado em: poemas, escrever é

se penso com a mão
é na lama que os dedos
agem um patinar
nada artístico
uma fuga em pânico escorregadio

sou um deslize coxo
do assombro

Pedro Afonso

17/05/2008

a mão suja (III)

Arquivado em: poemas, escrever é

é na ausência do quê que se esfria
o dia a luz na mão
sugada pelas aparências
de uma pele escalpada voando
em sangue
pétala de horizonte caído tocando o medo

o que vai chegando é negro
de dedos nos olhos

Pedro Afonso

16/05/2008

a mão suja (II)

Arquivado em: poemas, escrever é

não sei se desperto
mais familiar
com o estrondo do sol a nascer
ou a noite sugada pela luz

a mão vibra na ponta
da dormência do braço quebrado

Pedro Afonso
(anterior: I)

12/05/2008

a mão suja (I)

Arquivado em: poemas, escrever é

mantém-se ainda a mão
sugada no lodo
o corpo foge até ao limite do braço
como se a não levasse
e dessa matéria negra o que me chega:

o frio do vácuo puxando
para o sem fundo

Pedro Afonso

da posse

Arquivado em: poemas

NUNCA NUNCA
NADA NADA NADA
PARA SEMPRE

joão bentes

10/05/2008

POEMAS SEM EMPREGO

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1.
a manhã nasce com as aves no peito das palavras
e já os olhos se abrem necessários para receber o dia
desejava o silêncio como água habitando as ilhas
desertas no corpo

2.
viajo de branco pelo passeio da memória
invento uma forma para sobreviver ao artesanato do tempo

3.
não há emprego para as palavras
desafiando o deserto em que escrevo
encosto a carne ao silêncio da voz
é um fio de sangue construindo o poema
vem do seio da língua crescendo

4.
junto às tábuas da tarde sente-se o mundo afastar-se
respiro a terra por dentro repleta de sonhos eliminados
aqui o fogo repousa na água carbonizada das chuvas
a magia da noite há-de explodir

5.
derramo na mesa os objectos que guardo nos olhos
trago sempre pedras para casa
cumpro a noite - adormeço com as palavras

fep

09/05/2008

palavras silêncio

Arquivado em: poemas

Foges do frio e da chuva
abandonas a cidade
o teu pensamento a guiar-te pelas ruas
o meu pensamento distante é suficiente
para te isolar da vida exterior
eu oiço o teu silêncio como se recolhesse
nos teus passos húmidos pelo caminho
as palavras que tu pensas até chegares a casa
escrevo o interior do teu quarto e o silêncio
é o teu olhar cansado numa folha cheia de palavras
moves-te pelo quarto numa dança luminosa
o medo é o som deste silêncio gravado à volta do teu quarto
se o silêncio fosse as grades das tuas palavras
o silêncio também seria a impossibilidade da minha escrita
mas eu escrevo o teu silêncio como se as palavras
fossem as paredes que fecham o teu quarto
eu também destruo o meu silêncio
contra tudo o que destruo em ti
e as minhas palavras transformar-se-ão no quarto
onde viveremos nessa destruição
porque o silêncio é a distância interior
profundamente habitada por um sentimento futuro
agora o nosso tempo é este som que escutas
nas palavras que lês do meu pensamento
ninguém destrói o silêncio
sem antes destruir a pessoa silenciosa
as minhas paredes são as palavras
que escutas no silêncio do meu pensamento
destruir o silêncio é ignorar as palavras
que se deseja sentir.

fep

08/05/2008

UM GELADO NO INVERNO

Arquivado em: poemas

Querida compreende a minha ilusão
e pensa que sou um gelado no inverno
que doce cabeça vazia a alimentar
salas de espera com conversas
sentadas no disparate imobiliário
e tu vens lamber o meu juízo em ruínas
na margem onde se instala o lobo à espera de comer
uma das tuas bonecas de trapinhos sentimentais
oh que solidão formidável quando o quarto está cheio
e a cama composta de teias de aranha
porque o amor é uma lição que não se aprende
quando o coração é um balde de despejo inútil
e tu perdes a vida em troco da frontalidade
e a minha escrita vive destas mortes
vestidas para viver na ilusão
eu sei eu sei tu és a prendinha da consciência
para meninos de gostos integrais
e depois tanto barulho tanto barulho meu deus
deves estar louca ou apaixonada
pelas moscas que cantam no silêncio.

fep

06/05/2008

retrato de palavras

Arquivado em: poemas

estendo-te a minha mão e os dedos tremem
sobre o silêncio azul do teu corpo
é o silêncio dos muros
limite da solidão
sono
água
folha seca
ombro
orvalho na tua boca
e eu não procuro nas coisas
senão o desejo de te encontrar
está uma lâmina dentro dum prato e luz
apenas uma lâmina e o dia voltará a mentir-te
um dia vermelho em decomposição
nas minhas as tuas mãos escorrem uma doçura oleosa
sufocada de longa rotina
viajar no teu silêncio
no teu sangue
emergir do crepúsculo
numa revoada de mil lembranças
vivemos acaso?
deslizas
deslizo nas curvas enigmáticas do passado
as memórias acendem-se
os pensamentos circulam
os jardins são de cimento e as flores sabem-no
deslizas
é o cenário do teu corpo
as flores no perfume da tua pele
o musgo do teu ventre
sonho-te vida
segredo
luz
sangue
azul
sonho
e agora a sombra é vazia e a linguagem é gestual
a água no tanque corre em borbotões
a luz escorre de vidros
a terra treme
e no entanto eu sei
todos os dias são dias deste próprio dia
por sobre a cómoda a jarra de flores desbotadas
o passado numa moldura antiga
o amor num retrato amarelecido
cortinas de pó e silêncio
escorre a luz morna pelas paredes
a cama ao fundo desfeita
desfeitos os sonhos também
concreto o amor apenas de quem ama
longe na distância final
toda esta ausência que dizes haver em mim
é feita do que somos e nada te oculto
enquanto percorro a chama adormecida do teu corpo
silenciosamente
os teus lábios fecham-se de pó
ardor
vermelho
até no vazio nós caímos
entre a separação do que é secreto em ti
as palavras
só a luz pode desiludir a beleza
a luz desilude a beleza
nesse tempo a noite dormia ainda nos teus olhos
e a imaginação era um pensamento aberto
a noite chama-nos e as palavras esquecem-se por momentos
nem o vento de cordéis desgrenhados sacode o profundo desejo
emoldurada nos meus braços
como uma janela engolida pelas heras
escutas o silêncio que é a luz e é de pedra

fep

30/04/2008

perante a solidão

Arquivado em: poemas

Depois da leitura particular da sua própria vida
cada um se debruçou na essência literária que o coração indicava.
Em forma de livro ela sentia que não eram aqueles os seus caminhos.
Palavras brutas e ingenuamente arrependidas.
Verdades que por serem desfocadas,
davam uma péssima fotografia da vida.
Fecharam os livros no limite do sofrimento.
Nunca uma história é uma ponte
de entendimento para o nosso prazer.
Ele deixou a sua alma a marcar uma página.
Tão inconsciente estava no tumulto das palavras
que a razão se enrugou perante a solidão.

fep

24/04/2008

fotografia rasgada com livro e mesa de leitura

Arquivado em: poemas

A fotografia compõe-se em três pensamentos.
Em redor da infância há uma mesa
E no centro a olhar para quem lê
revela-se a agressividade de quem pensa.
Os olhares são tristes ou apenas se protegem
do sofrimento das primeiras palavras.
A mãe pensa dizer o que alguém esboçou com violência.
Temos um espaço guerreiro e analfabeto.
O pai julga ocupar o coração blindado do tempo humano.
Vejo-o despedaçar-se pelo caminho do seu próprio pensamento.
Às vezes tenho esta imagem de mundo
dividido em três superfícies que a linguagem do desespero ordena.
O jogo da verdade é uma mesa humanamente distante
e a imagem que compensa a escrita
o retrato da razão profunda.

fep

17/03/2008

poesia dita no chalé João Lúcio (2)

Arquivado em: poemas, ecos

*

oh meu algarve
pareces manter
ainda assim
uma tendência incorruptível de azul
como céu
ainda
esse rasgão de cor
que nos ultrapassa
ainda sim
ainda por agora

de resto
oh meu algarve
és uma nódoa indelével
na conspurcada toalha
que é esta
que nos estenderam
no máximo como país

mais uma
oh meu algarve
mais uma nódoa
do que caiu da sobra da boca
de quem não olha ao que devora

oh me algarve
frúnculo de alcatrão e cimento
que calado rebenta
em areias de pus para um mar
que já não lava

de pernas abertas à invasão sazonal
que nunca te poupa
porque és barato e sem sentido
oh meu algarve
atravessam-te sem nunca olhar
o rosto que outrora tiveste
nem os rios te choram já
serras abaixo
restam-te as calçadas
peganhentas de cerveja
como lágrimas que se cristalizaram
sob os pés da indiferença

oh meu algarve
nem te lubrificaram na sodomização
e na dor silenciosa do teu corpo
fugiu-te a esperança e o grito
resta-te agora apodrecer
secar
nódoa desbotada
ao sol
que te dá a conhecer

*

venham
venham todos
besuntados de bronzeador
embandeirados de guarda-sóis
como que para reclamar
um pedaço de terra virgem
venham para o algarve no verão

venham todos
de corpos gordos e pendurados
da mamagem dos dias
de corpos esbeltos e magros
da labuta no ginásio
venham
para esse algarve de areia e mar
e de céu azul

venham todos
para a colónia de férias barata
para o aparthotel de segunda
para a casa a 1000€ a quinzena
ou para o resort de 25 estrelas
venham

venham todos
de inglaterra ou da holanda
da irlanda ou da alemanha
de lisboa ou do porto
de olhos vendados até ao quarto
que vos espera junto à praia
venham

temos muita cerveja e melancia
muita luz e noites quentes
muita areia e muita água
temos bares e discotecas
para os de primeira ou de segunda
até já temos música erudita
e festivais de tudo um pouco
graças a um “L” a mais no nome

venham venham todos
para o ano haverá mais
apartamentos para alugar
e rouba-se um pouco à praia
que a areia
essa
ainda não é a pagar
venham venham todos
entupam as estradas e o estacionamento
amontoem-se nas praias e nas piscinas

venham venham
venham comer o frango da guia
ou provar a amêijoa da ria
assar sardinha de espanha
e beber sumo de laranja prá ressaca
temos putas e camarão
tudo pago a meio tostão
para quem vier de cima

“temos palhaços e acrobatas”
experts em golfe e salva-vidas
no verão sabemos fazer
de tudo por vocês
falamos todas as línguas
pelos cotovelos

venham venham todos
não se acanhem
deixem cá um ordenado por semana
que isto pró ano estará tudo igual

Pedro Afonso

poesia dita no chalé João Lúcio (1)

Arquivado em: poemas

Oh meu Algarve cimentado em prol
da luxúria verdejante dos resorts
deu-te deus um mar azul e tépido
onde lavas a cara à sombra das concessões
nos três meses que te salvam da fome

Oh meu Algarve ardente consumista
constrói aquários para os peixes doutra vida
e asseados museus p’rós artesãos falidos
lagoas do mais barato álcool
para os filhos delinquentes das inglesas
que hás-de foder na eternidade das tuas areias

Oh meu Algarve diamante bruto
reino da imóvel especulação
fantasia mais real do impossível
não és mais que a falta de orientação
dos iates louros desfilando nas avenidas
levantando o grosso cheque do futuro
entre as nalgas dos que mimam
projectos de ordenamento litoral

Oh meu Algarve limpo e desenvolvido
hás-de ser o melhor destino europeu
depois de plantares bananeiras e coqueiros
e recifes de água azul e soberba
em que nadem tubarões e jet-skis

Oh meu Algarve desta gente tão contente
estás na crista da onda higienista
tens o oiro do caviar esfacelando-te as ventas
e um caranguejo verde-lodo murraceiro
protegido nos alguidares da reserva natural
na fundura de um anzol que ninguém usa
é dizimada a vida dos teus filhos

Oh meu Algarve do medronho e do figo
estância balnear dos pródigos sobrinhos
que agitam as velas do progresso
brincando aos homens sérios de ideias
desvinculadas do sou e do que acredito

Oh meu Algarve impressionista e trágico
hão-de enterrar-te como tudo o que matam
em todas as cidades de ti já extintas
com a culpa de mil deuses às costas
o teu destino é pedante servilismo

Oh meu Algarve desta juventude atónita
empenhada no cu de um fazer engolido
pela vontade de um querer ser contra
vestida à freak resignada mas direitinha

Oh meu Algarve branco esquizofrénico
infecto burguês viciado decrépito
és o que sempre foste e nada menos serás
o sol ardente com que te vendem aos caprichos
o vasto mar azul escondendo-te o lixo

Oh meu Algarve
adeus
que se foda a herança do meu pai
e tudo o que de ti subsista
porque o que tenho vai mais alto
e não é esperança cruel
nem outros tantos anos de mentira

João Bentes

04/10/2007

Dissestes puros os regatos da tua insónia

Arquivado em: poemas

Dissestes puros os regatos da tua insónia
limpas e férteis clamastes as lamas do outro tempo
quando um pouco de nada te calava a fome

Agora vazas as tuas horas entre caminhos gastos
colhes da água turva certos demónios de sal
dobrando a sombra dos peixes na tua memória

joão bentes

31/08/2007

boca genital compromisso verbal

Arquivado em: poemas

Quando tu falas eu entro na tua boca
mola bocal que comprime a minha vida
arquitectura existencial como uma prisão
sons de felicidade a representar a minha coragem de pensar

é possível que eu possa estar a nascer num exercício de amor
como se diante de um sexo acabasse de escrever

as tuas palavras são a tua roupa interior
de tudo o que tu dizes a minha atenção está na nudez
boca genital compromisso verbal

fernando esteves pinto

10/07/2007

de vida e de morte

Arquivado em: Uncategorized, poemas

talvez experimentares fechar os olhos por um segundo
o risco da loucura traça-se a giz à tua volta
sempre que abandonas os dias
talvez experimentar
o risco traça-se indelevelmente invisível
experimentar
o giz à tua volta traça-se de dias de abandono
os olhos por segundos fechados
a loucura volta sempre pelos dias de risco
talvez experimentares fechar os olhos por um segundo

aqui nunca se falou em pálpebras

pedro afonso

Eles eram tanta fome

Arquivado em: poemas

Eles eram tanta fome
tanta branca mal cortada
pendurados aos algerozes
da cobiça

Eles eram bóias insufláveis
pareciam cadeiras geriátricas
com pestanas postiças deslavadas
borbulhando na cal

E ainda se apagam quase sempre
encostados às prateleiras carcomidas
dos modernos jornais dramáticos

João Bentes

07/05/2007

PalavrapalavrA

Arquivado em: poemas

PalavrapalavrA
métricaPALAVRAmétrica
EstéticaEstética

joÃoBenTeS

24/04/2007

Dos nossos espinhos nasce

Arquivado em: poemas

Ouço o silêncio das nossas vozes e
declaro o som da tua
da nossa
ausência. Que clara a luz distante
na escura névoa que nos esclarece
que branda flor aquela
que nasce dos nossos espinhos
a chuva já cai num breve punhado de lágrimas
e o espectro de luz assoma-se
como que numa memória
de um tempo que é sempre igual
de uma história já contada

espero aqui por ti
enquanto a censura acontece
enquanto este segundo durar

Miguel Godinho

20/04/2007

PoEmA

Arquivado em: poemas

eu amo o cesto do teu corpo
todas as noites aMaChUcO palavras na tua pele

fernando esteves pinto

13/04/2007

vou na crista cinzenta dos corvos que regressam

Arquivado em: poemas

vou na crista cinzenta dos corvos que regressam
eu para além de ti e de mim e de todos e de tudo
nenhum punho me leva nenhum punho me trava
o que vês é impressão na areia do lugar onde dormi
e a água que se entranha nos teus olhos o lodo
um unicórnio todos os dias no teu sol
uma manhã de sal espraiada nos teus dedos
a saliva estalando de palavra em palavra
um fulgor que nos mata de dia em dia em dia
como se o tempo convergisse aqui onde me acendem
e muito feliz um barco me levasse pela terra adentro

João Bentes

21/03/2007

é mais acesa na orla das salinas

Arquivado em: poemas

é mais acesa na orla das salinas
a face escura dos animais furtivos
quando procuram no crepúsculo
a fruta fria entre a lama esquálida
onde aticem uma proa de fuligem

João Bentes

15/03/2007

Faz-nos pequenos a natureza

Arquivado em: poemas

Faz-nos pequenos a natureza
das insólitas venturas
como tratados de incapacidade
entregues aos rápidos moinhos
servis da posteridade execrável

Artífices de conjuras nebulosas
nesta terra vazia ensanguentada
de natureza nós pequenos
alicerces de pedra alguma
fantasia de coisa qualquer
exclamada tempo e agora

Sorteiam-nos máscaras antigas
e uma âncora aflitiva na condição
que nos revela seres confundidos
tisnados de plástico irresolúvel
nas reduzidas torres de cimento
ao fundo das sucatas que nos apagam

João Bentes

14/03/2007

começa aqui

Arquivado em: poemas

começa aqui
perturbador azul que vinca

o branco entremeado
agora margina-se dizível
ainda que tenda
tangível a fenda do abismo
para a fulgurante libertação

são dos vocábulos
quando inquietos nos sossegamos
as almas

crepitam linhas fluindo
frémitos totais
quando se vislumbra
o segredo
na tensa tendência
que atravessa sendo
tudo

pedro afonso

07/03/2007

Entre os escombros a máquina arde

Arquivado em: poemas

Entre os escombros a máquina arde
lírica na sombra _ Mestre _ nas árvores
as maçãs soltam o hálito vagaroso
das antigas tempestades de bronze

Reúnem o alto violino no punho
os nomes sérios do sal quente
a força bruta da água comandada
perfurando a terra seca

Entre os escombros a luz a máquina
as negras colunas de fumo
onde a lírica te arde
uma rosa imensamente vermelha

João Bentes

05/03/2007

mórtex

Arquivado em: poemas

a noite vagueia habita
a casa range escura
o tempo passa corpóreo
o som suspenso vacila

ofegares de sonhos que se agitam
na maré do córtex deslizam

das palavras restam
os sons que farejam
predatórios os usos
longe da boca

ao passar a mão pela testa
marca-se fixa a linha invisível

pedro afonso

28/02/2007

sento-me no vazio

Arquivado em: poemas

abismo de energia
eu
sinto me pairar

estar

bem

aqui

no branco intenso onde tudo surge
informe consciente no espaço sem
tempo em mente ou movimento
paciente fricção em fluxo permanente

tudo me engole e expele
tudo

há um calor imenso
sem significado
que me cala

pedro afonso

ligando desligando ligando

Arquivado em: poemas

ligando desligando ligando
no cérebro em movimento _ dizem
Mestre _ as palavras crescem para dentro
o corpo sedutor das mulheres _ nos olhos
ligando desligando ligando
as luzes _ encontram-se sempre por cima
onde não há tempo nem espaço
dizem _ Mestre _ as ruínas
levantam a voz o assombro a claridade
as mãos abrindo o livro
ligam desligam ligam
aquela sombra Mestre _ na cabeça
dizem _ infiltra-se no cérebro
o corpo movimento das mulheres
nas palavras cresce o tempo e o espaço
às mãos _ Mestre _ que escrevem
lavam a boca _ dizem _ no sangue
ligando desligando ligando
o vento sobre as ruínas do livro
com a luz por cima por dentro
estilhaça a barreira dos nomes _ a claridade
dizem _ é mais que abrir uma palavra
com as mãos _ Mestre _ até ao fundo

João Bentes

26/02/2007

nascimento

Arquivado em: poemas

da fenda as asas surgem trémulas
ainda quentes do suor do parto: por emplumar
agitam se numa mobilidade contida do que será
o voo inexpugnável duma nébula indelével

a flor mártir oxida
alimento em pouco tempo
energia sacrificada ao alado fulgor
que se adivinha em já amplos movimentos
crescentes brilhos asas pétalas
numa rotação astral que tudo toca
a inocência a abrasar o amor próximo

fendido o laço sem ser desfeito
esvoaça grito móvel enxurrada de brilhos

o vasto dentro que se corpora
membros ágeis já sem demora
monstro límpido constelar
tomando o tamanho de seus movimentos

só no rasto chove vida da que devora
assim órgão

pedro afonso

24/02/2007

o Pescador no inverno

Arquivado em: poemas

o Pescador no inverno
polindo o anzol de muitas linhas
atadas pelo gesto da paciência
ao ruído coreográfico do mar
esmagando as conchas
o Pescador com o anzol no inverno
Mestre _ quando a água é vermelha
enrola a cabeça dos peixes
nas linhas da paciência

o áspero esforço do silêncio
nos dedos as marés às voltas
na cabeça o salitre incendiado
das horas no rosto
do Pescador atado ao inverno
no anzol da paciência
com o ruído na boca _ Mestre
dos peixes na água vermelha

o Pescador entre as conchas
na cabeça por dentro das marés
no Inverno recolhe _ Mestre
o anzol com que ata a paciência

João Bentes











































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