Rui Costa na Trama
Filme de Adão Contreiras.
Apanhado na rede: filme da apresentação “Os Animais da Cabeça, de Rui Dias Simão. AQUI
Primeiro olho a folha em branco, depois sinto o perfume que dela brota, seguindo com a caneta os sinais indiciadores de uma presença que lentamente se assoma para finalmente se anunciar. De onde surgem estas inscrições com que marco as páginas? De onde provém a ideia que me força a exprimi-la? Que força é esta que me impele a borrar esta folha com um texto que há pouco não estava destinado a existir?
Importa perceber os mecanismos que levam este desejo (o qual existe primeiramente enquanto nada, depois sob a forma de ideia para por fim convocar obsessivamente a necessidade de materialização sob a forma de texto escrito) a tornar-se verdadeiramente um desejo. Porque primeiramente o desejo não existe, nem a concepção que o formula. Primeiro existe uma paz, depois um tormento, como se inicialmente fosse um sossego e posteriormente uma necessidade para, por fim, se tornar inteligibilidade. Que reacções se desencadeiam na mente para que sejamos compelidos a exprimir uma concepção, neste caso sob a forma escrita?
É o momento da inscrição, que se segue ao inferno da confrontação do moldar da ideia, que define a aparição. Primeiro o nada, depois a necessidade de confrontação para finalmente se permitir a inscrição. Quietude, pensar, inferno, beatitude. Primeiro a folha em branco, depois a necessidade seguida do confronto para finalmente se concretizar o registo.
O que sente uma pessoa no momento da aparição? Que luz é essa e de onde vem? De onde provirá esse rasgo de anunciação que subitamente nos assola, reclamando uma ordenação?
A aparição é o momento em que a ideia é expressa, em que a mesma se inscreve, ordenada. A aparição é a materialização (sob que forma seja) da ideia barroca, disforme e (ainda) incompreensível. A aparição é este texto que agora existe no papel e que anteriormente existia em bruto na minha cabeça. E que antes ainda, nem sequer existia.
Miguel Godinho
A escrita traz
à tona
o que jaz
mais no fundo
tesouros e detritos
futuros e passados
Luís Ene
As palavras são
meros artifícios
de luz e de sombra
com que se iludem
tolos e poetas.
Luís Ene
Sigo as palavras bem dentro de mim
na esperança cega que elas se iluminem no branco da folha
mas revelo apenas pobres imagens
multiplicadas pelo espelho turvo da minha imaginação
Escrever poemas é jogar palavras uma e outra vez
até lhes entrevermos um qualquer sentido
Luís Ene
Primeiro
nomeou todas as coisas
água terra fogo ar
Depois
só depois
é que descansou
Procuro
depois de tantos anos procuro
procuro ainda
a lâmina finíssima de luz
escondida
do outro lado
do muro
Tocas vagarosamente
um corpo adormecido
um caule
a folha da hera
e abre-se
uma cratera
Quando
escrevo
não sinto
não penso
apenas
escrevo
Digo-me
liberto
e o mundo
em mim
expressa-se
liberto
Luís Ene
Pegar nas palavras
E brincá-las,
Moldá-las,
Ateá-las como pequenas faúlhas
A crescer na lava incandescente;
Expelir de minha boca
Pedaços de tudo o que quis
De tudo o que fiz,
De tudo o que deixei para trás.
Ferida que arde resplandescente
A minha boca fechada
NUNCA MAIS!
E rastejar
E arrastar-me
Até o sol nascer.
Convences a quietude primordial
da caneta a descobrir o caminho das
vozes que afagam uma memória
silenciosa. Permites-me ver-te
a face escondida na bruma do medo,
obrigando-me ao receio de fabricar uma lembrança
que nunca existiu e que se inventa de novo.
É como se ganhasses vida própria,
sem que nem eu nem essa caneta consigam
orientar o vento que da folha escrita advém.
És força sem motor nem combustível,
uma vontade autónoma, um fogo que arde
sem que ninguém o inflame.
Sei que existes porque assim o ditas,
porque a vontade de te dizeres é
o meu desejo de te consumir.
Miguel Godinho
meia dúzia de palavras
céu vento mar luz eu tu
e um mundo é gerado.
Luís Ene
Sim
a palavra laranja
tem sumo
só é preciso
saber escrevê-la
só é preciso
saber espremê-la
Luís Ene
escrevo com silêncio
deriva de palavras
e a luz assoma-se no fingimento
pedro afonso
Uso as palavras para me dizer
no silêncio do que fica dito.
A escrita é luz e fingimento.
Luís Ene
Vi pelos seus olhos o Templo
duas vezes
as catorze colunas erguidas como se acabassem
de ser talhadas na pedra
como se a noite não tivesse outro refúgio
como se a luz só então começasse a erguer-se
de entre as suas inúmeras sombras
como se o mundo
estivesse à espera que eu chegasse
do estrangeiro
sem nenhuma arma no espólio
olhando assim
as linhas inumeráveis da fronteira
para tecer os seus fios tão frágeis
de porcelana
breve
iluminada e
sei que
nunca mais
[José Carlos Barros]
as palavras que escrevo
são muito inconstantes
ora riem de mim
ora choram por mim
ora tudo iluminam
ora tudo obscurecem
é por isso que são
sempre tão verdadeiras
[Luís Ene]
Passará pela cabeça de alguém
destapar uma coisa embrulhando-a?
Então porque insistimos nós em
revelar as verdades com palavras?
Luís Ene
do fôlego profundo
que afoga a lua
treme uma única palavra
híbrida o suficiente
para poder ficar só
Pedro Afonso
As palavras são
muito importantes
e eu sei muito bem
que assim é
No entanto
quero sempre mais
o mar o vento a luz
que lhes dão corpo
os beijos e abraços
que elas são
[Luís Ene]
As palavras brilham
em ti
noite e dia
para que tu possas
ver sempre
quem és.
… penso que nunca procurei
ser a sombra da luz que se apaga,
porque ninguém foi para mim
a luz permanente que sufoco
dentro da minha escuridão.
fernando esteves pinto
uma luz
bem dentro de ti
estrela ou farol
a guiar as palavras
que escreves
na noite
Luís Ene
A coisa é
mais simples: uma
luz muito forte
não permite
que vejas. Depois
uma sombra
devolve-te
o olhar
que desde sempre
procuras.
[José Carlos Barros]
Há um vazio essencial que antecede a escrita
depois vem um perfume que se vai espalhando
uma presença que se constrói quase sozinha
e se revela discretamente
vagueias progressivamente neste poema
espreitando timidamente por entre as palavras
tentando que te sinta e te
dê a forma das letras que te escrevem
só assim consegues que
te vá calmamente descobrindo
até que o esplendor que te nomeia
ilustre finalmente a fresca
claridade da folha de papel
e eu te sinta plenamente.
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